Titereiros 4

Titereiros4

PARTE 1      PARTE 2    PARTE 3

Gabriel era jovem de novo.

Gabriel tinha um corpo de um rapaz de 30 anos, não muito bonito, mas bastante saudável. Apenas dez quilos acima do peso. Um detalhe insignificante diante da esplendida forma física que permitia a este rapaz fazer algo que ele não era capaz uma hora atrás: andar.

Os braços não eram musculosos, mas eram fortes o suficiente para o trabalho de carregar os gabinetes de computador de um lado para o outro em seu pequeno espaço alugado da loja de informática. Gabriel nunca abriu um computador na vida para ver como era lá dentro, mas nos arquivos de memória encontrou todas as instruções: mágica.

Uma cliente entrou na loja. Era uma mulher com um notebook, dizendo que o sistema operacional não iniciava. Após alguns minutos trabalhando no Modo de Segurança, o aparelho estava novo em folha. A mulher ficou tão feliz com a rapidez (e o preço) do serviço que até deu um beijo no rosto do rapaz: sonho.

No começo da manhã Gabriel não seria capaz de conseguir estas três conquistas. Pelo menos não em seu corpo original.

Gabriel estava no corpo de Miguel, o homem para quem ele estava prestando serviços.

Gabriel era um funcionário da Titereiros.

“Senhor Miguel Veloso deseja expandir os seus negócios. Possui uma pequena loja de consertos de computadores. Demos a ele o prazo de dois anos para ele conseguir uma loja muito maior e melhor.”

Estas eram as instruções. Gabriel nunca entendeu de informática, mas toda a informação técnica que precisava já estava guardada na memória de Miguel. Como um arquivista, Gabriel tinha apenas que pegar o envelope certo e abri-lo. Na questão do estudo e auto aperfeiçoamento Miguel era um primor, mas não quando o assunto era lidar com finanças e com o público. Ao contrário de Gabriel, que sempre teve um tino para os negócios e muita desenvoltura com as pessoas.

Até o dia do acidente.

Oito anos atrás Gabriel capotou com o carro. Sobreviveu, mas as sequelas foram terríveis. Tetraplégico e com metade do rosto queimado, ele não era mais o homem que costumava ser. O antes bem-sucedido empresário agora dependia de todos para fazer as coisas mais simples. Tinha se tornado, literalmente, um tubo digestível preso num corpo quebrado: vivendo para comer, dormir e excretar. Nem sequer tinha autonomia para tirar a própria vida.

Mas tudo mudou quando aquele homem o encontrou.

O dono da Titereiros ofereceu a ele um emprego bizarro: habitar o corpo de outra pessoa. Ele voltaria a andar normalmente, a pular, a sorrir e até ir ao banheiro sozinho. Em troca faria com que esta pessoa realizasse o seu sonho pessoal. Uma proposta estranha e mal explicada, mas certamente tentadora. E o salário também não era nada mal.

– Nossos projetos futuros de neurologia já estão prevendo a reconstrução da medula óssea para devolver a pessoas como você um corpo saudável. – disse o dono da empresa, sorrindo, como sempre fazia. – Seu salário será a satisfação de voltar a habitar um corpo saudável e a prerrogativa de ser um dos primeiros a ter o corpo original devolvido à sua plena produtividade. O seu trabalho será utilizar todo o conhecimento que teve em vida para fazer a vida desta pessoa cujo corpo você habitará ser bem sucedida.

Gabriel não conseguia entender como um jovem tão talentoso com informática podia estar endividado. Não conseguia entender como alguém que, bem ou mal, tem um corpo em pleno funcionamento pode não querer fazer exercícios físicos. Não podia aceitar que Miguel fosse um homem preguiçoso.

Fazia tanto tempo… a primeira coisa que fez após fechar a loja, no primeiro dia, foi correr pelo parque. Depois de uma hora vieram as dorzinhas das juntas enferrujadas e as pernas queimando. Uma dor deliciosa. Depois parou em um café. O simples ato de poder levantar a xícara sem a ajuda de ninguém fez lágrimas caírem de seus olhos. Jamais havia provado um café tão delicioso.

– E aí, Miguelzão? Tomando um pingado só de boa, né?

A memória do homem chamado Miguel informou Gabriel que aquele era um dos seus clientes mais assíduos, Rubão. E também o sujeito que se ofereceu para ser seu contador.

– Ah… sim, claro. – sorriu, brincando com a xícara. – São estes pequenos prazeres que fazem realmente a vida valer a pena.

