Primeira Pessoa

O Machado Maldito de Edeinawc

machado 2

Boa noite, linda viajante! É a sua primeira vez em Creidhne? Dá para notar que você não é de Middel’erde pela sua pele bronzeada. Aqui todos são tão pálidos quanto a neve. Alias, belas madeixas negras, se me permite elogiar. São raras aqui. Cachos doirados existem às pencas, você até se entedia! Posso ver também que sua forma física parece ser mais… oh, tenha calma! Você me julgou mal! Não pense que estou lhe cortejando ou algo assim!

Para compensar esta má impressão, posso lhe pagar uma bebida? Obrigado! Você me honra! Taverneiro, traga para a jovem uma caneca de hidromel, por minha conta! Espero que isso deixe a sua impressão de minha pessoa mais… Ah, que falta de modos, ainda nem me apresentei. Sou Gwyon Bach, um miserável trovador, seu criado!

Percebo, a julgar pela imensa espada que carrega, que sois uma aventureira. Sim, sim! Eu admiro muito o trabalho de vocês. Aventureiros são os responsáveis por manter o mundo mais seguro. Eu seria um aventureiro se meus talentos fossem mais desenvolvidos… oh, não! Aventuras, eu?! Está me confundindo com os bardos e menestréis. Pobres trovadores como eu só sabem cantar e tocar e contar histórias dentro de tavernas protegidas e aquecidas. Alias, gostaria de ouvir uma história?

Maravilha! Bem,  já que é uma guerreira, devo lhe contar a trágica história de um guerreiro como você. Ou quase isso. Irei lhe contar a história de um Berserkr.

Imagino que você não saiba o que é um Berserkr. Bem, no idioma antigo usado aqui no norte Berserkr significa “filho do urso”. São guerreiros imbatíveis, abençoados com uma fúria e uma sede de sangue implacável. No passado, quando os divinos caminhavam sobre esta mesma neve, havia muitas batalhas. Um simples humano jamais poderia fazer frente ao poderio de deuses, por isso Wotan criou os Berserkrs, para que eles tivesem um mínimo de chance… não, não. Os Berserkrs não são sacerdotes, são apenas abençoados com o poder de Wotan. É diferente. Trata-se de uma dádiva passada de pai para filho, embora nem todos cheguem a desenvolver tais poderes. Eles nascem com esta fúria interior escondida no seu cerne e quando a despertam, fazem juz ao nome “urso” e se tornam bestas temíveis no campo de batalha.

Oh, mas chega de explicações. Vamos à história.

Há muitos anos atrás, quando Creidhne era pouco mais que uma vila, surgiu um Berserkr que se tornou notório em muitas lendas. Edeinawc Björn, o Urso-Caolho. Nascido numa família pacífica, despertou para sua vocação após um traumático evento que vitimou seus pais. Quando entrava no seu frenesi de sangue, Edeinawc se tornava um matador que não poupava nenhum oponente. Porém, quando estava calmo, ele era tão gentil quanto uma donzela. Colecionava troféus aos montes e jamais voltava de uma batalha sem ter matado pelo menos cem homens. Os inimigos tremiam só de ouvir o seu nome, e o povo de Creidhne tinha muito orgulho dele.

Porém, Edeinawc não apreciava a besta que habitava em seu ser. Detestava lutar, sempre tentando arrumar uma forma pacífica para resolver desentendimentos. Mas quando pisavam em seu calo, não havia sangue suficiente que o saciasse. Jamais teve filhos, pois não desejava passar adiante a linhagem que, muito longe de uma bênção, considerava uma maldição. Procurava sempre viver afastado das pessoas, pois temia que sua fúria acabasse matando os que lhes eram caros. Em seu frenesi um Berserkr dificilmente consegue diferenciar um amigo de um inimigo.

