Em Seus Braços

O vento sacudia as janelas com tamanha violência que elas pareciam prestes a se despedaçar. Os raios caíam muito próximos, seus trovões balançando as estruturas da residência. A água corria violenta pela calha, fazendo barulho. Bernard ficava aflito com temporais assim, principalmente naquela época do ano. Chovia muito no final da estação e era bem naqueles dias que Vardur costumava voltar para casa.

Não que esta perspectiva não o alegrasse. Bernard sentia falta do seu antigo companheiro de aventuras. Os dois costumavam fazer uma grande dupla: ele, um humano ladrão (ou “encontrador de objetos alheios” como gostava de ser chamado) e Vardur, um anão guerreiro. Havia outros integrantes do grupo, mas estes não importavam. Pelo menos não para o casal.

O ladrão e o guerreiro eram um casal e isto não era mais segredo para ninguém.

Bernard foi obrigado a se aposentar precocemente, ao final da casa dos trinta. Recebeu uma flechada que lhe estraçalhou a rótula do joelho esquerdo e o colocou na cama por meses. Não houve milagres, nem curandeiros suficientes que lhe devolvessem os plenos movimentos da perna. Ele ainda era capaz de andar sozinho, mas não podia correr e pular, quesitos indispensáveis para qualquer ladrão. Felizmente ele havia guardado uma boa parte dos seus saques e tinha renda suficiente para viver confortável pelo resto da vida, mas mesmo assim Vardur prometeu que ainda o ajudaria.

Os dois começaram a viver juntos pouco tempo depois, embora passassem pelo menos meio ano separados. O anão costumava se ausentar durante meses em suas missões. O coração do ladrão sempre ficava apreensivo para a volta do seu companheiro de aventuras e de cama – ao mesmo tempo que se apertava com a possibilidade de que, um dia, ele pudesse não voltar. Por mais forte e vigoroso que ainda fosse, Vardur já não era mais jovem. E cada vez que voltava, trazia uma nova cicatriz; motivo de orgulho para ele e preocupação para Bernard, que sabia que as habilidades defensivas do guerreiro estavam começando a decair.

Um raio explodiu muito próximo, causando um barulho ensurdecedor. O humano pulou da cama, assustado. Esfregando o rosto, levou a mão até a bengala que deixava encostada no criado-mudo e se levantou para ir até a cozinha. Decidiu comer alguma coisa. Porém mal teve tempo de tirar uma roda de queijo do armário, quando ouviu alguém bater na porta e uma voz conhecida gritar:

– Bernard?!

– Vardur! – o humano quase deixou o queijo cair no chão. – Espere! Vou abrir!

Coxeando, foi até a porta. Diante dele estava o anão. Ensopado, olhando para cima com um sorriso trêmulo. Sua barba e seus cabelos estavam colados no rosto, exibindo um bonito tom dégradé de grisalho. Os olhos estavam emoldurados por simpáticas rugas de alegria. O metal da sua armadura resplandecia claro pela luminosidade dos ocasionais raios que caiam próximos. Num movimento ansioso, Bernard o puxou para longe do aguaceiro, dentro da casa.

– Pelos deuses, olhe para você! – exclamou, fechando a porta. – Por que você faz isto?!

– Faço o quê? – perguntou o anão, sem desmanchar o sorriso.

– Isto! Arrisca a vida neste temporal… podia ter esperado até o dia clarear! Por que não parou numa estalagem?!

– Oh, mas eu parei. Ontem. – o anão começou a remover sua armadura, descobrindo os ombros que estavam riscados por discretas cicatrizes. – Passei a noite em Jarro Cheio e depois vim direto para cá.

– Jarro Cheio fica a quase um dia de viagem! – Bernard balançou a cabeça. – Quando foi a última vez que você teve uma refeição?

– No café da manhã. – respondeu, enquanto se livrava da pesada proteção de couro curtido que ficava embaixo da armadura que, por causa da água, estava pesando o dobro.

