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Memento Mori 3

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PARTE 1      PARTE 2

O rosto da criança não estava em boas condições.

A máscara mortuária era fria, dura e descolorida, mas conseguia disfarçar razoavelmente as manchas rubras e o início da descarnificação da morte. Já fazia dois dias que a menina tinha morrido e foi preciso muito pó-de-arroz para disfarçar os sinais de Livor Mortis que se acumulavam na base do pescoço. As flores ajudaram, o que dificultou foi o corpo rígido que não queria se encaixar na posição exata de maneira nenhuma. Não foi possível cruzar os dedos da menina sobre o peito, tiveram que ficar paralelos ao corpo e, razoavelmente, erguidos. Foi assim que o cadáver endureceu.

Aquela foi o melhor trabalho de Phineas naquele mês. Para variar, ele não foi hostilizado por ninguém.

Conhecido por rodar pela cidade à procura de famílias que tinham perdido entes queridos recentemente ou mesmo que estavam para perder, a fama do fotógrafo especializado em Post Mortem não andava muito boa.

A medida que seu trabalho ficava mais conhecido em Oxford, crescia também o cabedal de rumores impróprios à cerca de sua pessoa. Não era considerado de bom tom quando ele vinha bater na porta da casa de um casal cujo filho estava na fase terminal da cólera, mas ainda estava vivo. Muito menos era agradável quando ele visitava os hospitais apresentando seu cartão de visitas aos parentes de pacientes desenganados. Diziam que, caso o famigerado que ele pretendia fotografar ainda tivesse alguma chance de sobreviver, morria logo após a visita do fotógrafo. Pior: corria à boca pequena que ele mesmo assassinava pessoas para ganhar dinheiro sobre elas depois.

Disparates. Phineas era inconveniente, mas não faria mal à uma mosca.

– Pronto, senhora Rupert. – disse ele, começando a desmontar seu maquinário. – A foto já está pronta! Vou lhe enviar uma cópia ainda esta semana.

– Tem certeza que minha menininha ficará bonita nela? – perguntou a matrona, sentida.

– Mas é claro! A máscara mortuária é perfeita! O profissional que a fez é muito bom. Creio que vou querer saber o nome dele depois se precisar indicá-lo para outros clientes – mentiu. – Verás como a foto imortalizará o rosto de sua pequena anjinha tão belo quanto o é no paraíso.

– Espero que bem mais bonito que o seu… – murmurou a mulher.

O comentário grosseiro da mulher não foi gratuito, de certa forma. O rosto de Phineas não era nada agradável de se ver.

O homem era um sobrevivente da varíola e por isso tinha sob a pele marcas de cicatrizes e pústulas escuras e mal curadas. Elas começavam no canto do olho direito, desciam pela bochecha e se escondiam debaixo das suíças ralas e mal cuidadas. Para culminar, o rosto do fotógrafo não era bonito por natureza desde antes de sua enfermidade, tendo as bochechas muito magras e um nariz adunco e descolorado. Aquela aparência alimentava ainda mais as más línguas contra o fotógrafo: ‘É um morto-vivo amaldiçoado a fotografar os mortos pela eternidade!’ diziam alguns.

Como se Phineas precisasse de mais motivos para ser alvo de fofocas indecorosas.

post mortem

Uma vez, quando andava próximo da Carfax Tower, viu alguns estudantes rindo indiscretamente. Como tinha que fazer a foto de uma jovem que estava em uma casa próxima (e, provavelmente, os mancebos sabiam disso) não pode evitá-los. Entrou na casa, cumprimentou os parentes e começou a trabalhar com seus apetrechos. Primeiramente preparando o cadáver, colocando-o de pé e forçando os músculos frios e rígidos do rosto da moça a esboçarem um sorriso. Logo depois começou a ouvir murmúrios vindos da janela. Tentou ignorá-los, mas acabou ouvindo horríveis impropérios contra sua pessoa vindos dos estudantes espiões.

– Olha… o velho McCartney está arrumando o corpo da moça…

– Eu que queria arrumar um corpo de potranca desses!

– Vai ver, quando os parentes não estão vendo, ele manda ver nas donzelas geladas, hehe!

