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Série – Memento Mori – 3 Capítulos

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PARTE 1

PARTE 2

PARTE 3

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Memento Mori 3

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PARTE 1      PARTE 2

O rosto da criança não estava em boas condições.

A máscara mortuária era fria, dura e descolorida, mas conseguia disfarçar razoavelmente as manchas rubras e o início da descarnificação da morte. Já fazia dois dias que a menina tinha morrido e foi preciso muito pó-de-arroz para disfarçar os sinais de Livor Mortis que se acumulavam na base do pescoço. As flores ajudaram, o que dificultou foi o corpo rígido que não queria se encaixar na posição exata de maneira nenhuma. Não foi possível cruzar os dedos da menina sobre o peito, tiveram que ficar paralelos ao corpo e, razoavelmente, erguidos. Foi assim que o cadáver endureceu.

Aquela foi o melhor trabalho de Phineas naquele mês. Para variar, ele não foi hostilizado por ninguém.

Conhecido por rodar pela cidade à procura de famílias que tinham perdido entes queridos recentemente ou mesmo que estavam para perder, a fama do fotógrafo especializado em Post Mortem não andava muito boa.

A medida que seu trabalho ficava mais conhecido em Oxford, crescia também o cabedal de rumores impróprios à cerca de sua pessoa. Não era considerado de bom tom quando ele vinha bater na porta da casa de um casal cujo filho estava na fase terminal da cólera, mas ainda estava vivo. Muito menos era agradável quando ele visitava os hospitais apresentando seu cartão de visitas aos parentes de pacientes desenganados. Diziam que, caso o famigerado que ele pretendia fotografar ainda tivesse alguma chance de sobreviver, morria logo após a visita do fotógrafo. Pior: corria à boca pequena que ele mesmo assassinava pessoas para ganhar dinheiro sobre elas depois.

Disparates. Phineas era inconveniente, mas não faria mal à uma mosca.

– Pronto, senhora Rupert. – disse ele, começando a desmontar seu maquinário. – A foto já está pronta! Vou lhe enviar uma cópia ainda esta semana.

– Tem certeza que minha menininha ficará bonita nela? – perguntou a matrona, sentida.

– Mas é claro! A máscara mortuária é perfeita! O profissional que a fez é muito bom. Creio que vou querer saber o nome dele depois se precisar indicá-lo para outros clientes – mentiu. – Verás como a foto imortalizará o rosto de sua pequena anjinha tão belo quanto o é no paraíso.

– Espero que bem mais bonito que o seu… – murmurou a mulher.

O comentário grosseiro da mulher não foi gratuito, de certa forma. O rosto de Phineas não era nada agradável de se ver.

O homem era um sobrevivente da varíola e por isso tinha sob a pele marcas de cicatrizes e pústulas escuras e mal curadas. Elas começavam no canto do olho direito, desciam pela bochecha e se escondiam debaixo das suíças ralas e mal cuidadas. Para culminar, o rosto do fotógrafo não era bonito por natureza desde antes de sua enfermidade, tendo as bochechas muito magras e um nariz adunco e descolorado. Aquela aparência alimentava ainda mais as más línguas contra o fotógrafo: ‘É um morto-vivo amaldiçoado a fotografar os mortos pela eternidade!’ diziam alguns.

Como se Phineas precisasse de mais motivos para ser alvo de fofocas indecorosas.

post mortem

Uma vez, quando andava próximo da Carfax Tower, viu alguns estudantes rindo indiscretamente. Como tinha que fazer a foto de uma jovem que estava em uma casa próxima (e, provavelmente, os mancebos sabiam disso) não pode evitá-los. Entrou na casa, cumprimentou os parentes e começou a trabalhar com seus apetrechos. Primeiramente preparando o cadáver, colocando-o de pé e forçando os músculos frios e rígidos do rosto da moça a esboçarem um sorriso. Logo depois começou a ouvir murmúrios vindos da janela. Tentou ignorá-los, mas acabou ouvindo horríveis impropérios contra sua pessoa vindos dos estudantes espiões.