– Fique aí! – exclamou o humano. – Vou acender o fogo e buscar uma toalha!

Em minutos a lareira estava acesa e Vardur se secava em frente a ela. O anão tremia e espirrava, mas estava feliz em voltar para o lar. Bernard trouxe pão, queijo e um caldo quente para seu amante. Ele estava faminto e, apesar de não admitir, muito fraco da viagem. Sempre que chegava na capital do reino de Cahwiland o anão tinha o costume de fazer muito poucas paradas a fim de voltar logo para seu querido ladrão.

Bernard sentia-se ao mesmo tempo lisonjeado e apreensivo com aquele comportamento. Ambos já não eram mais jovens e ele temia pela saúde de Vardur. Enquanto ele comia, o humano se ocupava em enxugar seus cabelos e notou um corte na pele muito próximo da nuca do guerreiro.

– Cicatriz nova? – perguntou, esforçando-se para conter o seu tom de reprimenda.

– Oh, isso foi em Alliors. – respondeu o anão, girando a cabeça e sorrindo. – Juntei-me ao mais incapaz grupo de mercenários que já encontrei para capturarmos uma quadrilha de bandidos. É incrível como esses jovens são incompetentes! Mandei dois vigiarem minha retaguarda e, mesmo assim, um dos ladrões me acertou. Mas foi só um corte pequeno.

Bernard fez uma careta. O corte era pequeno porque não era um corte, mas uma marca de perfuração. O tipo de golpe final que os assassinos aplicam nas vítimas para mata-las de uma vez só. Analisando a posição do machucado, o ladrão estremeceu ao perceber que, por milímetros, a lâmina inimiga não atingiu a área vital que causaria morte instantânea. Mesmo assim chegou à conclusão de que aquele ferimento deveria ter sangrado muito. São poucos os que possuem conhecimento de cura adequados para cuidar de hemorragias e perfurações. Em que tipo de mãos incapazes o anão deve ter andando? Desta vez o vigor físico dele o salvou, mas… e na próxima vez?

O humano apertou os ombros de Vardur e encostou a testa atrás da cabeça dele.

– Por que você faz isto?! – questionou, num tom choroso.

– Você já me fez esta pergunta antes.

– NÃO tem mais que fazer ISTO! – Bernard levantou a voz. – Fique aqui e sossegue de uma vez! Eu tenho dinheiro suficiente para vivermos juntos até o resto de nossas vidas no conforto! Você não precisa mais ficar fazendo isto: aventurando-se, pondo a vida em risco tanto na ida quanto na volta para casa! Arriscando sua saúde em temporais…! – ele fez uma pausa para respirar. Suspirou e beijou a nuca do guerreiro. – Aposente-se de uma vez. Por favor…

Vardur ficou em silêncio por alguns instantes. Tocou a mão de Bernard, que apertava seu ombro.

– Você sabe que eu não vou fazer isto. – ele disse, num tom solene. – Você sabe que eu te amo e que meu coração também se aperta ao pensar que posso, um dia, sair desta casa e não voltar mais. Não que eu tema pela minha vida, mas me preocupo com você. Fico triste ao pensar em você aqui, sozinho…

Bernard apertou ainda mais os ombros do guerreiro, enquanto engolia um soluço infeliz.

– … mas por mais que a perspectiva de ter ver todos os dias pelo resto da minha vida seja agradável, existe outra paixão forte que ousa desafiar a que eu tenho por você: a aventura. – o anão fechou os olhos. – Eu não posso… simplesmente não posso deixar de sair em minhas buscas enquanto eu ainda estiver sobre minhas duas pernas. É mais forte que eu. Da mesma forma que, por mais ferido que eu esteja, eu não ouso morrer. Nunca! Já vi muitos companheiros caírem em batalha, mas eu sempre me levantei todas as vezes, por você. Por isso não precisa se preocupar.

– E se… um dia você for ferido demais…?!