– Só nas donzelas? Não duvido que o nosso morto-vivo aí sodomiza também os marmanjos mortos de sífilis, hahaha!

Era difícil manter a compostura, mas Phineas jamais entrou em atrito com ninguém, mesmo quando abertamente provocado. A maioria vinha dos cocheiros que, sem nada de bom para falar durante as intermináveis viagens que o fotógrafo tinha que fazer com seu material pela cidade, faziam perguntas pouco louváveis:

– Tu tá morto? Dizem que tu é um destes zumbis que não foram enterrados em solo sagrado e por isso ficam a zanzar pelo mundo dos vivos sem descanso. Que teu pecado foi adorar imagens de pagãos e agora tem que tirar foto de cadáver até o final dos tempos. É isso aí… cadáver que anda, hah! – fez uma troça. – Morto feito um dodô. É verdade?

– Morto? – sim, este era um dos comentários que o fotógrafo mais ouvia sobre sua pessoa, por isto ele já tinha uma resposta pronta. Tirava do bolso do seu casaco um guinéu de ouro, balançava-o sobre os dedos e dizia. – Estou é mais vivo do que nunca.

Alguns cocheiros gruniam, outros riam, outros ficavam calados. Era verdade: Phineas estava vivo e vibrante. E ganhando muito dinheiro com a morte dos outros.

Porém, com alguns trabalhos, ele realmente tinha que arriscar a vida.

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Certa vez teve que fotografar um jovem que havia falecido de alguma doença contagiosa. A recomendação dos médicos é que o cadáver ficasse de quarentena até terem certeza de que não haveria mais perigo de disseminação da doença. Os parentes, porém, estavam desesperados, pois sabiam que o corpo não estaria mais em condições de ser fotografado. Agindo como um verdadeiro herói (e sendo muito bem pago por isto) Phineas esgueirou-se com seu material pesado pelo jardim dos fundos da casa fechada a fim de realizar seu trabalho.

Encontrou uma janela entreaberta onde era possível ver a silhueta do rapaz morto. Com um pedaço de ferro comprido, abriu a portinhola de madeira, evitando se aproximar demais do local contaminado, e vislumbrou a cama onde estava o jovem. Começou a montar seu equipamento o mais depressa que podia, pois quanto mais ficasse respirando aquele miasma, mesmo de longe, mais sua vida estaria em risco. Não teve como caprichar: tirou uma foto simples do morto na janela e só.

Porém, algo que o perturbou um bocado, quando voltou para o seu laboratório e revelou a foto, foi notar que os olhos do rapaz estavam abertos… e ele se lembrava muito bem de que, quando começou a aprontar o material, os olhos NÃO estavam abertos.

Infelizmente não era incomum: moribundos de doenças perigosas eram declarados como mortos antes do tempo e deixados para morrer durante as quarentenas.

As fotos que ele tirava das crianças (que eram o grosso dos seus pedidos) costumavam lhe causar pena. No caso de infantes que morriam devido a doenças ele costumava ficar mais conformado, mas era duro fotografar um jovem menino morto durante uma queda na aula de equitação. Ou mesmo crianças que eram assassinadas por mães vítimas da histeria.

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Havia, porém, alguns raros trabalhos em que as recompensas eram bem maiores do que o esperado.

Acostumado a ouvir chacotas e gracejos, Phineas desenvolveu uma insensibilidade extraordinária à insultos. Certa vez chegou na casa de um jovem cliente que queria ser fotografado ao lado do irmão gêmeo morto. Um trabalho simples. Porém, sem mais nem menos, assim que entrou na casa o rapaz que encomendou o trabalho pareceu ter-se arrependido amargamente.

– Fora! Não quero você aqui!

– Mas, jovem senhor Eddard, eu vim aqui porque o senhor me chamou com urgên…

– A urgência já passou, corvo! Meu irmão já está morto!

– Mas senhor… eu percorri um longo caminho com meu pesado material…

– Morto-vivo desgraçado! – o rapaz cerrava os punhos. – Cara-de-pústula maldito! Você ganha dinheiro em cima da desgraça!