– Olha… o velho McCartney está arrumando o corpo da moça…

– Eu que queria arrumar um corpo de potranca desses!

– Vai ver, quando os parentes não estão vendo, ele manda ver nas donzelas geladas, hehe!

– Só nas donzelas? Não duvido que o nosso morto-vivo aí sodomiza também os marmanjos mortos de sífilis, hahaha!

Era difícil manter a compostura, mas Phineas jamais entrou em atrito com ninguém, mesmo quando abertamente provocado. A maioria vinha dos cocheiros que, sem nada de bom para falar durante as intermináveis viagens que o fotógrafo tinha que fazer com seu material pela cidade, faziam perguntas pouco louváveis:

– Tu tá morto? Dizem que tu é um destes zumbis que não foram enterrados em solo sagrado e por isso ficam a zanzar pelo mundo dos vivos sem descanso. Que teu pecado foi adorar imagens de pagãos e agora tem que tirar foto de cadáver até o final dos tempos. É isso aí… cadáver que anda, hah! – fez uma troça. – Morto feito um dodô. É verdade?

– Morto? – sim, este era um dos comentários que o fotógrafo mais ouvia sobre sua pessoa, por isto ele já tinha uma resposta pronta. Tirava do bolso do seu casaco um guinéu de ouro, balançava-o sobre os dedos e dizia. – Estou é mais vivo do que nunca.

Alguns cocheiros gruniam, outros riam, outros ficavam calados. Era verdade: Phineas estava vivo e vibrante. E ganhando muito dinheiro com a morte dos outros.

Porém, com alguns trabalhos, ele realmente tinha que arriscar a vida.

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Certa vez teve que fotografar um jovem que havia falecido de alguma doença contagiosa. A recomendação dos médicos é que o cadáver ficasse de quarentena até terem certeza de que não haveria mais perigo de disseminação da doença. Os parentes, porém, estavam desesperados, pois sabiam que o corpo não estaria mais em condições de ser fotografado. Agindo como um verdadeiro herói (e sendo muito bem pago por isto) Phineas esgueirou-se com seu material pesado pelo jardim dos fundos da casa fechada a fim de realizar seu trabalho.

Encontrou uma janela entreaberta onde era possível ver a silhueta do rapaz morto. Com um pedaço de ferro comprido, abriu a portinhola de madeira, evitando se aproximar demais do local contaminado, e vislumbrou a cama onde estava o jovem. Começou a montar seu equipamento o mais depressa que podia, pois quanto mais ficasse respirando aquele miasma, mesmo de longe, mais sua vida estaria em risco. Não teve como caprichar: tirou uma foto simples do morto na janela e só.

Porém, algo que o perturbou um bocado, quando voltou para o seu laboratório e revelou a foto, foi notar que os olhos do rapaz estavam abertos… e ele se lembrava muito bem de que, quando começou a aprontar o material, os olhos NÃO estavam abertos.

Infelizmente não era incomum: moribundos de doenças perigosas eram declarados como mortos antes do tempo e deixados para morrer durante as quarentenas.

As fotos que ele tirava das crianças (que eram o grosso dos seus pedidos) costumavam lhe causar pena. No caso de infantes que morriam devido a doenças ele costumava ficar mais conformado, mas era duro fotografar um jovem menino morto durante uma queda na aula de equitação. Ou mesmo crianças que eram assassinadas por mães vítimas da histeria.

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Havia, porém, alguns raros trabalhos em que as recompensas eram bem maiores do que o esperado.

Acostumado a ouvir chacotas e gracejos, Phineas desenvolveu uma insensibilidade extraordinária à insultos. Certa vez chegou na casa de um jovem cliente que queria ser fotografado ao lado do irmão gêmeo morto. Um trabalho simples. Porém, sem mais nem menos, assim que entrou na casa o rapaz que encomendou o trabalho pareceu ter-se arrependido amargamente.

– Fora! Não quero você aqui!

– Mas, jovem senhor Eddard, eu vim aqui porque o senhor me chamou com urgên…

– A urgência já passou, corvo! Meu irmão já está morto!

