Titereiros – FINAL

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Titereiros7

 

O chocolate cremoso com chantilly era divino. A consistência estava perfeita e o creme não estava enjoativo. A xícara era belamente pintada e dava um requinte à bebida. O próprio espaço daquele Café adicionava glamour e beleza a qualquer coisa que se quisesse comprar ali. Como nos mais produzidos comerciais, feitos pelas melhores agências de publicidade, tudo estava perfeito.

– Você é feliz, João?

João era o CEO da empresa Titereiros. Ele bebericava o seu chocolate enquanto a discreta espuma do chantilly manchava seus lábios superiores. Sorriu.

– E você é, Gabriel?

Gabriel era um dos funcionários da Titereiros. Um tetraplégico com metade do rosto queimado que era incapaz de sequer ergueu uma xícara de café. Com dificuldade, ele sorriu enquanto seus músculos faciais queimados repuxavam num horrendo sorriso.

– Acho que sou.

Os dois homens ficaram em silêncio por um tempo.

– Acho que usei o verbo no tempo errado. – comentou Gabriel, erguendo os olhos (era o único exercício que lhe restava fazer). – Eu deveria ter perguntado ‘você está feliz, João’?

– Em inglês ‘ser’ e ‘estar’ são a mesma coisa. – disse o homem, finalizando seu chocolate.

– Uma lastimável subtração semântica para o idioma.

– Haha, que bobagem! É o mesmo que dizer que americanos não sentem saudades porque não existe uma palavra específica para ‘saudade’ no vocabulário deles. Eles também poderiam dizer que nós, brasileiros, não sabemos quantificar coisas que se pode contar e não contar porque não possuímos o ‘how much’ e ‘how many’.

– Hahaha! – Gabriel riu e seu rosto ficou ainda mais horrendo. – Você ESTÁ feliz!

– Sim. – concordou o CEO. – Eu estou!

Felicidade era o bem de consumo mais desejado do momento. A Titereiros era uma empresa especializada em realizar os sonhos das pessoas, não importando quais fossem e quanto tempo levasse. Um empreendimento vencedor que fazia sucesso. Muito sucesso.

– Felicidade. – o empresário olhou distraidamente pela janela do Café, que dava para um belo jardim de inverno. – Receio que não exista nenhum idioma neste mundo que possa realmente exprimir o verdadeiro sentido deste sentimento, não?

– Para cada pessoa, felicidade é uma coisa diferente.

– Não. – João balançou a cabeça. – As pessoas apenas fazem coisas diferentes para chegar ao mesmo fim, mas a felicidade é uma só.

– Bem, você é o homem que pode dizer isto. – Gabriel deu uma risada suave. – Você viu todo tipo de gente querendo os mais variados tipos de felicidade… perdão… os mais variados meios de se alcançar a felicidade.

– Ainda não conseguimos o modelo perfeito de reconstrução medular para fazer você voltar a andar. Desculpe, Gabriel.

– Tudo bem, João. Eu estou feliz assim.

Foi a vez do CEO rir.

– Preso numa cadeira de rodas sem poder se mexer?!

– O meu trabalho é mexer o corpo de outras pessoas e faze-las correr atrás de seus sonhos. É cansativo. Não me importo de ser um tetraplégico na minha ‘folga’.

– Muitas pessoas sentem-se felizes quando estão cansadas.

– É verdade. – se pudesse, Gabriel teria balançado a cabeça.

A atendente do Café perguntou se os dois cavalheiros desejavam mais alguma coisa. Ofereceu especial atenção ao tetraplégico, mas ele gentilmente disse que não precisava de nada. A moça ficou estranhamente incomodada com a resposta.

– Sabe como eu tive a ideia de criar a Titereiros? – começou João.

– Oh, não! Lá vem você com suas histórias. Aproveitando-se de mim que não posso fugir nem erguer as mãos para tapar os ouvidos. Seu sacana!

– Você É feliz, Gabriel!

– Sim! E conte logo esta epopeia.

– Bem, se está esperando uma história longa e complicada… alguma coisa realmente épica… motivacional ou esclarecedora… vai decepcionar-se. – João recostou-se na cadeira. – Eu estava de férias com minha família. Eu tinha uns dezenove anos e fomos até a Bahia, pois meus pais diziam que queria se ‘divertir à beça’ para poderem esquecer uns acontecimentos ruins recentes. Sabe como é, estavam meio depressivos. Então nos hospedamos num hotel muito bom, pois meus pais tinham bastante dinheiro.

– E quem tem bastante dinheiro tem depressão?

Os dois homens se entreolharam e depois riram. Aquilo não precisava de resposta.

– O staff do hotel nos agradou de todas as formas possíveis. Acarajé, cocadas, abarás envolvidos em folhas de bananeira… meus pais se inscreveram nos cursos de lambada, de samba, de ‘seguir corda do trio elétrico’… Eu, particularmente, preferi ficar no saguão lendo um livro. E a todo instante um funcionário vinha perguntar se eu queria ir à piscina, se eu queria aprender a dançar, se eu queria alguma coisa. Quando finalmente disse a ele que não queria nada, apenas ficar em paz lendo meu livro, eles pararam de vir atrás de mim.

Ele fez uma pausa, girando a xícara vazia no pires.

– Quando meus pais chegaram e me viram lendo meu livro placidamente eles me agarraram pelo braço, muito bravos comigo. Eu não entendi naquela hora, mas depois eles me explicaram: a minha presença lá no saguão, parado, lendo o livro, incomodava as pessoas, porque dava a impressão de que eu estava triste.

Nova pausa.

– E aí? – perguntou Gabriel. – Isso é tudo?

– É.

– Só isso? – o tetraplégico esboçava visível decepção em seu rosto queimado. – Você criou a Titereiros porque um bando de gente se incomodou porque você parecia triste?

– Sim.

– Mas que coisa…! Bem, e se você realmente estivesse triste, qual o problema? Não temos mais o direito de ficarmos tristes de vez em quando?

– Não, meu caro. – João levantou-se e guiou a cadeira de Miguel para fora do Café, deixando uma gorda gorjeta para a atendente. – Não temos.

 

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2 comentários

  1. Se estar feliz é a lei, então todos se tornam tristes pois buscam a felicidade inalcansável. Estar satisfeito não é o suficiente e a lei prevalece.
    Titeteiros é uma empresa que apenas gira a grande roda dessa lei. Titeteiros não é a vilã, nem a protagonista. Esse papel é o papel da própria felicidade.

    Eu particularmente acredito em um conceito diferente de felicidade. Outro “tipo” mesmo. Através da minha fé eu encontro uma felicidade meio maluca. Mas o que quero mesmo é não viver pela grande vilã que é a “Felicidade”.

    Excelentes contos. Parabéns ^^ Fico feliz de ter acompanhado desde o primeiro xD

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