Aventura

O Filho do Rei

– Ei, velho! Procurando uma rameira, não é? Vai querer uma novinha ou uma “experiente” que nem o senhor?

– Se a sua mãe não for muito cara eu estou aceitando.

Foi com este amigável diálogo que o príncipe bastardo e o mago da corte começaram a conversa. Felizmente, no reino de Cahwiland, as pessoas não perdiam a cabeça facilmente. Mesmo quando lhe atiravam verdades na cara.

– Minha mãe não trabalha mais. – disse o jovem, cheio de desconforto na voz. – A doença-do-mundo já lhe deixou cheia de manchas nas mãos e no rosto. Só os que têm iguais sintomas ainda pagam barato para se deitar com ela.

– Parece que certas doenças nem mesmo a Fé da Luz pode curar. – observou o mago, cofiando a barba. – Já tentou sacerdotes de outros credos?

– Pagãos infiéis! – o rapaz fez uma careta. – Em minha mãe eles não tocam!

Mas todos os homens com cancro rançoso podem tocá-la. pensou o velho.

Os xamãs e sacerdotes da Comunhão dos Divinos e do Credo dos Antigos possuíam milagres muito mais eficientes em relação à cura de doenças. No entanto estes credos se tornaram proibidos em Cahwiland há algumas décadas, mesmo sendo comprovado que poderiam salvar muito mais vidas do que os arrogantes emplastros e palavras vazias dos clérigos da Fé da Luz. O povo ainda não tinha aderido àquela crença totalmente e relatos de infiéis eram comuns. A nobreza do país, no entanto, já tinha feito questão de demolir os antigos templos e abraçar o credo luminoso como se fosse o único. E isso só fazia a voz popular erguer-se mais contra eles.

– Bem, não estou aqui para discutir religião ou o destino de sua pobre mãe. Vim aqui buscá-lo.

– Buscar-me? – o rapaz levou a mão ao cabo do punhal. – Para quê?

– Pensei que já tinha sido avisado por um mensageiro.

– Ah. – fez o bastardo. O mago não saberia dizer se foi uma interjeição alegre ou triste. – Entendo. Deixe-me arrumar minhas coisas.

– Para onde vamos você terá tudo do que necessita.

– Preciso arrumar minhas coisas! – silvou, irritado. – Aguarde-me aqui… serviçal!

É mesmo o filho do rei.

O jovem não demorou. Em minutos já estava diante do mago com uma pequena mochila e um punhal pendendo da cintura. Usava uma armadura de couro discreta e ordinária, com um manto carmim sobre os ombros que o denunciava como um cafetão. Os cabelos e o cavanhaque loiro eram bem-cuidados. Não estava feliz. Nem um pouco. Mas também não parecia triste.

– Podemos seguir? – perguntou o velho, cruzando os braços.

– Tenho escolha?

– Claro que tem. Pode ficar aqui, se quiser, levando uma vida mansa de cafetão até o dia que ficar tão repugnante que nem as putas vão lhe querer mais, por dinheiro nenhum deste mundo. Ou pode vir comigo. – ele fez uma pausa. – E todas as putas vão lhe aceitar pelo resto de sua vida, não importa o quão encarquilhado esteja.

– Pelo menos uma coisinha boa nesta história toda! – sorriu o rapaz. – Vamos, mago! E por falar nisso, qual é o seu nome?

– Pode me chamar de Camus. – disse o idoso, fazendo uma suave reverência enquanto seu manto negro esvoaçava com a brisa.

– Prazer. – respondeu, por instinto. – Meu nome é…

– …seu nome será Albert. – cortou o mago. – Pelo menos até estarmos em segurança no castelo.

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O cavalariço olhou com desconfiança para as três enormes moedas de prata que o mago lhe apresentou. Já havia sido logrado duas vezes no último mês e fez questão de se mostrar muito loquaz em informar seus clientes dos dois infelizes ocorridos.