– Mas senhor… eu percorri um longo caminho com meu pesado material…

– Morto-vivo desgraçado! – o rapaz cerrava os punhos. – Cara-de-pústula maldito! Você ganha dinheiro em cima da desgraça!

Como o caminho que tinha feito fora realmente longo (e o preço da charrete foi bem salgado) Phineas perdeu uns bons vinte minutos tentando convencer o rapaz a permitir que ele concluísse o trabalho. Chegou até a sugerir que faria a foto de graça, só para não perder a viagem. Mais calmo, o jovem permitiu que ele começasse a preparar seu material.

– Eu não vou pagar um só penny a mais do que você gastou para vir aqui, abutre!

– Claro, jovem senhor Eddard.

– Nem um a mais! Leproso desgraçado… – murmurava, numa voz que claramente usava a raiva para disfarçar o choro. – Rola-caixão… ladrão de cadáver miserável…!

Durante todo o tempo que foi ajeitando a máquina, o fotógrafo viu seu cliente se acalmar. Por fim ele até concordou em posar ao lado do irmão morto para que a foto ficasse com uma impressão mais viva. Quando recebeu seu pagamento, recebeu o dobro da quantia combinada e ainda um pedido de desculpas.

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Outro trabalho que havia feito naquele mês e que, por pouco, não foi melhor do que o mais recente (o da criança com a máscara mortuária) foi quando atendeu ao chamado de um casal cujo bebê havia falecido.

Era perto de casa, de modo que não precisou chamar nenhum fiacre para levar sua máquina até o local. Foi recebido por um homem sorridente e uma mulher apática. Pediu para que os dois sentassem próximos e que a criança ficasse no colo do pai.

– No colo de quem? – perguntou a mulher.

– Do pai. Creio que assim ficará melhor. – disse o fotógrafo. – Ou prefere você mesmo segurar a criança, senhora?

– Senhorita. E ele não é o pai da criança.

Era difícil pegar Phineas de surpresa, mas depois daquela preferiu não falar mais nada. Mesmo assim a mulher (Lucy era seu nome, e ela fazia questão de ser chamada de ‘senhorita’) explicou que era mãe solteira e aquele que estava com ela era seu futuro esposo. O homem, ao saber que ela estava grávida, assumiu a criança, mas não teve tempo de aproveitar a paternidade. O bebê faleceu com dez meses.

A foto foi tirada e ficou bem convincente. O rosto alegre do homem desmanchou-se numa genuína expressão de pesar, sem parecer forçada demais. O fotógrafo teve a desagradável sensação de que o noivo estava feliz em ver aquele bebê morto. Logo depois da foto tirada, ele mesmo carregou o pequeno cadáver para a casca mortuária para ser preparado para o velório, deixando a noiva e o fotógrafo a sós.

– Senhor McCartney?

– Sim, senhora… digo… senhorita Lucy?

– Não quer ajuda?

– Oh, não não… – o fotógrafo sorriu. – Já estou acostumado a desmontar minha máquina.

– Parece difícil. – ela observou, colocando uma mão no ombro dele.

– De fato parece, senhorita. Mas eu já fiz este desmonte mais de uma centena de vezes. Imagino que já deve ter testemunhado fotógrafos novatos embaralhando-se com os ferros, mas isto não acontece comigo! Tenho muita prática em armar e desarmar este tripé.

– Tenho certeza que tem mesmo… muita prática em armar este tripé.

Quando Phineas virou-se para verbalizar a sua incompreensão a cerca daquele último comentário, Lucy jogou os braços por sobre seus ombros e o beijou. O impacto do corpo dela sobre o dele o fez perder o equilíbrio e ele caiu no chão com máquina e tudo. Por um segundo o desespero tomou conta dele, acreditando que sua câmera estava avariada, mas esta preocupação logo devaneou-se quando ele sentiu uma mão firme invadir o interior de suas calças e agarrar suas ceroulas.

– Se… se… senhorita Lu…!

– Quieto, morto-vivo. – disse a mulher, com uma placidez na voz que não parecia adequada à ocasião. – Quero ver se você é gelado aqui embaixo.

