A Cicatriz

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Ana sentiu o coração disparar quando viu a luz amarela piscando no dorso da sua mão direita. Isso indicava que seu IntradermePC estava ficando sem sinal. O capitão da nave a tranquilizou:

– Calma, é normal. – disse, sorrindo. – Quando atingimos a mesosfera os sinais de comunicação ficam um pouco confusos, mas depois se estabilizam.

– Ah… mesmo? – disse a mulher, respirando melhor. – Mas isso não devia acontecer. Estamos em 2098 e ainda ocorrem perdas de sinais?

– Nada é seguro no mundo. – disse o homem, com tristeza. – É por isso mesmo que você está fazendo esta viagem.

Ana Merlo havia ganho as eleições daquele ano como presidente do Brasil. O país havia acabado de se tornar a terceira maior economia do mundo e era a nação mais influente em termos políticos no planeta.  Uma grande responsabilidade para uma jovem presidente de 42 anos. Diante dela estava o desafio de levar o país até o século XXII. Há tempos conceitos econômicos e sociais como “aposentadoria”, “emprego fixo” e “vida pessoal” estavam caindo em desuso no planeta inteiro. O Brasil, no entanto, ainda guardava características tradicionalistas e a transição teria que ser suave.

Tão suave quanto foi o pouso da nave no solo lunar.

– Já chegamos?! – exclamou Ana, surpresa.

– Já. – sorriu o capitão. – Vou trazer o traje espacial para você.

Ela olhou nas costas da mão e viu que a luz que piscava era verde. “Pleno sinal! Está tudo bem!”, ela pensou, e imediatamente ela autorizou que seu pensamento fosse publicado na mídia, faminta por informações de como estava transcorrendo a viagem da presidente. Mas ela não era a única que estava sendo monitorada. Pelo menos outros trinta líderes mundiais, que havia acabado de serem eleitos em seus respectivos países naquele ano, também estavam na lua.

Ana recebeu o traje e começou a vesti-lo, um tanto atrapalhada. Depois de dois pequenos testes para ter certeza de que ele estava lacrado, as portas da nave se abriram e a presidente pisou no solo empoeirado da lua pela primeira vez em sua vida.

“Tem certeza que não prefere ficar na Estação Galileu?” perguntou o capitão, comunicando-se em pensamento. Ele também tinha um IntradermePC. “Todos os outros terão uma vista tão boa quanto a sua na total segurança do porto lunar.”

“Você mesmo disse que nada era seguro no mundo, capitão” foi a resposta de Ana. “Além disso eu quero ter a sensação da gravidade diminuída… da dificuldade em andar em solo extraterrestre… eu acho que a experiência será melhor assim.”

Apesar de todo o treinamento que recebeu na Unidade de Estudos e Missões Espaciais Brasileira, nada se comparava a estar na lua de verdade. A estranha sensação de estar em um ambiente alienígena. Mas não foi por causa do satélite que ela (e os outros mais de trinta líderes mundiais) haviam feito esta viagem. O motivo era a própria Terra.

Desde 2072, data do final da Guerra da Cicatriz, foi decretado pela GAIA (antiga ONU) que todo líder mundial, antes de assumir o cargo, seria obrigado a fazer uma viagem até a lua e observar o motivo pelo qual o último grande conflito armado no planeta recebeu este nome:

Um pouco acima do Trópico de Câncer havia um enorme risco negro na face da terra.

Uma linha irregular que começava na costa oeste dos Estados Unidos, atravessava a extensão do (agora inexistente) norte do Oceano Pacífico, e terminava na costa leste da China. As ilhas do Japão não existiam mais, o Havaí havia sido, literalmente, riscado do mapa e mal dava para precisar onde antes ficavam as Filipinas. Da água que antes cobria aquela extensão no mundo restava apenas pequenos lagos fumegantes. A profundidade do rasgo estava estimada em mais de cinco quilômetros de profundidade (sem contar a natural depressão marítima). Era tão fundo que até a gravidade terrestre sofria alterações naquele ponto.

Aquele ferimento no planeta era a prova final do quanto a humanidade podia atingir níveis absurdos de estupidez. E desde então foi decretado, da forma mais firme e dura possível por toda aquela triste geração que testemunhou aquele conflito:

Nunca mais.

Nunca mais algo parecido com aquilo poderia voltar a acontecer.

Ana teve a reação mais natural e que foi seguida pelos outros trinta líderes mundiais que estavam na estação lunar: ela começou a chorar. Como uma mãe que vê que a face do filho ficaria desfigurada para sempre por causa de um acidente que aconteceu quando ela estava distraída com assuntos fúteis, Ana começou a chorar copiosamente.

Aquela fora a última guerra que aconteceu no planeta Terra.

“Eu… já vi o suficiente.” disse Ana, em pensamento. E a frase seguinte a brotar em sua mente, e a ser publicada na mídia, se tornaria histórica:

“Foi o mais doloroso dos partos, mas enfim… a humanidade está pronta para realmente ser chamada de humanidade.”

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