– … então eu disse que não tinha troco para o moedão de ouro e o fulano ergueu aquela porcaria e gritou: “Quem pode me trocar esta coroa por vinte escudos?” eu agarrei o braço dele e disse: “Você é louco? Isto é uma moeda de ouro! Vão lhe matar!” Mas ele só estava dando corda na interpretaçãozinha dele. Filho duma égua! A moeda era falsa e eu acreditei!

– Todo mundo se engana de vez em quando. – disse o velho.

– Menos vocês, não é?

– Nós quem?

– Vocês, os magos! Ouvi dizer que são capazes até de ler o que se passa na cabeça das pessoas! Vá lá! Tenta adivinhar o meu pensamento.

– Não sou capaz de ler mentes. – o idoso sorriu. – Mas tenho quase certeza que está pensando em maneiras criativas de nos matar caso a nossa moeda de prata seja falsa.

– Hah! Eu sabia! – o cavalariço bateu palmas como quem acabou de assistir a um espetáculo. – Vocês magos são uns safados, mas uns safados poderosos! Olha, para que perder tempo me enganando com prata falsa? Era só ameaçar me transformar num sapo ou coisa assim que eu levava vocês dois rapidinho para qualquer parte do reino.

– A moeda é verdadeira, como qualquer ferreiro natural com metais poderá lhe assegurar. Se quiser ter certeza pode tirar a prova, nós esperamos.

– Esperamos?! – bufou o bastardo.

– Não, tudo bem, chefia. Acredito na sua palavra. Subam na carroça! Eu irei guiá-los pela Estrada do Arenque até a capital em troca destes três cetros! – ele jogou uma moeda para o ar. De um lado havia o desenho estilizado de um cetro real e do outro a efígie do atual monarca de Cahwiland.

O mago estava com a bolsa cheia de cetros. Era a maior moeda do reino, embora não fosse a mais valiosa. Metade do tamanho da palma da mão, sendo possível ver com perfeição o rosto do rei: um homem de cabelos curtos e barba bem-cuidada. Naquela efígie, em particular, era representado com um cavanhaque.

– Vocês se parecem! – disse Camus, sorrindo e apontando para a moeda.

– Vai à merda, velho!

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Aquela primeira noite foi chuvosa, com direito à raios explodindo árvores à poucos metros de distância. A estrada havia se transformado numa corredeira de lama e os três viajantes foram obrigados a parar numa estalagem.

– Despesas incluídas, senhor Camus? – perguntou o cavalariço, torcendo suas roupas na porta.

– Claro. – respondeu o mago, esfregando os braços molhados e abraçando-se de frio. Rapidamente aproximou-se da grande lareira que aquecia o ambiente, secando-se ao fogo.

– Lindinha, eu vou querer um banho quente! – disse Albert, dirigindo-se para a estalajadeira mais bonita, já começando a se desnudar no meio do estabelecimento. – Pago um extra se você esfregar as minhas costas.

– Só as costas? – inquiriu a moça.

– O triplo se esfregar outras coisas!

– Não podemos esbanjar… – lembrou o mago.

– Fica frio! Quando chegarmos… – o rapaz se deteve. – Bem, quando chegarmos “naquele” lugar todo o dinheiro que você gastou provavelmente será devolvido, não é?

– Talvez. Mas Será muito ruim se não sobrar nada nem para chegarmos “naquele” lugar.

– Ei! Eu estou te dando uma ordem!

Acostumou-se rápido com a ideia de ser príncipe, heim?

– Enquanto não chegarmos “naquele” lugar… – a voz de Camus era autoritária e pesada. – … você é apenas um cafetão atrevido que deve seguir as minhas ordens, entendeu? Por isso fique quieto, não gaste muito e vá para “aquele outro” lugar antes que eu me esqueça!

– Velho viado!

– Filho duma puta!

Os dois ficaram mudos por um instante, encarando um ao outro, e depois riram ruidosamente. Ambos tinham dito verdades.