Certamente ele não estava gelado. De fato a temperatura do corpo de Phineas começou a subir. Imediatamente.

– Já cavalguei muitos garanhões, senhor McCartney. Incontáveis. – disse a mulher, beijando-o ternamente no lado do rosto onde ele tinha as cicatrizes de varíola. – Mas um morto-vivo é a primeira vez.

Se havia alguma palavra que restasse ao fotógrafo, esta desapareceu quando Lucy cobriu a boca dele com seus lábios. Ele não fez mais nada, exceto obedecer a única instrução que a mulher lhe deu: “Não ouse se mexer. Fique rígido… firme… como um cadáver.” E ele ficou. Extremamente rígido. Só não conseguiu ficar tão silencioso quando um morto deveria ficar.

Teria sido realmente seu melhor trabalho do mês, não fosse pela pequena avaria (felizmente não muito grave) que acometeu sua câmera.

A noite já havia caído gelada sobre Oxford. Depois de guardar todo o seu material, Phineas lembrou-se do nome que tinha anotado do artesão de máscaras mortuárias que pegou com a senhora Rupert naquele dia. “Que trabalho de porco…” murmurou, amassando o papel.

Não estava com muita disposição para trabalhar noite adentro. Decidiu que iria revelar a foto somente no dia seguinte, se tivesse coragem. Tirou a roupa, entrou ficou na banheira de água quente por alguns minutos e logo já se aprontou para dormir. Estava cansado, muito cansado. Enquanto terminava de vestir sua roupa de leito, olhou-se no pequeno espelho que tinha pendurado na parede do quarto. Sorriu para si mesmo e foi dormir.

Ele ainda estava vivo.

O único rosto vivo a adornar aquelas paredes forradas com milhares de fotos de seus trabalhos anteriores. Milhares de rostos de pessoas mortas, todas pregadas nas paredes do cômodo de cima a baixo, vigiando-o durante o sono.

E aquilo, por mais estranho que parecesse, trazia-lhe conforto.

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Memento Mori 2

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PARTE 1

O líquido tinha um cheiro desagradável, mas Phineas apreciava o odor. Era o mesmo cheiro que ele próprio emanava e que as pessoas detestavam: cheiro de líquido de revelação fotográfica.

O quarto estava totalmente escuro. Nem uma única luz entrava, por menor que fosse. Mas Phineas não precisava dos olhos, pois já sabia onde se encontravam todos os móveis e equipamentos do cômodo. Suas mãos moviam-se no breu com muita perícia. O silêncio total era quebrado pelo som do gotejar das fotografias recém-reveladas. Uma a uma elas foram penduradas e, quando o processo estava concluído, o fotógrafo acendeu a luz.

No quartinho havia um espelho e foi nele que Phineas encarou o seu rosto marcado das chagas da varíola. Por algum motivo tinha esta necessidade de sempre olhar para si mesmo depois de passar quase uma hora no escuro revelando seu material. Talvez porque a sua imagem no espelho era nítida e colorida, enquanto as fotografias penduradas eram monocromáticas e não tão bem definidas devido às limitações do processo de revelação da época. Afinal ainda era o século XIX.

Fotografias tinham uma conotação quase mágica naquele período. Ainda eram um luxo de poucos, por isso mereciam respeito e cuidado. As pessoas só tiravam fotos em ocasiões muito especiais: casamentos, reuniões, retratos oficiais…

… e falecimentos.

As fotos Post Mortem eram muito procuradas e Phineas havia se especializado nelas. Sempre que podiam as pessoas pediam para que profissionais tirassem fotos dos parentes logo após a morte, muitas vezes fingindo que ainda estavam vivos. Era considerado um sinal de grande respeito. E uma forma de manter guardado ao menos uma imagem do ente querido.

No varal havia sete trabalhos recentes pelo qual ele foi muito bem pago. Sete fotos com pessoas mortas.

A primeira era de uma menina de três anos, veio a óbito devido a uma pneumonia. Era muito comum. Boa parte das fotos que Phineas tirava era de crianças. A menina em questão estava deitada, de olhos abertos, sobre uma pequena poltrona. Uma tentativa de faze-la parecer viva, apesar do seu olhar sem brilho.