Como o caminho que tinha feito fora realmente longo (e o preço da charrete foi bem salgado) Phineas perdeu uns bons vinte minutos tentando convencer o rapaz a permitir que ele concluísse o trabalho. Chegou até a sugerir que faria a foto de graça, só para não perder a viagem. Mais calmo, o jovem permitiu que ele começasse a preparar seu material.

– Eu não vou pagar um só penny a mais do que você gastou para vir aqui, abutre!

– Claro, jovem senhor Eddard.

– Nem um a mais! Leproso desgraçado… – murmurava, numa voz que claramente usava a raiva para disfarçar o choro. – Rola-caixão… ladrão de cadáver miserável…!

Durante todo o tempo que foi ajeitando a máquina, o fotógrafo viu seu cliente se acalmar. Por fim ele até concordou em posar ao lado do irmão morto para que a foto ficasse com uma impressão mais viva. Quando recebeu seu pagamento, recebeu o dobro da quantia combinada e ainda um pedido de desculpas.

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Outro trabalho que havia feito naquele mês e que, por pouco, não foi melhor do que o mais recente (o da criança com a máscara mortuária) foi quando atendeu ao chamado de um casal cujo bebê havia falecido.

Era perto de casa, de modo que não precisou chamar nenhum fiacre para levar sua máquina até o local. Foi recebido por um homem sorridente e uma mulher apática. Pediu para que os dois sentassem próximos e que a criança ficasse no colo do pai.

– No colo de quem? – perguntou a mulher.

– Do pai. Creio que assim ficará melhor. – disse o fotógrafo. – Ou prefere você mesmo segurar a criança, senhora?

– Senhorita. E ele não é o pai da criança.

Era difícil pegar Phineas de surpresa, mas depois daquela preferiu não falar mais nada. Mesmo assim a mulher (Lucy era seu nome, e ela fazia questão de ser chamada de ‘senhorita’) explicou que era mãe solteira e aquele que estava com ela era seu futuro esposo. O homem, ao saber que ela estava grávida, assumiu a criança, mas não teve tempo de aproveitar a paternidade. O bebê faleceu com dez meses.

A foto foi tirada e ficou bem convincente. O rosto alegre do homem desmanchou-se numa genuína expressão de pesar, sem parecer forçada demais. O fotógrafo teve a desagradável sensação de que o noivo estava feliz em ver aquele bebê morto. Logo depois da foto tirada, ele mesmo carregou o pequeno cadáver para a casca mortuária para ser preparado para o velório, deixando a noiva e o fotógrafo a sós.

– Senhor McCartney?

– Sim, senhora… digo… senhorita Lucy?

– Não quer ajuda?

– Oh, não não… – o fotógrafo sorriu. – Já estou acostumado a desmontar minha máquina.

– Parece difícil. – ela observou, colocando uma mão no ombro dele.

– De fato parece, senhorita. Mas eu já fiz este desmonte mais de uma centena de vezes. Imagino que já deve ter testemunhado fotógrafos novatos embaralhando-se com os ferros, mas isto não acontece comigo! Tenho muita prática em armar e desarmar este tripé.

– Tenho certeza que tem mesmo… muita prática em armar este tripé.

Quando Phineas virou-se para verbalizar a sua incompreensão a cerca daquele último comentário, Lucy jogou os braços por sobre seus ombros e o beijou. O impacto do corpo dela sobre o dele o fez perder o equilíbrio e ele caiu no chão com máquina e tudo. Por um segundo o desespero tomou conta dele, acreditando que sua câmera estava avariada, mas esta preocupação logo devaneou-se quando ele sentiu uma mão firme invadir o interior de suas calças e agarrar suas ceroulas.

– Se… se… senhorita Lu…!

– Quieto, morto-vivo. – disse a mulher, com uma placidez na voz que não parecia adequada à ocasião. – Quero ver se você é gelado aqui embaixo.

Certamente ele não estava gelado. De fato a temperatura do corpo de Phineas começou a subir. Imediatamente.

– Já cavalguei muitos garanhões, senhor McCartney. Incontáveis. – disse a mulher, beijando-o ternamente no lado do rosto onde ele tinha as cicatrizes de varíola. – Mas um morto-vivo é a primeira vez.