Porém, houve uma pessoa em especial que ele amou mais do que a própria vida: Grainne, a Lâmina Dourada. Uma das mais belas guerreiras que já pisou sobre Creidhne. E uma das mais imbatíveis. Quando cavalgava nas florestas, presa alguma escapava do seu arco e flecha. Quando lutava, sua espada movia-se com tamanha graciosidade que muitos inimigos hesitavam antes de serem golpeados só para apreciá-la. E nos momentos de tranquilidade cantava para seus companheiros.

Ela era a única que não temia Edeinawc quando ele estava furioso, pois a ligação deles era tão forte que bastava a guerreira se colocar na frente dele que o frenesi passava. Não se conhece nada que possa interromper a fúria de um Berserkr, a não ser sua própria força de vontade. E era exatamente isso que acontecia. Ambos se amavam tanto que Grainne não precisava temer Edeinawc, fosse em qualquer situação.

Um dia, quando estavam na vila de Morias, souberam que o local passava por má sorte. Uma turba de bandoleiros invadiu a região e, sem saberem, avançaram para onde o Urso-Caolho se encontrava. Os vilões pediram ajuda ao Berserkr, que resolveu usar de sua fama para tentar conter o avanço e evitar derramamento de sangue. Junto com seus amigos, ele marcou um ponto para conversar com os foras-da-lei.

Quando os bandoleiros chegaram, fizeram suas ameaças e brandiram espadas. Edeinawc, impassível, na companhia de Grainne e outros amigos, apenas se colocou na frente dos inimigos e disse: “Sou Edeinawc Björn, o Urso-Caolho. Peço que cessem as suas bandidagens, agora!”. A fama dele era tão grande que metade do bando tremeu e, imediatamente, fugiu. Porém houve aqueles que não retrocederam. Entre eles estava Gwrgi Cintura-Grossa, o chefe dos bandoleiros e que não temia a morte, nem o Berserkr.

“Então você é o Urso-Caolho? Bah! Já ouvi a sua fama, moleque, e não me impressionei!” motejou o bandido. “De fato, não creio que nem metade seja verdade. Enfrentei inimigos poderosos, entre eles até mesmo um gigante. E saí vitorioso! Por que temer uma criança que tão simplesmente se irrita em demasia de tempos em tempos?”

Naturalmente não foi apenas isso que saiu da boca de Gwrgi, mas muito mais desaforos. Edeinawc fez mais algumas tentativas de evitar um massacre, mas não se conteve quando o desafiante fez gracejos pouco louváveis para Grainee (não, não! Os chistes de Gwrgi eram sujos demais e eu jamais teria coragem de repeti-los para uma dama como você!). Furioso, o Urso-Caolho atacou. Seus acompanhantes já sabiam do desfecho: tripas e sangue espalhados pela neve.

Mas qual não foi a surpresa de todos quando o infame Gwrgi conseguiu esquivar-se dos primeiros ataques e devolveu as gentilezas com fúria fenomenal. Ele podia ser feio e arrogante, mas era mesmo um guerreiro fabuloso! Com sua maça e escudo, refreou boa parte dos ataques do Berserkr e conseguiu lhe desferir vários golpes mortais. Naturalmente, ele subestimou Edeinawc e a luta foi mais dura do que ele esperava. Do mesmo modo, o Berserkr também via aquele corpulento guerreiro se interpor contra ele de maneira que jamais nenhum outro homem fez.

Golpes e mais golpes se sucederam, até que o bandido conseguiu acertar uma pesada pancada na cabeça do adversário, ao mesmo tempo que recebeu uma coronhada poderosa.  Ambos caíram desacordados.

Jamais em toda a sua vida Grainne viu o amado desfalecido, pelo menos não antes do final de uma batalha, quando a fúria consumia seu fôlego. Ficou ainda mais aflita quando os outros bandidos tentaram atacar o guerreiro desacordado. Os companheiros de Edeinawc, furiosos, reagiram também, mas como estavam em menor número foram todos mortos pelos criminosos, mas não sem antes levar alguns deles para o outro mundo. A guerreira também tombou, mas foi poupada.