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A segunda foto era de um garoto morto de dez anos. A causa fora uma infecção de um ferimento que ganhou enquanto brincava na rua. O fotógrafo lembrava o quanto fora difícil convencer sua irmã menor a posar ao lado dele e a segurá-lo de pé para bater a foto. “Não quero ficar ao lado de um morto!” ela chorou. “Ele não é um morto!” ralhou a mãe das crianças. “Ele é o seu irmão!”.

Alguns trabalhos eram mais fácies que outros. Mais dolorosos que outros. A terceira foto lembrou Phineas da pena que ele sentiu da infeliz viúva que havia perdido o filho e o marido na mesma ocasião. Foram assaltados na noite Oxfordiana e o homem recebeu uma facada no coração, falecendo em minutos. Ele estava com o bebê nos braços e o derrubou na calçada, matando a criança. Trágico.

O fotógrafo ajeitou o corpo do homem em uma cadeira como se ele ainda estivesse vivo, segurando o filho falecido (e cuja mão volumosa escondia as escoriações do ferimento na cabeça do bebê). O Rigor Mortis começou a se alastrar e ajudou a manter o cadáver ereto e, assim, a nítida impressão que muitos tinham é de que apenas o bebê estava morto e não o homem. Trabalhos deste tipo, que ‘enganavam’ as pessoas, costumavam ser ainda mais bem pagos.

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Geralmente Phineas não costumava demorar demais na casa dos clientes, mas nesta ocasião precisou confortar a mulher. Ela mesma não quis aparecer na foto devido às enormes olheiras de choro e da própria impossibilidade de aceitar completamente a morte do filho e do marido, ao mesmo tempo amando e odiando a foto que estava sendo tirada. Entre lenços e mais lenços, o fotógrafo passou quase duas horas conversando com ela. Ele jamais poderia se esquecer: ele sentado no sofá confortando a viúva enquanto o marido morto estava sentado na cadeira ao lado.

A quarta foto apresentava uma situação semelhante: uma mulher que também não aceitava a perda do ente querido. No caso da filha de cinco anos, morta pela diarreia. Phineas tentou de todos os modos fotografar a menina numa posição como se estivesse viva, mas o corpo frio da criança não ajudava. Por fim a mãe decidiu que ela mesmo seguraria a filha, mas para dar a impressão de que ela estava viva (mais precisamente de pé) a mulher cobriu-se com um pano negro para não aparecer na foto. Um trabalho que não ficou convincente, mas alegrou a pobre mãe.

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O fotógrafo sacudiu a cabeça diante das três últimas fotos, todas também exibindo crianças mortas. A quinta mostrava uma mocinha de doze anos em meio à suas bonecas favoritas. Na sexta uma menina segurava na mão da irmã morta, apreensiva. A sétima e última, revelada naquele dia. exibia a mãe e três crianças, uma delas morta e com a cabeça encostada em seus joelhos.

Esta última foto perturbou Phineas, embora ele próprio já estivesse acostumado com o estranho comportamento que as pessoas tinham diante do seu trabalho. Foi uma das poucas casas onde ele foi recebido de forma festiva. A mãe da criança morta estava muitíssimo bem arrumada e feliz. Suas duas outras crianças vivas também. “O fotógrafo, crianças! Venham! Vamos ser imortalizadas com esta bela imagem!” Irônico: Phineas imortalizava pessoas mortas…

– … senhor McCartney?

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O fotógrafo tomou um susto quando a porta do seu pequeno laboratório foi aberta. O invasor era Stuart, o jovem que o auxiliava em alguns trabalhos de vez em quando.

– Deus me cegue, rapaz! – gritou o fotógrafo. – Como ousa abrir esta porta sem a minha prévia permissão?! Se eu estivesse no meio de um trabalho a luz o teria arruinado!