Se havia alguma palavra que restasse ao fotógrafo, esta desapareceu quando Lucy cobriu a boca dele com seus lábios. Ele não fez mais nada, exceto obedecer a única instrução que a mulher lhe deu: “Não ouse se mexer. Fique rígido… firme… como um cadáver.” E ele ficou. Extremamente rígido. Só não conseguiu ficar tão silencioso quando um morto deveria ficar.

Teria sido realmente seu melhor trabalho do mês, não fosse pela pequena avaria (felizmente não muito grave) que acometeu sua câmera.

A noite já havia caído gelada sobre Oxford. Depois de guardar todo o seu material, Phineas lembrou-se do nome que tinha anotado do artesão de máscaras mortuárias que pegou com a senhora Rupert naquele dia. “Que trabalho de porco…” murmurou, amassando o papel.

Não estava com muita disposição para trabalhar noite adentro. Decidiu que iria revelar a foto somente no dia seguinte, se tivesse coragem. Tirou a roupa, entrou ficou na banheira de água quente por alguns minutos e logo já se aprontou para dormir. Estava cansado, muito cansado. Enquanto terminava de vestir sua roupa de leito, olhou-se no pequeno espelho que tinha pendurado na parede do quarto. Sorriu para si mesmo e foi dormir.

Ele ainda estava vivo.

O único rosto vivo a adornar aquelas paredes forradas com milhares de fotos de seus trabalhos anteriores. Milhares de rostos de pessoas mortas, todas pregadas nas paredes do cômodo de cima a baixo, vigiando-o durante o sono.

E aquilo, por mais estranho que parecesse, trazia-lhe conforto.

Mori7
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Sinantrópicos

O apartamento tinha cheiro de geladeira fedorenta. Talvez porque de fato havia uma geladeira velha e enferrujada no canto da cozinha. Uma cozinha sem ladrilhos, de pia quebrada e paredes verdes de bolor.

No meio da sala havia os restos de um sofá surrado, os cantos de madeira aparecendo, a estopa saindo e com o pouco que restava do estofado todo queimado com ponta de cigarro. Uma televisão de tubo com vidro quebrado estava jogada num canto. Em um dos quartos, uma cama só com o estrado. No outro um armário velho sem portas cheio de tralhas, incluindo um cd player que devia ser o único eletrodoméstico que funcionava na casa.

O banheiro não tinha pia e o vaso estava sem tampa. Não havia chuveiro, só um cano enferrujado que gotejava água. Os vidros das janelas e do terraço estavam negros de poeira, nem dava para apreciar a bela vista da Rua Augusta que se encontrava logo em frente. Não havia um cômodo onde as paredes não estivessem descascadas ou no cimento. Por fim o carpete: todo desfiado, manchado e exalando um cheiro estranho.

– Oh… bem junk mesmo. – disse o sujeito resfriado que acabara de entrar no recinto. Ou talvez seus espirros fossem por causa do cheiro de bolor. Já tinha visto fotos de locais decadentes assim. Nas revistas de rock e nos álbuns de fotógrafos alternativos pareciam bem mais agradáveis. Talvez porque foto não pegava cheiro. – Aqui é o inferno?

– Não, é só o meu apartamento. – respondeu a moça do moicano roxo. – Parecido, principalmente nos dias de calor e quando o síndico aparece, mas não. Não é o inferno. – ela sorriu como quem espera o outro rir da piada.

– Como você consegue viver num lugar como este? – o rapaz não conseguiu rir. Olhava ao redor incrédulo. – O que houve com a televisão?

– Quebrei. Ano passado. – ela pegou um fiozinho solto do moicano e começou a enrolá-lo. – Eu tava muito puta e dei um chute nela.

– E porque você não jogou fora?

– Ah, eu sempre esqueço. Além disso ela já não funcionava mesmo, não mudou muita coisa.

O rapaz ia caminhando pela carcaça encarquilhada daquele cadáver apodrecido que a moça chamava de “apartamento”. Pisava no carpete com o mesmo nojo que teria se estivesse patinando em bosta.

– Deve ter rato aqui! – disparou.

– Não, rato não tem.

– Barata deve ter de monte!