Ao final da peleja, o bando carregou seu chefe nos ombros e deixaram Edeinawc vivo. Mas também levaram como troféu a bela Grainne.

Dois dias se passaram. Quando finalmente despertou, o Berserkr encontrava-se numa casa de cura. Os benzedores, com muito pesar, contaram sobre a morte de seus amigos e lhe entregaram uma carta dos bandoleiros. Gwrgi se recuperava aos poucos da luta passada e propunha um novo duelo. E colocava a dama guerreira como prêmio principal.

Obcecado, pois Grainne era a luz de sua vida, Edeinawc foi até o local marcado para a luta com o machado em punho e sangue nos olhos. O covil dos bandoleiros encontrava-se numa colina alta e de difícil acesso. O ar era tão gelado que os pássaros caíam mortos de seus ninhos, mas nem mesmo toda a frieza do reino de Niflhein seria suficiente para aplacar as chamas que queimavam dentro do Urso-Caolho.

Enfim, no local combinado, ele encontrou Gwrgi Cintura-Grossa sentado num banquinho, rodeado pelos seus capangas e com a bela Grainne amarrada a uma árvore. O bandoleiro ainda tinha algumas ataduras pelo corpo devido aos ferimentos que recebera, mas arrancou-as e preparou-se para o novo duelo. Edeinawc ainda não estava furioso o suficiente para despertar seu frenesi (pois da mesma forma que surge em ocasiões pouco propícias, a fúria também pode não surgir quando necessária). E então, após alguns segundos se estudando, os guerreiros se bateram.

Foi uma luta ainda mais terrível e sangrenta do que a anterior e o adversário agora jogava sujo. Para garantir a vitória, ele usava um bracelete mágico que aumentava a sua força e fazia com que seus golpes fossem muito mais pesados e devastadores. Ferido de morte, Edeinawc ouviu o grito de Grainne: “Não deixe este verme derrotá-lo, meu amor! Eu preciso de você, como você precisa de mim. Levante-se!” e isso ativou o seu frenesi mais uma vez. Só que agora, muito mais intenso que o anterior.

Gwrgi, que não temia nada, enfim conheceu o medo. O berserkr agora estava ainda mais furioso do que na luta anterior e nem mesmo a força de três vezes três gigantes era suficiente para refreá-lo. A medida que o bandoleiro não via escolha a não ser recuar pouco a pouco, seus companheiros ficavam apreensivos e já se preparavam para pegar em armas para ajudar o líder – embora todos também estivessem com medo.

Então, num golpe poderoso de seu machado, Edeinawc cortou fora o braço protegido pelo bracelete mágico de Gwrgi. O sangue esguichou feito uma cascata. O chefe dos bandidos foi abatido com um segundo e derradeiro golpe, morrendo em pânico. Naquele momento todos os bandoleiros pegaram em armas e se preparavam para lutar contra o inimigo, mas o berserkr ainda estava em seu frenesi e matava todos com facilidade. E a altiva guerreira, não era tão indefesa assim, usou uma lâmina que mantinha escondida no cinto para cortar as cordas que a prendiam.

Naquele momento a luta já estava ganha. Grainne começou a correr em direção ao amado para tranquilizá-lo, já que restavam tantos bandoleiros de pé quanto existem dedos em nossas mãos. O berserkr estava de costas para ela, trucidando um inimigo. Ela abriu a boca para falar com ele: “Edeinawc!” exclamou.

E quando ia falar mais alguma coisa, um bandoleiro a agarrou, pensando em fazê-la de refém. Uma manobra inútil contra um berserkr, pois eles não podem ser refreados por tais artimanhas.

Ao ouvir sua voz, com o seu frenesi passando, o guerreiro se virou com a arma em punho, mas infelizmente a primeira coisa que viu foram as costas do bandido. Por instinto, ele moveu seu machado…

…e a lâmina enterrou-se no ombro esquerdo do criminoso. E só depois dele gritar é que o berserkr percebeu que a guerreira estava cativa nos braços do inimigo. E por consequencia disso também recebeu o impacto do golpe que produziu um ferimento horrendo em seu belo corpo.