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Em minutos três quartos foram disponibilizados para os viajantes. O cavalariço comeu o seu jantar e foi dormir. Albert ficou no quarto com a estalajadeira bonita. Camus sentou em frente ao fogo e acendeu seu cachimbo. Cofiava a barba, olhando para as chamas como se estivesse lendo algo nelas. Servia-se de um caneco de leite quente misturado com licor, mel e especiarias. Sentia o cheiro forte e doce da bebida com prazer. Por um momento livrou-se do peso de sua missão.

Porém foi logo lembrado quando começou a escutar passos apressados vindos da escada. A estalajadeira bonita estava com os seios de fora, o rosto vermelho e gritando.

– Tire as mãos de mim!

Logo em seguida veio o príncipe, cambaleando degraus abaixo.

– Volte para o meu quarto! Eu paguei para ter você!

– Pagou apenas para eu lhe dar banho! Eu não sou uma prostituta!

– Você é sim…!

A mulher lhe deu um tapa ardido e sonoro. Até Camus piscou e fez uma careta.

– Não chegue mais perto de mim! – ela berrou.

Albert acariciou o rosto e deu uma risada. Foi para cima dela. A garota tentou lhe dar outro tapa, mas desta vez tinha os dois pulsos firmemente presos pelas mãos calosas do rapaz.

– Deixei você me dar um tapa, mas um segundo não vou permitir…!

A garota lhe deu uma joelhada no meio das pernas e, na sequência, deitou-lhe a mão no outro lado do rosto, deixando ambos vermelhos.

– Quem estava pedindo sua permissão?! – a mulher cobriu os seios e saiu correndo até os fundos da estalagem. Entrou em um dos quartos e trancou a porta.

Irritado, o príncipe bastardo ralhou com o mago.

– Por que não me ajudou, porra?! Ela me bateu!

– Três vezes. Eu contei. – o velho soltou uma baforada do cachimbo.

– Você não devia estar me protegendo ou qualquer merda do tipo?!

– Oh, eu estou. Se ela pegasse uma faca aí sim eu entraria em ação.

– Não acredito que você não vai fazer nada para punir aquela vaca! – o rapaz acariciava ambos os lados do rosto. – Vai mesmo me deixar na mão?

– Quem lhe “deixou na mão” foi a garota. Agora vá dormir, teremos um dia longo amanhã.

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 A chuva deu trégua e a viagem transcorreu por mais quatro dias sem incidentes. Até que, contrariando um dos planos de viajar incógnito, o príncipe exigiu ser levado até uma taverna. O caminho todo estavam se hospedando nas estalagens menores e mais discretas, mas o rapaz estava ávido por ouvir música. Por ver gente. E pegar mulheres.

– Já disse que precisamos de parcimônia!

– Enfia a parcimônia no rabo, se ela lhe agrada tanto assim! – exclamou Albert, embriagado. A carroça estava sempre abastecida com cerveja por insistência dele. – Eu quero pegar umas putas! E quero pegar agora!

– Você já deve ter pego prostitutas o suficiente para a sua vida inteira.

– Não, não, não! Eu quero agora uma mulher! Se você não me levar até uma taverna eu vou sozinho.

– Pelos deuses… – o mago hesitou. – Pelo deus-sol! Pare com isto! Vai chamar demais a atenção!

E foi exatamente isto que aconteceu.

A Estrada do Arenque era uma das mais movimentadas. Nada melhor para esconder um livro do que numa biblioteca. Apesar do segredo da missão, não tinham a necessidade de viajar pelas estradas mais incógnitas, mas também não precisavam carregar no pescoço uma placa: “Eu quero confusão.” E foi isto que um grupo de bandoleiros interpretou quando viu o rapaz bêbado gritar.

– A grana! – um deles gritou, enquanto seus outros três companheiros rodeavam a carroça. – A grana e todos ficam vivos!

– Piedade! – o cavalariço ergueu os braços. – Não nos machuque!

– Cale a boca, verme! Estamos falando com o cafetão bêbado e o seu avozinho!

– Cuzão! – o príncipe sacou seu punhal. – Sabe com quem está falando?!