– Ah, sim. – a moça estremeceu. – Mas eu compro umas iscas e espalho por aí de vez em quando.

– Você come aqui?! – ele foi até a cozinha.

– Não, como numa lanchonete aqui em frente. O único lugar que aceita fiado.

– E o banheiro? Como você faz?

– Bem, ele é mais limpo do que muitos banheiros público por aí, já que só eu uso. Costumo tomar banho no meu trampo ou na casa de amigos. Ou, quando está muito calor, eu tomo banho frio mesmo.

Tossindo, o rapaz esticou o pescoço para ver o estado do quarto dela. Não podia acreditar.

– Você dorme em cima do estrado?

– Claro que não. Eu mantenho uns colchonetes guardados numa sacola de plástico pendurada na parede. Só tiro para dormir. E nem sempre eu durmo aqui.

– Cara… – ele levou a mão à cabeça e aos olhos, sentindo os efeitos de uma rinite alérgica. – Eu não vou te comer neste lugar!

Era inacreditável. Aquela punk bonita e cheirosa, que ele conheceu na Frei Caneca, morava numa coisa que nem dava para chamar de muquifo. Claro, a localização era ótima: Rua Augusta. O sonho de consumo dos baladeiros da cidade. Por fora o prédio realmente parecia meio caído, antigo. Mas nada neste mundo preparou Fernando para aquilo.

– Eu disse que era melhor irmos para outro lugar. – a garota continuava a enrolar o fio caído do moicano.Tão meiguinha… – Se você… – ela fez uma pausa, olhando para o chão. – … não quiser mais…

– Bom… – ele levou a mão ao bolso. Tinha sete reais e alguns centavos. Não poderia ir num draivão nem se tivesse carro e contava com aquelas moedas para tomar o metrô e voltar para casa.

Colocou a mão no bolso da camisa e encontrou um baseado. “Tudo bem, vou fumar este!” pensou, coçando o nariz. “Se a brisa bater forte eu como ela, senão eu vou embora!”

Os dois sentaram no sofá. A punk abriu um sorriso, ofereceu o isqueiro. Os dois ficaram fumando e conversando. Pelo vitrô enegrecido podiam ver as luzes da noite e o ruído das pessoas conversando, rindo e gritando. Aquela área de São Paulo nunca se calava, o que era ótimo pois ninguém ali queria se sentir sozinho.

Fernando puxou a conversa sobre o fato da garota (que ele nem lembrava mais o nome) morar na Rua Augusta. Ela riu e começou a falar sobre todos os tipos que ela via todos os dias passando na rua. Eles riram. Ela comentou sobre como viver naquele lugar, lentamente, fazia a taxa de sobrevivência cair até zero. E riram mais um pouco. O rapaz comentou o fato de que a própria Rua Augusta já era uma balada, bastava comprar um litrão de vodca a três reais, cair na sarjeta, e a balada já estava feita. E riram mais um pouco.

O baseado terminou.

O sofá rangia de sofrimento com o peso dos dois. Os lábios da garota tinham o gosto de cerveja e maconha. As mãos delas entendiam muito bem do riscado. Ela era linda e pelo visto sabia muito bem como fazer. “Oh, foda-se Vai aqui mesmo.” Ele pensou, enquanto tirava a blusa dela.

As línguas de ambos entrelaçavam-se com furor. Ele agarrou os seios da menina com força, recebendo um pequeno gemido de reprimenda. Não tinha reparado nos piercings nos mamilos. Para se desculpar, começou a suga-los delicadamente. Ela levou as mãos até sua calça e começou a removê-la, ao mesmo tempo que Fernando também começava a puxar a saia dela.

Quando ergueu a cabeça para respirar e admirá-la, não pode deixar de sentir: cheiro de barata. Aquele cheiro que não dá para descrever, mas que parece plástico ou algo parecido. Claro, havia baratas no apartamento, mas o rapaz tentava não ligar. Estava num tesão tão grande que até doía.