– Nenhum ferimento, por mais grave que seja, me impedirá de ver você. Não se preocupe, meu amor. Eu só vou morrer em seus braços e em nenhum outro lugar mais. Eu sempre voltarei para você.

– Ah, Vardur! Você é tão teimoso! – o ladrão sorriu enquanto uma lágrima escorria pelo canto de seus olhos. – O que eu faço com você?

O anão girou o corpo para trás e acariciou o rosto do humano com ternura com sua mão calosa.

– Ame-me. – disse, antes de beijá-lo.

                A manhã estava tão gélida quanto o coração de Bernard. Os dois homens diante dele, que tentavam disfarçar os sorrisos zombeteiros, eram mensageiros da cidade. Um deles tinha um machado nas mãos e o outro tinha uma mochila de couro surrada. Ambos eram de Vardur.

– Teve sorte! – disse um dos homens, entregando a mochila. – Geralmente quando as pessoas encontram um cavalo vagueando a esmo, com pertences presos na garupa, eles simplesmente os afanam sem se importar com nada. Porém o velho que encontrou o animal fez questão de devolver-lhe ao dono.

– Como…? – a voz de Bernard estava fraca e desesperançosa. – Como descobriram…?

– O cavalo era alugado, mas o dono do animal tinha o seu endereço. Seu… huh… amigo… – o guarda forçou-se a conter a risada. – … o seu amigo anão havia deixado claro que, caso acontecesse algo, deveriam entrar em contato com você.

– Até para pagar o valor do aluguel que ficou pendente. – lembrou o outro mensageiro.

– E Vardur?! – agora a voz do ladrão tinha o tom do desespero. – O que houve com ele?!

– Não sabemos. Como já disse, um velho encontrou o cavalo, o devolveu ao dono, e agora nós estamos…

– Onde?! – exclamou Bernard. – Onde, exatamente, o cavalo foi encontrado?!

– Em Scouse. Estava vagueando pela estrada. Os guardas ainda tentaram fazer uma busca, mas não encontraram sinal do anão. De qualquer forma o cavalo não apresentava sinais de ferimentos ou qualquer outra coisa. Talvez o seu namora… digo! Talvez o seu amigo tenha apenas amarrado o animal com um nó muito frouxo e ele fugiu. E agora está voltando a pé para casa.

“Voltando para casa…” pensou o ladrão, sentindo seu coração se apertar. “Se você ficasse aqui o tempo todo, como eu queria, não teria que VOLTAR para casa…”.

– Ele não disse ao dono do animal onde pretendia ir?! – questionou Bernard, agarrando o machado do seu amante que ainda estava nas mãos do mensageiro. A arma estava em péssimo estado, sem fio e com pontos de ferrugem, indicando a falta de trato que recebeu nos últimos dias. – Não disse se estava indo numa missão, ou falar com alguém, ou qualquer coisa?!

– Não, apenas alugou o cavalo e pagou os três primeiros dias adiantados. Então acho que não pretendia ir muito longe. – o mensageiro levou a mão ao bolso e entregou um papel a Bernard. – De qualquer forma, o animal ficou fora por uma semana. E aqui está a conta dos quatro dias extras que o cocheiro pediu para que você pagasse.

                Scouse cheirava a sal e metal enferrujado, como toda cidade portuária. Não era o melhor lugar para um coxo caminhar. A maresia fria estremecia seus ossos e fazia sua perna doer ainda mais. Mas nada se comparava à dor no coração de Bernard.

Ele encontrou o homem que havia alugado o cavalo para Vardur, mas não conseguiu nenhuma informação adicional. No dia seguinte conseguiu descobrir quem foi o velho que achou o animal vagando pela estrada sozinho.

– O bicho tava trotando sozinho, comendo mato na beira do caminho. – disse o idoso, fumando um cachimbo bem fedorento. – Eu sou honesto, minha mãezinha era muito religiosa e sempre me ensinou a ser honesto. Ela fazia eu rezá para os deuses todos os dia. E os deuses gostam de gente honesta. Então eu rezava para…

– Por favor – interrompeu o ladrão. – Em que ponto da estrada, exatamente, o senhor encontrou o animal?