– Desculpe, desculpe! – o rapaz desmanchou-se em escusas. – É que é um pouco urgente! Uma senhora nos pediu para fotografar seu bebê falecido…

– E daí? Qual a urgência? Os mortos podem esperar…

– Não se eles já estão mortos há mais de um dia, senhor.

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Phineas bufou. Olhou em direção à uma pequena maleta que tinha sobre uma cadeira dentro do laboratório onde havia um pouco de maquiagem, muitas vezes necessária para disfarçar o livor mortis de alguns clientes, cujos familiares demoravam demais para se decidir pela foto. O jovem Stuart nem precisou ouvir a ordem, já se aprontou para pegar a maleta, mas antes deu uma olhada nas fotos penduradas no varal.

– Ficaram ótimas, senhor McCartney! Especialmente a do homem morto com o bebê no colo. Lembra-se do estado que estava sua face? O pó-de-arroz realmente disfarçou as marcas vermelhas e deu a ele uma nova vida! A da menina com as bonecas também. O pescoço dela já estava com uma coloração estranha que…

– Mancebo. – começou o fotógrafo. – Apenas prepare meus instrumentos e vá chamar o fiacre.

– Claro, senhor!

Phineas observou as fotos elogiadas mais uma vez. Realmente o efeito havia ficado muito bom. A ideia da maquiagem veio logo depois da época em que ele se recuperou da varíola. Sua mãe insistia para que ele maquiasse o rosto a fim de que as horríveis marcas das chagas não aparecessem. Entretanto, não havia pó-de-arroz suficientemente grosso para dar à sua face uma aparência mais saudável. No entanto não era tão difícil maquiar a pele arroxeada de um cadáver.

– Estes pobres diabos parecem mais vivos do que eu… – murmurou o fotógrafo, balançando a cabeça e preparando-se para seu novo trabalho.

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Memento Mori

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O fiacre estacionou desajeitadamente no meio-fio. O cavalo deu um trote involuntário e a cabine chacoalhou. Houve o som de alguma coisa metálica colidindo dentro dela.

– Cuidado! – gritou a voz do passageiro dentro do cubículo. – Meu equipamento é frágil!

O cocheiro cuspiu um pedido de desculpas. Apressadamente desceu da boleia e abriu a porta do veículo. Queria livrar-se do seu passageiro o mais depressa possível.

Phineas McCartney desceu da carruagem num pulo. Sobre sua cabeça havia uma cartola surrada. Seu terno estava levemente salpicado de manchas esbranquiçadas, efeito dos líquidos químicos que sua profissão exigia que manejasse. Seu rosto tinha feridas de pústulas, marcas de um sobrevivente da varíola. Em suas mãos carregava parte do seu maquinário, uma máquina fotográfica do tipo sanfona. Ainda dentro da cabine estavam o tripé e outros apetrechos metálicos que o cocheiro rapidamente retirou. Parecia estar mesmo ávido em se livrar do seu passageiro.

– Um florim. – pediu o homem, estendendo a mão calosa.

Com uma expressão torta, Phineas pagou o cocheiro, acreditando que o preço estava demasiadamente caro pelo serviço. O homem subiu de volta no veículo e, antes de ir embora, seu passageiro exclamou:

– Devia ter tido mais cuidado, pelo menos.

– Não cuido de corvos! – foi a resposta ríspida.

A seguir o cocheiro colocou o cavalo a galope. Suspirando, Phineas olhou em direção à modesta casa de classe-media. Era apenas a primeira parada, pois naquele dia teria dois trabalhos a fazer. Bateu palmas para chamar os residentes.

Logo, de dentro da casa, surgiu um senhor bem arrumado. Pareceu feliz ao ver o fotógrafo.

– Senhor McCartney, enfim!

– Perdoe o atraso, senhor Stanley. – o fotógrafo retirou a cartola e fez uma mesura. – É difícil encontrar cocheiros bons em Oxford. E a maioria é tão rude!

– Entendo, mas fiquei realmente preocupado com sua demora. Sabe que não temos muito tempo… antes de… – o homem parou de falar.

– Não, não diga mais nada. – Phineas ergueu a mão. – Apenas ajude-me com meus apetrechos e terminaremos o serviço bem depressa.