Os dois caíram no carpete. Ela tirou a calcinha fazendo um lindo movimento com os quadris. Fernando a agarrou por um dos tornozelos, levou os dedos até a boca, molhando-os com sua saliva, e começou a acaricia-la. Ela jogou a cabeça para trás, desmanchando o moicano no chão e gemendo. Ele não podia esperar mais e a penetrou. Foi preciso algumas estocadas até que o corpo dela se ajustasse ao dele e, então, ele pudesse ir mais fundo. Os sons do lado de fora davam um ótimo som ambiente para a melodia erótica que saía do casal. Ele a agarrou pelos ombros e começou a mordê-la devagar no pescoço.

Cheiro de barata.

“Merda… foda-se! Eu não ligo!” ele pensou.

As mãos delas arranhavam suas costas enquanto ele movia seus quadris com cada vez mais velocidade. Os braços dele estavam apoiados no chão e, em sua pele, ele tinha a desagradável sensação de que o carpete parecia viscoso. Abrindo os olhos ele podia ver os seios da garota balançando a cada solavanco e o cabelo roxo dela desparzindo-se aos pés do sofá apodrecido.

“Não ligo! Não ligo!”

– AH!

E realmente não ligou. Nem na primeira vez. Nem na segunda.

E nem na terceira, quando finalmente caiu no sono.

O dia amanheceu.

A luz do sol forçava-se a entrar pelo vidro escurecido quando Fernando abriu os olhos. A primeira coisa que viu foi a televisão quebrada e a parede oposta cheia de bolor. Ele sentia o seu corpo maravilhosamente relaxado, apesar de ter dormido nu naquele carpete imundo.

“Que história de trepada louca terei para contar!” ele pensou, enquanto se espreguiçava. Ele podia sentir as mãos da garota percorrendo suas costas e fazendo cosquinhas. Fernando esticou o braço para alcança-la.

Quando agarrou os dedos dela, teve a desagradável sensação de que os esmagou, como se eles tivessem ficado frágeis como uma casca de ovo. Ouviu até o barulhinho e sentiu algo molhado escorrer em suas unhas. Assustado, ele olhou para a própria mão.

Uma barata esmigalhada.

Ele se levantou num sobressalto, sacudindo os dedos. Quando olhou para suas pernas, onde ele julgava também estar recebendo carinho da garota, pode ver:

Baratas.

Baratas percorrendo seu corpo inteiro.

– POOOORRRRAAAAAAAAA!!! – berrou, enquanto começava a pular pelo carpete feito louco, sacudindo o corpo e tentando se livrar dos malditos insetos. Agarrou as suas calças, que ainda estavam jogadas no sofá, e começou a se bater com ela.

Correu até o banheiro e, com uma certa dificuldade, girou o registro enferrujado. A água caiu fria feito gelo (e meio escura pelo tempo que ficou empoçada no cano). Os poucos animais que ainda estavam na sua pele caíram e ele, desgraçadamente, pisou neles com os pés sem querer. Algumas das baratas já haviam erguido voo e começavam a ataca-lo o banheiro.

– Caralho! Não, não, não… MERDAAAAA!!!!

Ele saiu correndo do apartamento com as roupas nas mãos. Esqueceu até de pegar o tênis. Saiu para as ruas, onde ainda havia movimento, molhado e praticamente nu. Olhou para trás, tentando ver se nenhuma barata estava lhe seguindo. Depois olhou para o próprio corpo, verificando se estava livre dos insetos.

– Puta… que… PARIU…! – gemeu, enquanto começava a vestir suas roupas no meio da rua, sob o olhar desacreditado dos boêmios que amanheceram na rua. “Esse aí tá muito louco!” comentavam alguns.

Fernando foi recobrando a calma aos poucos. Levou a mão ao bolso e percebeu que seu dinheiro devia ter caído lá dentro do apartamento. Mas de forma alguma ele tinha coragem de voltar. Preferia seguir a pé até a zona sul do que entrar novamente naquele templo de baratas.

– …e a mina sumiu e me deixou sozinho com as baratas! Puta!

Resmungando, ele começou a voltar para casa, pensando onde a punk deveria ter se enfiado. Mas enquanto caminhava de volta ele não pode deixar de lembrar que havia reparado em uma coisa estranha naquelas baratas.

Todas elas tinham uma mancha roxa na cabecinha asquerosa.