– Ah, foi perto da Floresta dos Enforcado. Um lugar muito, muito ruim! – ele soltou uma baforada. – Sabe que era ali que o rei mandava executar os traidor? Pendurava eles tudinho nos galho. A maioria era marinheiro e taifeiro que se rebelava contra os capitão dos navio. Mas tinha de tudo que era gente pendurada lá… esposa infiel, ladrão, pagão…

– Eu não quero saber a história da floresta! – protestou Bernard, perdendo a paciência. – Quero apenas que me mostre o caminho até ela.

– Heim?! Mas nem pensá! – o velho estremeceu. – Eu não me bandeio para aqueles lado, só passei por perto porque não tem jeito, a estrada fica meio colada com lá. Mas eu não vou…

– Então diga-me onde fica, por favor! Eu preciso encontrar meu… amigo!

– Ah, o dono do cavalo. O cocheiro falou que era um anão que tinha alugado o bicho. Mas os guarda já deram uma busca lá na época. Num vai encontrar mais nada não. É inútil.

– Eu que decido isto, velho! – Bernard apertou o cabo da bengala. – Agora leve-me até a floresta!

Dava para sentir o mau-agouro no ar. A Floresta dos Enforcados era um lugar escuro e triste. Nem os animais pareciam gostar de estar ali, já que mal se ouvi o som da vida no entorno. De vez em quando era possível ver grossas cordas presas nos galhos das árvores, apodrecidas depois de terem executado a sua função muitos anos atrás. Em alguns troncos havia mensagens gravadas na madeira, todas soando como maldições. Havia algumas placas de madeira caídas e outras ainda de pé. Os dizeres variavam, mas muitas delas anunciavam “Território amaldiçoado! Volte!”.

O local havia sido abandonado como ponto de execuções oficiais, mas muitos corpos ainda eram encontrados por lá. A maioria de suicidas, outros de pessoas que foram linchadas e mortas pela justiça do povo. Com certeza estava repleto de espíritos e fantasmas que não podiam mais descansar… talvez zumbis ou coisa pior. Não era o tipo de lugar que Bernard escolheria para se aventurar nem nos seus tempos mais áureos. Será que Vardur esteve mesmo naquele lugar, ou o cavalo apenas trotou para a floresta sozinho?

Mas o ladrão não tinha escolha. Aquela era a única pista que tinha. Precisava arriscar.

Bernard já havia perdido as contas de quantas vezes já havia tropeçado em meio aos galhos das árvores. Seus joelhos e suas palmas das mãos já estavam em carne viva. Ele passou uma noite na floresta, chorando muito. A tristeza superando o seu medo de estar ali.

– Vardur! – ele gritava para o vazio, de tempos em tempos. – Alguém?! Por favor!

Recebia apenas o silêncio.

As manhãs eram negras e desesperançadas. Os olhos do ladrão já mal conseguiam enxergar de tanto choro. Depois da quarta noite em que passou na floresta, sozinho, o desespero bateu-lhe com força.

– … eu devia me pendurar num destes galhos…! – murmurava para si. – Terminar com esta angústia…!

Mas não, ele precisava continuar. Por Vardur. Precisava morrer tentando.

A tarde já estava terminando, e com isso também se esvaia o quinto dia em que o ladrão vagava por aquela floresta. Talvez fosse melhor procurar pelo anão em outro lugar. Porém, antes que o sol baixasse completamente, Bernard encontrou algo.

Um cadáver.