Antes que qualquer um dos presentes dissesse mais alguma coisa, Camus ergueu as mãos e conjurou uma magia:

O Reino do Medo de Thompson!

Naquele instante os bandidos arregalaram os olhos e soltaram as armas. Tomados por um súbito frenesi de pavor, saíram correndo gritando pela estrada.

– É isto mesmo! – bradava o bastardo, sacudindo sua arma. – Fujam! Tem que fugir mesmo! Pois eu sou foda! Eu sou perigoso! Eu sou o…!

Ele se calou quando recebeu uma garrafa de cerveja na cabeça. O líquido espalhou-se pela sua cabeleira, assim como o sangue. Albert desmaiou na carroça.

– Não acredito… – murmurou o cavalariço.

– Que eu ataquei o meu “neto”?

– Não! Eu não acredito que você desperdiçou uma cerveja cheia só para nocautear este desgraçado!

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A capital do reino era bela. Por toda a parte era possível ver pequenas abadias recém-construídas com o símbolo do deus-sol.

Camus exibiu ao primeiro porteiro do castelo o passe real. Este modo ele e Albert puderam atravessar a ponte de pedra sem problemas. Olhares desconfiados dos guardas eram lançados para os dois visitantes andrajosos. O segundo porteiro foi mais duro; fez mais perguntas e demorou para ordenar que baixassem a ponte levadiça. Por fim chegaram no terceiro e último porteiro, que simplesmente os deixou passar. Ele conhecia o mago de longe e o cumprimentou cordialmente.

– Como vai, velho safado? – sorriu o homem. – Você demorou! Não imagina como o rei está apreensivo. – lançou um olhar para o bastardo. – Este aqui é…?

– Sim. – Camus anuiu com a cabeça e seguiu seu caminho sem dizer mais nada, empurrando o príncipe gentilmente.

– Onde está o tapete vermelho!? – resmungou Albert. – Eu não sou um príncipe, porra?! Isto é maneira de me receber?

– Bastardos não são príncipes até que o rei proclame isto. Tenha paciência, rapaz.

– Viajar com você foi uma merda! E não pense que eu me esqueci da cervejada na cabeça! Quando eu for rei, se você ainda estiver vivo, só espere de mim a máxima misericórdia de lhe destituir do cargo! Porque o que você merecia era a morte por ferir uma futura cabeça coroada!

É mesmo filho do rei.

Chegaram até o grande salão de recepção. Uma mulher alta e muito bela aproximou-se. Ela tinha os cabelos loiros escuros, como caramelo. Os olhos brilhavam como ouro derretido. Vestia roupas finas, indicando que devia fazer parte da alta cúpula da realeza.

– Senhor Camus! Que alegria vê-lo bem! – ela fez uma mesura. – Também estou feliz em vê-lo em bom estado, meu príncipe.

– Vou ficar melhor depois que você me der uma cavalgada, linda! – sorriu o homem, exibindo seu sorriso emoldurado pelo cavanhaque.

– Meu nome é Moldred. – a moça desconversou. – Fui uma das conselheiras da rainha. Com o passamento desta o senhor, meu rei, ordenou que seu bastardo fosse trazido até a corte, algo que seria impossível se a senhora sua esposa ainda estivesse viva. Ela certamente lhe desejaria mal.

– A puta gorda pagã morreu e eu sou o legítimo herdeiro, hah! – o rapaz ergueu as mãos. – A vida não poderia estar melhor! Quando recebo minha coroa?

– A sua nomeação como príncipe virá logo. Por enquanto, por favor, siga-me. Irei lhe indicar seus aposentos.

O rapaz envolveu um dos braços na cintura da garota que, um pouco consternada, decidiu não contrariá-lo. Camus apenas fez uma reverência e saiu do salão em silêncio.

Dirigiu-se até os jardins do castelo, o lugar que ele mais gostava de ficar quando estava na corte. Acendeu seu cachimbo e cofiou a barba, pensativo.