Stanley obedeceu prontamente. Logo os dois estavam dentro da casa com todo o maquinário. O fotógrafo foi encaminhado para a sala de visitas, onde tudo estava arrumado para fazer seu trabalho. Após deixar os instrumentos ali, o dono da casa pediu para que ele se dirigisse para o quarto.

– Minha mulher e minha filha estão lá. – disse o homem.

Com uma reverência, Phineas dirigiu-se até o aposento. Lá viu uma matrona séria sentada numa cadeira. E, sobre a cama, uma moça bem arrumada. Deitada e de olhos fechados.

Ela estava morta.

– Agradeço por ter vindo, senhor McCartney. – disse a mulher, cuja maquiagem disfarçava mal os olhos profundos de quem passou a noite toda chorando. – Aguardávamos o senhor ansiosamente para, enfim, podermos tirar uma foto de nossa filha antes de manda-la para o solo sagrado.

– O privilégio é meu em levar um pouco de alegria às casas tristes. – disse o fotógrafo, baixando a cabeça em sinal de respeito.

Ele olhou longamente para a jovem. Devia ter por volta dos vinte anos. Estava vestida toda de preto e com um colar de pérolas falsas ao redor do pescoço. Phineas foi discreto o bastante para não perguntar a causa da morte, embora tivesse quase certeza que a razão fosse um parto malsucedido.  Possivelmente uma tentativa de aborto. Ele já sabia reconhecer estas coisas devido aos dez anos em que trabalhava na área.

– Deseja que a foto seja tirada como, senhora?

– Com ela nos braços meus e do meu marido. – disse a matrona, acariciando o rosto da jovem. – De olhos abertos, se for possível.

– Claro. – o homem inclinou-se sobre a cama. – Permita-me.

Ele tomou a jovem nos braços. A pele dela já estava bem fria. O corpo estava bastante rígido, mas ainda era possível move-lo. Com cuidado, carregou o cadáver até a sala, onde um divã já tinha sido posicionado. Colocou a moça sobre o móvel e logo começou a montar sua máquina.

Levou apenas alguns minutos. Os pais estavam ansiosos, observando o homem posicionar seus apetrechos com certa apreensão. Assim que ele terminou- virou-se para os clientes para aprontá-los.

– Fiquem um do lado do outro… isso. – pediu. – Agora a moça no meio. Assim. Vou cruzar os dedos dela. Pronto. Ficou bem natural. Agora os olhos. Pronto. Segure as costas dela, senhor Stanley. Isso mesmo! Creio que ficou bom. Agora não se mexam.

Phineas dirigiu-se até a câmera, abriu a lente e fez um sinal para que seus modelos continuassem o mais rígido possível. Tarefa fácil para a moça morta.

Após alguns minutos ele fez um sinal de que o casal já podia se mexer. Aliviados, eles deixaram o corpo da filha sobre o divã e pagaram o fotógrafo.

– Estará pronta em alguns dias. – disse o homem, desmontando o equipamento. – Posso oferecer um desconto se o senhor tiver a bondade de me ajudar a carregar minha máquina para outra casa aqui perto. Quero evitar a má vontade dos cocheiros o máximo que eu puder.

………………………………….

A três quadras dali, outra casa de classe-média esperava a chegada do fotógrafo. Uma jovem mulher o recebeu na porta e ficou preocupada ao olhar para seu rosto marcado pela varíola.

– Não se preocupe, dama, deste mal não morrerei. – sorriu Phineas, coçando o rosto.

Era comum as pessoas se assustarem com ele, não só pela aparência. McCartney já estava ganhando grande fama como fotógrafo de mortos. Muitos o comparavam a uma ave de rapina, sempre esgueirando os moribundos a procura de trabalho. Chegavam ao cúmulo de acusa-lo de ser um assassino ou mesmo uma espécie de transmissor de varíola para que as pessoas morressem e ele pudesse tirar fotos. Falácias.

Diante do desagradável silêncio da sua cliente, o fotógrafo continuou:

– Estou aqui para tirar a foto do seu marido.

