Post Mortem – Maelys I

mortim

 

O telefone tocava todos os dias vez desde que fora instalado. Poucas residências tinham um aparelho como aquele, apesar de a cada ano ficar mais barato ainda era um luxo. Mas Phineas estava fazendo um bom dinheiro como fotógrafo. Mais especificamente fotografando cadáveres.

A demanda por fotografias Post Mortem era enorme naqueles tristes anos finais do século XIX. As libras estavam entrando e isto permitia ao fotógrafo investir num aparelho daqueles. E, por falar nisso, ele continuava tocando.

Stuart estava um pouco nervoso, pois jamais havia atendido um telefone antes.

– O… o que eu faço, senhor McCartney?!

– Você já me viu fazer isto. – disse o homem, enfadado. – Tire o receptor do gancho e coloque-o na orelha, então gire a manivela.

O rapaz encostou a orelha no bocal, o receptor na boca e girou a manivela no sentido contrário ao necessitado para atender uma ligação.

– Não! – exclamou Phineas, tomando o aparelho das mãos do rapaz. – Faça assim! Pronto. – ele mesmo atendeu o telefone. – Pois não? Sim, sim, Phineas McCartney! Em que posso ajudar? Ah, certo, meus pêsames, senhora… uh? Como disse mesmo que era seu nome?

– Está funcionando?! – perguntou o rapaz, animado. – Deixe-me falar um pouco, senhor McCartney! Deixe…!

– Shhh! – o fotógrafo fez um gesto rude para que seu assistente se calasse. – Claro… sim, já estou indo, Mael… digo… senhorita Gray. – o homem colocou o receptor no gancho e girou a manivela do aparelho para trás, findando a ligação.

– É muito excitante, não é, senhor? – sorriu Stuart. – A primeira vez que falei num telefone foi quando estava trabalhando como garoto de recados no distrito policial na Cowley Road. Foi incrível ouvir a voz de outra pessoa do outro lado da linha! Se bem que a pessoa estava um tanto desesperada, pedindo por ajuda, mas mesmo assim…! – ele fez uma pausa. – Uh, senhor? Está se sentindo bem?

– Hã? Sim, claro… sim. Estou bem. – ele tossiu, discretamente. – É que o trabalho que terei de fazer hoje é um tanto… mórbido.

Para um homem que ganhava a vida fotografando cadáveres, o predicado “mórbido” só era usado em situações realmente extremas. Phineas já havia fotografado mortos de todos os tipos, de todas as idades e que vieram a óbito das formas mais variadas possíveis. Stuart estremeceu ao pensar que situação seria esta que o próprio McCartney julgava mórbido. Decidiu perguntar:

– E por que seria tão “mórbido” assim, senhor?

O homem lançou um olhar para o rapaz, indicando que ele estava sendo inconveniente. O assistente baixou a cabeça e calou-se, mas Phineas respondeu do mesmo jeito.

– Hoje eu vou fotografar… – ele fez uma pausa. – … alguém que eu conheci.

……………………………………………………………………………….

 

A região de Swindon era bastante afastada do centro. Ficava quase em Bristol. Só o preço da charrete já encareceria a foto em quase o dobro. Porém Phineas seria incapaz de cobrar o que quer que fosse de Maelys Gray. Não que ela não tenha insistido efusivamente:

– … e pela ÚLTIMA vez, Phineas! – ela exclamou, sacudindo as mãos do homem. – Aceite este dinheiro ou vou fazer um estrago na sua cara que nem vai se comparar a estas cicatrizes de varíola que você tem!

A jovem mulher estava furiosa. Não só porque parecia estar extremamente desconfortável naquele vestido negro de luto, mas porque não estava com vontade de discutir a desfeita que o fotógrafo estava fazendo com o dinheiro. Cinco soberanos: moedas que tinham o valor simbólico igual ao da libra, mas valiam muito mais por serem feitas de ouro. Isto era bem mais que o dobro do valor de uma foto Post Mortem naqueles dias.

– Está bem, senhorita Gray. Aceitarei duas, pois é sempre bom ter ouro na reserva. Mas eu não vou pegar todas as…

– Pegue as malditas moedas, Phineas! – rosnou a moça. – E pare de me chamar de senhorita Gray!

– Maelys. – o homem baixou a cabeça, por fim aceitando o dinheiro. – Sei que está abalada com a morte de seu pai.

A moça sequer mudou a expressão do rosto quando o fotógrafo disse aquilo. Uma falta de reação estranha, para dizer o mínimo. “Talvez ela já tenha chorado o suficiente” pensou o homem, convidando-a a ir para sala e começarem o serviço.

Stuart estava no aposento e não pode deixar de ouvir a discussão. Atrapalhou-se todo com a câmera quando os dois saíram do quarto da jovem.

– Cuidado com isto, rapaz! – pediu o fotógrafo.

– Pe… perdão, senhor McCartney! Perdão! – ele ajeitou o tripé e colocou a pesada máquina sobre ele. Ia fechar as travas, quando Phineas exclamou.

– Espere! Nós nem sabemos onde vamos tirar a foto ainda.

– Será lá fora. – disse a moça.

– Lá fora?

– Meu pai já está morto há mais de um dia e precisava adiantar os procedimentos do velório. Ele está lá fora, no caixão. Venham.

O velho Frederich Grey estava deitado em seu esquife já com as coroas de flores sobre a cabeça. O caixão estava rodeado por plantas e havia até uma mesa de centro do jardim com café.

– Os convidados chegarão logo. Peço que se apresse, Phineas.

O fotógrafo achou aquilo estranho. Mesmo em seu ramo de fotos Post Mortem era difícil fazer trabalhos com defuntos já em seus caixões. Sem falar que Maelys ainda não havia demonstrando um átimo de tristeza diante da morte do pai. Ele sempre soube que ele e a filha nunca tiveram bons termos, mas geralmente estas diferenças sumiam nos momentos da morte… ou pelo menos as pessoas se esforçavam para fingir que haviam sumido.

Com o auxilio de Stuart, a foto foi tirada. Duas chapas, apenas. Sem muito capricho. A moça não parecia se incomodar. No momento em que estava desmontando seu maquinário, as pessoas começaram a chegar para o velório. Esforçando-se para parecer discreto, o McCartney aprontou suas coisas e pediu para seu assistente levar tudo para o fiacre que os esperava. Na porta, despediu-se com polidez.

– Meus pêsames, Maelys. – disse Phineas, retirando o chapéu numa última reverência.

A mulher sorriu, embora houvesse tristeza em seu olhar. Ela moveu o rosto de um lado para o outro, olhou para cima e para baixo. Estava claro que ela queria falar alguma coisa, mas no final apenas abraçou o fotógrafo. Um abraço longo e caloroso. Para os ingleses, sobretudo os da Era Vitoriana, abraços eram grandes demonstrações de afeto reservada só aos melhores amigos. Phineas fechou os olhos e a abraçou também. Era bom sentir o calor de outra pessoa. Devido sua aparência e profissão, era difícil para ele receber tais demonstrações de afeto. Fazia tanto tempo…

– Cuidado na estrada. – disse a moça, respirando profundamente antes de soltá-lo. – Vá com Deus, Phineas.

– Fique com Deus, Maelys. – o homem sorriu, recolocou seu chapéu e dirigiu-se ao fiacre, não sem antes dar uma última espiada para trás.

A moça continuava parada na soleira da porta, observando ele ir embora. Apesar do agradável abraço, havia uma estranha sensação amarga no ar.

Phineas tinha certeza de que ela queria lhe dizer alguma coisa.

CONTINUA

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