E assim termina a história do bastardo que queria ser rei. ele pensou, sorrindo. Porque confiou rápido demais num velho pagão e deitou-se com uma assassina de falsa donzelia. E deu uma risada no final, espalhando a fumaça da sua boca. É mesmo o filho do rei!

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O Machado Maldito de Edeinawc

machado 2

Boa noite, linda viajante! É a sua primeira vez em Creidhne? Dá para notar que você não é de Middel’erde pela sua pele bronzeada. Aqui todos são tão pálidos quanto a neve. Alias, belas madeixas negras, se me permite elogiar. São raras aqui. Cachos doirados existem às pencas, você até se entedia! Posso ver também que sua forma física parece ser mais… oh, tenha calma! Você me julgou mal! Não pense que estou lhe cortejando ou algo assim!

Para compensar esta má impressão, posso lhe pagar uma bebida? Obrigado! Você me honra! Taverneiro, traga para a jovem uma caneca de hidromel, por minha conta! Espero que isso deixe a sua impressão de minha pessoa mais… Ah, que falta de modos, ainda nem me apresentei. Sou Gwyon Bach, um miserável trovador, seu criado!

Percebo, a julgar pela imensa espada que carrega, que sois uma aventureira. Sim, sim! Eu admiro muito o trabalho de vocês. Aventureiros são os responsáveis por manter o mundo mais seguro. Eu seria um aventureiro se meus talentos fossem mais desenvolvidos… oh, não! Aventuras, eu?! Está me confundindo com os bardos e menestréis. Pobres trovadores como eu só sabem cantar e tocar e contar histórias dentro de tavernas protegidas e aquecidas. Alias, gostaria de ouvir uma história?

Maravilha! Bem,  já que é uma guerreira, devo lhe contar a trágica história de um guerreiro como você. Ou quase isso. Irei lhe contar a história de um Berserkr.

Imagino que você não saiba o que é um Berserkr. Bem, no idioma antigo usado aqui no norte Berserkr significa “filho do urso”. São guerreiros imbatíveis, abençoados com uma fúria e uma sede de sangue implacável. No passado, quando os divinos caminhavam sobre esta mesma neve, havia muitas batalhas. Um simples humano jamais poderia fazer frente ao poderio de deuses, por isso Wotan criou os Berserkrs, para que eles tivesem um mínimo de chance… não, não. Os Berserkrs não são sacerdotes, são apenas abençoados com o poder de Wotan. É diferente. Trata-se de uma dádiva passada de pai para filho, embora nem todos cheguem a desenvolver tais poderes. Eles nascem com esta fúria interior escondida no seu cerne e quando a despertam, fazem juz ao nome “urso” e se tornam bestas temíveis no campo de batalha.

Oh, mas chega de explicações. Vamos à história.

Há muitos anos atrás, quando Creidhne era pouco mais que uma vila, surgiu um Berserkr que se tornou notório em muitas lendas. Edeinawc Björn, o Urso-Caolho. Nascido numa família pacífica, despertou para sua vocação após um traumático evento que vitimou seus pais. Quando entrava no seu frenesi de sangue, Edeinawc se tornava um matador que não poupava nenhum oponente. Porém, quando estava calmo, ele era tão gentil quanto uma donzela. Colecionava troféus aos montes e jamais voltava de uma batalha sem ter matado pelo menos cem homens. Os inimigos tremiam só de ouvir o seu nome, e o povo de Creidhne tinha muito orgulho dele.

Porém, Edeinawc não apreciava a besta que habitava em seu ser. Detestava lutar, sempre tentando arrumar uma forma pacífica para resolver desentendimentos. Mas quando pisavam em seu calo, não havia sangue suficiente que o saciasse. Jamais teve filhos, pois não desejava passar adiante a linhagem que, muito longe de uma bênção, considerava uma maldição. Procurava sempre viver afastado das pessoas, pois temia que sua fúria acabasse matando os que lhes eram caros. Em seu frenesi um Berserkr dificilmente consegue diferenciar um amigo de um inimigo.