– Sim, eu sei. – a mulher baixou a cabeça. – Pode entrar, senhor McCartney.

O homem carregou seu maquinário para dentro da casa. Teve que fazer duas viagens, especialmente por causas dos apetrechos metálicos extras. Eles não foram necessários no seu primeiro trabalho do dia, mas agora seriam.

A senhora Aaron havia acabado de perder o marido, vítima de um ataque fulminante do coração. Ainda era um homem jovem e sua perda foi muito sentida pela família. Ao entrar na sala viu os pais do morto e a irmã mais velha. O senhor Aaron estava sobre o sofá, deitado com as mãos sobre o peito. Elegantemente vestido com um terno escuro que contrastava bastante com seu rosto pálido de cera.

– Boa tarde, senhores. – disse Phineas, tirando o chapéu. – Podemos começar?

A mãe do rapaz começou a chorar e o marido a confortou. A irmã do morto aproximou-se do fotógrafo com cautela.

– Não iremos posar. – disse a jovem. – Queremos apenas o meu irmão na foto.

– Certo. – o fotógrafo olhou para os lados. – Onde vamos coloca-lo?

– Quero uma foto dele sentado. – disse a esposa. – De olhos abertos, tão vívido quanto era em vida. Acha que pode fazê-lo?

– É por isto que eu trouxe meus ferros, madame!

Com a ajuda do pai do rapaz, Phineas carregou o morto até a cadeira escolhida. O corpo estava bastante rígido, mas o fotógrafo já tinha prática em lidar com isto. Massageou as juntas do cadáver e os braços e pernas afrouxaram um pouco. Colocou-o na cadeira. Enquanto o posicionava, a cabeça do senhor Aaron pendeu para o lado numa posição impossível para alguém vivo, como se fosse um boneco quebrado.

A mãe do rapaz começou a chorar de novo ao ver aquela cena que tão bem demostrava que o filho estava morto.

– Não se preocupem, não se preocupem! – pediu o fotógrafo. – A foto não vai sair assim. Vou cuidar disto.

Phineas posicionou um dos ferros atrás da cabeça do morto. Havia um apoiador de cabeça nela. Com um pouco de dificuldade, ele posicionou o crânio do cadáver de forma reta. Abriu seus olhos. Deixou os braços e pernas pendendo provisoriamente para os lados. Foi até sua câmera e a posicionou no local certo. Observou durante alguns minutos para ver se o enquadramento estava satisfatório.

– Pernas cruzadas? – perguntou.

– Pernas retas e mãos sobre os joelhos. – pediu a esposa.

O fotógrafo voltou até o morto. Ajeitou suas pernas. Tomou seus braços caídos e os colocou sobre os joelhos. Como não haveria ninguém segurando o cadáver, teve que voltar até a sua câmera mais três vezes para se certificar de que ele estava mesmo reto. Quanto tudo parecia a contento, tirou a foto.

– Agradeço, senhor McCartney. – a mulher pagou o fotógrafo. – Avise-me quando a foto estiver pronta o mais depressa possível.

– Serei célere, senhora Aaron. Meus agradecimentos e meus pêsames.

O pai do morto ainda ajudou Phineas a carregar mais uma vez o seu maquinário e a esperar por um novo fiacre. O cocheiro pareceu incomodado em realizar o serviço, mas aceitou quando o fotógrafo disse que iria lhe pagar o dobro do preço da viagem.

Dentro do cubículo, o fotógrafo segurava seu material com firmeza. Além daquelas duas fotos tiradas naquele dia ainda tinha outras mais para revelar. E teria mais serviço para semana que vem. De fato, teria serviço para a vida toda, pois as pessoas simplesmente não cessavam de morrer.

Observou o próprio rosto no metal polido da sua lente. Acariciou suas marcas de varíola. “Eles me chamam de rapineiro, é?” balançou a cabeça. “Rapineiros são aqueles que voam ao redor de seus entes queridos… querendo arrancar-lhes uma vida inexistente através das fotos”. Pensou. Recostou a cabeça no estofado da carruagem, sentindo-se redimido.

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