Seu coração se acelerou. Correu o máximo que suas pernas fracas lhe permitiam e se aproximou da carcaça. Era bastante velha, devia estar ali há quase um mês e estava praticamente só nos ossos. Era o corpo de um humano. Um guerreiro, para ser mais exato, a julgar pela cota de malha estilhaçada. A mochila de couro, típica de aventureiros e mercenários, ainda estava intacta. Bernard a remexeu e em meio a alguns objetos inúteis, encontrou um documento que possuía o selo da Irmandade da Espada, uma importante guilda de aventureiros do reino. Dizia:

“Dia 3 da Lua Minguante Púrpura. Fica registrado que a missão do resgate da filha louca do senhor Erik Hawke. Desaparecida na Floresta dos Enforcados há dias. Viva ou morta. Grupo responsável: Marin Falcon, Elaniarell, Alice Hastings e Vardur da Casa Brukkar.”

O coração de Bernard deu um pulo. Seu amante esteve realmente ali. Mas… onde estaria agora?

O documento continuava, dando mais detalhes do sumiço da filha de Erik Hawke. Dizia que a menina começou a “ouvir vozes chamando” e algo sobre uma tal “cachoeira escarlate”. Um dia, estava em casa e se feriu com uma faca ao cortar um salame e enlouqueceu. Segundo relatos, ela teria desaparecido na Floresta dos Enforcados.

– Você esteve aqui… ainda pode estar aqui! – exclamou Bernard para si mesmo. – E eu juro que irei encontra-lo!

A labiríntica floresta teria enlouquecido o ladrão mesmo na plenitude de sua juventude e vontade de se aventurar. Era um péssimo lugar para fazer buscas. Já era o sétimo dia em que vagava pela mata e Bernard não encontrou mais sinal de coisa alguma. Isso o preocupava profundamente, já que suas rações estavam terminando e não parecia haver nem sinal de caça por perto (não que ele estivesse em grandes condições para caçar). Um coelho vagando solitário e um corvo muito barulhento foram os únicos animais que o humano viu a semana toda naquele lugar. Muito estranho.

Porém, depois de dias, finalmente algo novo apareceu na floresta. Do meio das árvores, brotava do chão um pequeno forte de pedras cobertas por musgo. Uma construção baixa e mal feita, abandonada há muito tempo. Em volta havia um fosso mal escavado que, agora, estava cheio de plantas rasteiras. Havia uma ponte pouco convidativa que levava para dentro do edifício. Bernard nem pensou duas vezes antes de entrar.

– VARDUR!!! – gritou, assim que colocou os pés no forte.

Foi recebido com o silêncio, o que não o espantou. Porém isto só durou alguns segundos.

– Visitas? – disse uma voz feminina.

Bernard quase pulou para fora da pele quando sentiu uma mão pousar em seu ombro. Ao seu lado, surgida de lugar nenhum, estava uma moça jovem e com um olhar insano. Suas roupas estavam rasgadas e manchadas da cor marrom-avermelhada que o ladrão imediatamente identificou como sangue ressequido.

– Quem é… você?! – gritou, recuando e quase caindo no chão.

– Eu moro aqui, eu é que deveria fazer esta pergunta! – ela riu. – Mas eu te digo, querido. Sou Erina Hawke. – respondeu, com uma voz alegre. – E fico feliz que tenha vindo! Sabe… só tenho mais um convidado que está comigo há bastante tempo! Já devia ter me livrado dele, como a voz me pediu, mas estava com medo de ficar sozinha…

Antes que o ladrão pudesse fazer qualquer coisa, sentiu algo lhe acertar na cabeça. E desmaiou.

O chão de pedra era frio e inclemente. E foi nele que Bernard acordou. Sentiu uma dor lancinante na perna defeituosa que estava firmemente amarrada com uma corda. Ele estava deitado em uma espécie de mesa de pedra. Olhou para o seu lado esquerdo e viu que havia mais alguém preso. Mais precisamente uma moça, ou o que restou dela. Um cadáver estripado jogado no chão, ainda preso pelas cordas. Do seu lado direito havia mais um cadáver, aparentemente élfico. E amarrado numa pilastra, coberto de sangue dos pés à cabeça, havia…

… um anão.