Porém, houve uma pessoa em especial que ele amou mais do que a própria vida: Grainne, a Lâmina Dourada. Uma das mais belas guerreiras que já pisou sobre Creidhne. E uma das mais imbatíveis. Quando cavalgava nas florestas, presa alguma escapava do seu arco e flecha. Quando lutava, sua espada movia-se com tamanha graciosidade que muitos inimigos hesitavam antes de serem golpeados só para apreciá-la. E nos momentos de tranquilidade cantava para seus companheiros.

Ela era a única que não temia Edeinawc quando ele estava furioso, pois a ligação deles era tão forte que bastava a guerreira se colocar na frente dele que o frenesi passava. Não se conhece nada que possa interromper a fúria de um Berserkr, a não ser sua própria força de vontade. E era exatamente isso que acontecia. Ambos se amavam tanto que Grainne não precisava temer Edeinawc, fosse em qualquer situação.

Um dia, quando estavam na vila de Morias, souberam que o local passava por má sorte. Uma turba de bandoleiros invadiu a região e, sem saberem, avançaram para onde o Urso-Caolho se encontrava. Os vilões pediram ajuda ao Berserkr, que resolveu usar de sua fama para tentar conter o avanço e evitar derramamento de sangue. Junto com seus amigos, ele marcou um ponto para conversar com os foras-da-lei.

Quando os bandoleiros chegaram, fizeram suas ameaças e brandiram espadas. Edeinawc, impassível, na companhia de Grainne e outros amigos, apenas se colocou na frente dos inimigos e disse: “Sou Edeinawc Björn, o Urso-Caolho. Peço que cessem as suas bandidagens, agora!”. A fama dele era tão grande que metade do bando tremeu e, imediatamente, fugiu. Porém houve aqueles que não retrocederam. Entre eles estava Gwrgi Cintura-Grossa, o chefe dos bandoleiros e que não temia a morte, nem o Berserkr.

“Então você é o Urso-Caolho? Bah! Já ouvi a sua fama, moleque, e não me impressionei!” motejou o bandido. “De fato, não creio que nem metade seja verdade. Enfrentei inimigos poderosos, entre eles até mesmo um gigante. E saí vitorioso! Por que temer uma criança que tão simplesmente se irrita em demasia de tempos em tempos?”

Naturalmente não foi apenas isso que saiu da boca de Gwrgi, mas muito mais desaforos. Edeinawc fez mais algumas tentativas de evitar um massacre, mas não se conteve quando o desafiante fez gracejos pouco louváveis para Grainee (não, não! Os chistes de Gwrgi eram sujos demais e eu jamais teria coragem de repeti-los para uma dama como você!). Furioso, o Urso-Caolho atacou. Seus acompanhantes já sabiam do desfecho: tripas e sangue espalhados pela neve.

Mas qual não foi a surpresa de todos quando o infame Gwrgi conseguiu esquivar-se dos primeiros ataques e devolveu as gentilezas com fúria fenomenal. Ele podia ser feio e arrogante, mas era mesmo um guerreiro fabuloso! Com sua maça e escudo, refreou boa parte dos ataques do Berserkr e conseguiu lhe desferir vários golpes mortais. Naturalmente, ele subestimou Edeinawc e a luta foi mais dura do que ele esperava. Do mesmo modo, o Berserkr também via aquele corpulento guerreiro se interpor contra ele de maneira que jamais nenhum outro homem fez.

Golpes e mais golpes se sucederam, até que o bandido conseguiu acertar uma pesada pancada na cabeça do adversário, ao mesmo tempo que recebeu uma coronhada poderosa.  Ambos caíram desacordados.

Jamais em toda a sua vida Grainne viu o amado desfalecido, pelo menos não antes do final de uma batalha, quando a fúria consumia seu fôlego. Ficou ainda mais aflita quando os outros bandidos tentaram atacar o guerreiro desacordado. Os companheiros de Edeinawc, furiosos, reagiram também, mas como estavam em menor número foram todos mortos pelos criminosos, mas não sem antes levar alguns deles para o outro mundo. A guerreira também tombou, mas foi poupada.