Naquele instante a névoa da fúria desapareceu completamente da cabeça do guerreiro. Todos os inimigos jaziam mortos e Grainne estava caída numa poça de sangue. Ele atirou-se sobre a moça, que ainda respirava. Com seu último suspiro, a bela jovem murmurou: “Não foi… culpa sua…” e então entregou seu espírto aos deuses.

O berserkr soltou um urro. Mas não era o urro característico da sede de batalha ou do calor do ódio. Era um urro frio e lamentoso de desgosto profundo. Edeinawc agarrou sua arma, ainda molhada com o sangue dos inimigos e de sua amada, mirou uma rocha e gritou:

“AAAAAAHHH!!! Maldito seja este machado!!!”

E o aço poderoso rachou-se como uma tábua velha, assim como a própria rocha também se defez em pó. Alucinado, ele entrou numa espiral de loucura da qual nem mesmo o mais apaixonado Berserkr gostaria de chegar.

Ele se tornou uma Besta Berserkr. Um estágio da qual nenhum guerreiro jamais volta a recuperar sua humanidade. Uma fera no sentido literal da palavra, da qual nem mesmo os dragões se comparam. Deixando os despojos e cadáveres para trás, o Urso-Caolho jamais voltou a ser visto. Pelo menos não por alguém que tenha voltado vivo para reportar.

O povo de Morias recuperou o corpo de Grainne e o colocaram numa pira funerária com todas as honras que uma guerreira merece. Também recuperaram os restos do machado que, em memória ao guerreiro desaparecido, decidiram reforjar e usar em batalhas futuras. Eles acreditavam que a arma que o berserkr deixou para trás ainda tinha muito dele e, só por ter passado por seus dedos, permitiria-lhes gloriosas vitórias.

Mas o tempo revelou o contrário. Aquele machado, com o próprio Edeinawc desejou no seu momento de dor, tornou-se amaldiçoado.

Qualquer um que o empunhasse por algum tempo de fato conseguia belas vitórias, mas cedo ou tarde acabaria padecendo do mesmo destino do Urso-Caolho: a arma encontraria o corpo de alguém querido ao dono do machado, e ele acabaria matando este ente com as próprias mãos…

O machado foi para um guerreiro garboso, que terminou matando por acidente a própria mãe durante um treinamento. Depois passou para as mãos de um bárbaro de Goibniu, que sem querer decapitou o próprio filho quando o ensinava a lutar. Uma mulher que comandava um pequeno exército resolveu fazer uso dele e, num desastre, enterrou a lâmina no peito do irmão mais novo enquanto tentava defendê-lo de inimigos. E assim se seguia. Qualquer um que fizesse uso daquela arma acabava, fatalmente, matando alguém que lhe era caro.

Muitos tentaram destruí-la, mas não tiveram sucesso – e de fato os que tentaram, dizem, sofreram ainda pior sina, assassinando por engano dois os três entes queridos. Dizem também que nem é preciso empunhá-la, mas basta que alguém a segure que a maldição já se realiza.

Hoje o destino da arma é desconhecido, e de fato ninguém quer encontrá-la. Por isso, bela guerreira, quando for vagar pelas cavernas profundas ou por entre templos abandonados, tenha cuidado se você encontrar um machado pelo chão ou entre tesouros, pois ele pode ser o Machado Maldito de Edeinawc. E de posse dele você acabará matando uma pessoa querida.

E então? Gostou da história? E da onde veio esta, muitos outras também… oh, mas já vai embora? Tão cedo? Então diga-me, minha bela, já tem lugar para ficar? As estalagens de Creidhne costumam ser muito caras. Eu posso lhe oferecer de graça o meu quarto, se quiser. É pequeno, mas muito aconcheg… oh, espere! Não vá embora assim! Pelo menos diga-me seu nome, para que eu possa criar uma canção em seu louvor… ei, psiu! Ei!

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