– Vardur…! – exclamou o ladrão, quase sem forças. – Va… Var… DUR!!!

– Shhh, quietinho! – a mulher louca começava a se aproximar. – Ele fica para depois.

Em condições normais Bernard estaria olhando, com pavor, para sua captora. Olhando para sua face insana e para a faca que ela trazia na mão, sua mente embotada pelo pavor. Mas naquele momento ele só olhava para seu amante, amarrado na pilastra, cheio de ferimentos horríveis. Ele nem podia dizer ao certo se Vardur estava vivo ou morto, pois o anão não respondeu ao chamado e parecia destroçado demais. Era possível até ver o branco do osso infectado do seu braço direito, amarrado por uma das cordas.

– Esse aí durou bastante! – Erina apontou a faca para o guerreiro. – A Dama de Sangue deve estar orgulhosa! Os outros dois duraram tão pouquinho… tadinhos! E o outro fugiu. Mas a Dama deve ter pego ele, ah se deve! E eu estava preocupada em terminar com o anãozinho e não ter mais oferendas. Mas que bom que era um medo bobo! A própria Dama se encarregaria de enviar novas oferendas para mim, como enviou você!

– Espere! – exclamou Bernard, com lágrimas nos olhos. – Nã… não me mate ainda! Deixe-me falar com Vardur, por favor! Eu imploro! – ele se debatia inutilmente na cama de pedra. – Deixe-me falar com ele!

– Oh, você o conhece?

– SIM! Ele é… ele é… meu amor!

A mulher arregalou os olhos.

– Mas vocês dois são homens! Oh… talvez sejam que nem o titio e o jardineiro da mansão. Mas o papai nunca gostou de falar destas coisas. – a moça começou a girar a faca nas mãos. – Ele dizia que o titio o envergonhava, por isso dizia que ele tinha que ficar escondido. Eu achava uma pena porque o titio era muito legal e o amor deles parecia tão lindo…

– Vardur! – exclamou o ladrão, novamente.

Nenhuma resposta. O ladrão começou a chorar.

– Ele… ainda está vivo, não está?! – gritou o humano. – Deixe-me falar com ele! Por favor! Traga-o para perto de mim… uma última vez… por favor!

– Não se preocupe! – a moça sorriu e ergueu a faca. – Vocês dois vão ficar juntinhos na casa da Dama de Sangue. Ela sempre leva as almas dos ofertados para a morada dela. Agora… – ela baixou a arma. – Vamos começar!

A lâmina cravou-se na perna boa de Bernard. A dor foi intensa. Ao que parecia a garota não iria mata-lo imediatamente, mas de forma lenta e agoniante. Por quanto tempo Vardur estava aguentando aquelas torturas? Por quanto tempo ele permaneceu naquele lugar, provavelmente pensando que jamais voltaria a ver seu amado ladrão de novo?

“Eu sempre voltarei para você.”

O grito do ladrão camuflou o barulho do anão se contorcendo feito uma cobra debaixo das cordas que o prendiam. Ele conseguiu se soltar e, furioso, avançou contra a mulher louca. Os dois rolaram pelo chão por alguns instantes. Geralmente Vardur não teria problemas em subjugar uma garota humana, mas estava ferido e enfraquecido demais e não conseguiu evitar que ela o esfaqueasse no peito. Bernard gritou ao ver a cena.

Estoico, o guerreiro arrancou a lâmina do peito e cortou a garganta da mulher. Esta gritou e começou a se afogar no próprio sangue, levando a mão a garganta e as mãos aos céus. E então tombou morta.

O anão ainda teve forças para cortar as amarras de Bernard antes que desabar ao seu lado. O ladrão o segurou, chorando inconsolável e tentando estancar o ferimento no peito do guerreiro.

– Eu… lhe disse… – murmurou Vardur, sorrindo. – … eu disse que só morreria nos seus braço… meu amor!

_ -_-_-_-_

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s