Ao final da peleja, o bando carregou seu chefe nos ombros e deixaram Edeinawc vivo. Mas também levaram como troféu a bela Grainne.

Dois dias se passaram. Quando finalmente despertou, o Berserkr encontrava-se numa casa de cura. Os benzedores, com muito pesar, contaram sobre a morte de seus amigos e lhe entregaram uma carta dos bandoleiros. Gwrgi se recuperava aos poucos da luta passada e propunha um novo duelo. E colocava a dama guerreira como prêmio principal.

Obcecado, pois Grainne era a luz de sua vida, Edeinawc foi até o local marcado para a luta com o machado em punho e sangue nos olhos. O covil dos bandoleiros encontrava-se numa colina alta e de difícil acesso. O ar era tão gelado que os pássaros caíam mortos de seus ninhos, mas nem mesmo toda a frieza do reino de Niflhein seria suficiente para aplacar as chamas que queimavam dentro do Urso-Caolho.

Enfim, no local combinado, ele encontrou Gwrgi Cintura-Grossa sentado num banquinho, rodeado pelos seus capangas e com a bela Grainne amarrada a uma árvore. O bandoleiro ainda tinha algumas ataduras pelo corpo devido aos ferimentos que recebera, mas arrancou-as e preparou-se para o novo duelo. Edeinawc ainda não estava furioso o suficiente para despertar seu frenesi (pois da mesma forma que surge em ocasiões pouco propícias, a fúria também pode não surgir quando necessária). E então, após alguns segundos se estudando, os guerreiros se bateram.

Foi uma luta ainda mais terrível e sangrenta do que a anterior e o adversário agora jogava sujo. Para garantir a vitória, ele usava um bracelete mágico que aumentava a sua força e fazia com que seus golpes fossem muito mais pesados e devastadores. Ferido de morte, Edeinawc ouviu o grito de Grainne: “Não deixe este verme derrotá-lo, meu amor! Eu preciso de você, como você precisa de mim. Levante-se!” e isso ativou o seu frenesi mais uma vez. Só que agora, muito mais intenso que o anterior.

Gwrgi, que não temia nada, enfim conheceu o medo. O berserkr agora estava ainda mais furioso do que na luta anterior e nem mesmo a força de três vezes três gigantes era suficiente para refreá-lo. A medida que o bandoleiro não via escolha a não ser recuar pouco a pouco, seus companheiros ficavam apreensivos e já se preparavam para pegar em armas para ajudar o líder – embora todos também estivessem com medo.

Então, num golpe poderoso de seu machado, Edeinawc cortou fora o braço protegido pelo bracelete mágico de Gwrgi. O sangue esguichou feito uma cascata. O chefe dos bandidos foi abatido com um segundo e derradeiro golpe, morrendo em pânico. Naquele momento todos os bandoleiros pegaram em armas e se preparavam para lutar contra o inimigo, mas o berserkr ainda estava em seu frenesi e matava todos com facilidade. E a altiva guerreira, não era tão indefesa assim, usou uma lâmina que mantinha escondida no cinto para cortar as cordas que a prendiam.

Naquele momento a luta já estava ganha. Grainne começou a correr em direção ao amado para tranquilizá-lo, já que restavam tantos bandoleiros de pé quanto existem dedos em nossas mãos. O berserkr estava de costas para ela, trucidando um inimigo. Ela abriu a boca para falar com ele: “Edeinawc!” exclamou.

E quando ia falar mais alguma coisa, um bandoleiro a agarrou, pensando em fazê-la de refém. Uma manobra inútil contra um berserkr, pois eles não podem ser refreados por tais artimanhas.

Ao ouvir sua voz, com o seu frenesi passando, o guerreiro se virou com a arma em punho, mas infelizmente a primeira coisa que viu foram as costas do bandido. Por instinto, ele moveu seu machado…

…e a lâmina enterrou-se no ombro esquerdo do criminoso. E só depois dele gritar é que o berserkr percebeu que a guerreira estava cativa nos braços do inimigo. E por consequencia disso também recebeu o impacto do golpe que produziu um ferimento horrendo em seu belo corpo.

Naquele instante a névoa da fúria desapareceu completamente da cabeça do guerreiro. Todos os inimigos jaziam mortos e Grainne estava caída numa poça de sangue. Ele atirou-se sobre a moça, que ainda respirava. Com seu último suspiro, a bela jovem murmurou: “Não foi… culpa sua…” e então entregou seu espírto aos deuses.

O berserkr soltou um urro. Mas não era o urro característico da sede de batalha ou do calor do ódio. Era um urro frio e lamentoso de desgosto profundo. Edeinawc agarrou sua arma, ainda molhada com o sangue dos inimigos e de sua amada, mirou uma rocha e gritou:

“AAAAAAHHH!!! Maldito seja este machado!!!”

E o aço poderoso rachou-se como uma tábua velha, assim como a própria rocha também se defez em pó. Alucinado, ele entrou numa espiral de loucura da qual nem mesmo o mais apaixonado Berserkr gostaria de chegar.

Ele se tornou uma Besta Berserkr. Um estágio da qual nenhum guerreiro jamais volta a recuperar sua humanidade. Uma fera no sentido literal da palavra, da qual nem mesmo os dragões se comparam. Deixando os despojos e cadáveres para trás, o Urso-Caolho jamais voltou a ser visto. Pelo menos não por alguém que tenha voltado vivo para reportar.

O povo de Morias recuperou o corpo de Grainne e o colocaram numa pira funerária com todas as honras que uma guerreira merece. Também recuperaram os restos do machado que, em memória ao guerreiro desaparecido, decidiram reforjar e usar em batalhas futuras. Eles acreditavam que a arma que o berserkr deixou para trás ainda tinha muito dele e, só por ter passado por seus dedos, permitiria-lhes gloriosas vitórias.

Mas o tempo revelou o contrário. Aquele machado, com o próprio Edeinawc desejou no seu momento de dor, tornou-se amaldiçoado.

Qualquer um que o empunhasse por algum tempo de fato conseguia belas vitórias, mas cedo ou tarde acabaria padecendo do mesmo destino do Urso-Caolho: a arma encontraria o corpo de alguém querido ao dono do machado, e ele acabaria matando este ente com as próprias mãos…

O machado foi para um guerreiro garboso, que terminou matando por acidente a própria mãe durante um treinamento. Depois passou para as mãos de um bárbaro de Goibniu, que sem querer decapitou o próprio filho quando o ensinava a lutar. Uma mulher que comandava um pequeno exército resolveu fazer uso dele e, num desastre, enterrou a lâmina no peito do irmão mais novo enquanto tentava defendê-lo de inimigos. E assim se seguia. Qualquer um que fizesse uso daquela arma acabava, fatalmente, matando alguém que lhe era caro.

Muitos tentaram destruí-la, mas não tiveram sucesso – e de fato os que tentaram, dizem, sofreram ainda pior sina, assassinando por engano dois os três entes queridos. Dizem também que nem é preciso empunhá-la, mas basta que alguém a segure que a maldição já se realiza.

Hoje o destino da arma é desconhecido, e de fato ninguém quer encontrá-la. Por isso, bela guerreira, quando for vagar pelas cavernas profundas ou por entre templos abandonados, tenha cuidado se você encontrar um machado pelo chão ou entre tesouros, pois ele pode ser o Machado Maldito de Edeinawc. E de posse dele você acabará matando uma pessoa querida.

E então? Gostou da história? E da onde veio esta, muitos outras também… oh, mas já vai embora? Tão cedo? Então diga-me, minha bela, já tem lugar para ficar? As estalagens de Creidhne costumam ser muito caras. Eu posso lhe oferecer de graça o meu quarto, se quiser. É pequeno, mas muito aconcheg… oh, espere! Não vá embora assim! Pelo menos diga-me seu nome, para que eu possa criar uma canção em seu louvor… ei, psiu! Ei!