– Está todo poético hoje! Mas de qualquer forma, e as dicas que eu te dei? Você vai seguir? Tu é um puta técnico, cara! Só precisa melhorar um pouco a administração do seu negócio. E eu posso te ajudar!

A experiência de vida de Gabriel lhe deu a habilidade de reconhecer um mau contador só de olhar para ele. Esboçou um sorriso torto para o homem.

– Não se preocupe, um… hmmm… parente meu já vai cuidar disso. Para começar, vou legalizar a empresa. Depois vou colocar as contas em dias, melhorar o ambiente interno e arrumar uma agenda. Uma agenda de verdade, não aqueles papeizinhos amarelos autocolantes. As coisas na loja vão mudar.

– Caramba, Miguel. – Rubão colocou a mão no ombro dele. – Você está mesmo bem diferente hoje, heim? Super animado… decidido! Pelo jeito agora a coisa vai, não é?

– Ah, vai! – Gabriel sorriu tanto que o rosto de Miguel até doeu com o esforço. – Ô se vai!

……………………………….

Quatro meses haviam se passado desde que Gabriel assumiu o corpo de Miguel. Ele aprendeu muita coisa neste meio tempo sobre como funcionava seu trabalho de Titereiro.

Para começar, descobriu que havia alguma espécie de bloqueio neurológico que o impedia de fazer certas coisas. Por exemplo, uma vez teve vontade de dizer para uma pessoa que ele, na verdade, não era o Miguel, mas não conseguiu. Alguma coisa o impediu de realizar a ação. Também tentou beber na sexta à noite, mas também não foi capaz. Aparentemente havia toda uma programação que impedia o ‘funcionário’ de executar ações nocivas ao corpo do cliente, a não ser que este deixasse especificado. E Miguel não bebia e não fumava. Não saia depois das dez da noite porque morria de medo de assaltos e também deu instruções de que o poderia praticar esportes, excetos os mais radicais que colocassem sua vida em risco.

– Cara chato… – Gabriel murmurou, enquanto consertava uma nova máquina.

A loja ainda estava engatinhando, mas já tinha melhorado muito. Panfletos foram impressos, divulgação boca-a-boca foi iniciada, um MEI foi registrado. Havia trabalho suficiente para pagar as dívidas antigas, as contas mensais e, aos poucos, a loja começava a dar seus primeiros lucros.

– Está indo bem! – comentou um dos seus amigos no bar. – Sabe, uns cinco meses atrás eu achava que você ia morrer naquela sua garagenzinha vagabunda, mas agora você está com uma postura totalmente nova! Parece um empresário!

– Bem, se eu quisesse ir para frente eu precisava mudar. – disse Gabriel, levando até os lábios de Miguel um copo de refrigerante. – Não tinha como continuar daquele jeito.

Sim, a memória de Miguel tinha terríveis lembranças da insegurança, do medo e dos períodos financeiros difíceis. Não era agradável.

– Fico feliz por você, cara! Alias eu gostaria, inclusive, de te fazer uma proposta. Que tal a gente virar sócio?

Assim como no caso de Rubão, Gabriel também sabia reconhecer um bom sócio quando via um. E não era isso que ele estava vendo.

– Lamento, cara. Mas no momento quero cuidar das minhas coisas sozinho…

– Ah, qual é? E a nossa amizade?

– Amizade é uma coisa, negócios são outros quinhentos.

– Tsk, sei… – o amigo emburrou. – Você mudou mesmo, heim? Só falta começar a sair de balada!

– Não. – ele levou os olhos até o celular. Nove e meia da noite. – Infelizmente não…

……………………………………………

O sétimo mês foi um período de pavor para Gabriel, pois ao que parecia o cliente havia deixado especificado no contrato que queria voltar ao seu corpo a cada sete meses para verificar os progressos do trabalho.

– Não! Não me mande de volta para o meu corpo quebrado! – implorou. – Não faça isso!

– Calma, se você não quiser, posso deixar sua consciência em suspensão. – explicou o chefe da Titereiros. – Da mesma forma que fica a consciência do cliente. Você continuará ‘dentro’ do senhor Miguel e voltará quando ele for dormir.

– Si… sim, eu prefiro assim. – Gabriel esfregava as mãos. – E… quanto ao outro acordo? Meu corpo original vai ser consertado?

– Estamos trabalhando nisso, não se preocupe.

– Ah… tá. Outra coisa. Esse moleque aqui, o Miguel… ele tem um conhecimento técnico grande. Ele é muito inteligente! Eu acho que ele não devia se contentar em apenas montar essa lojinha de informática, ele poderia ir tão longe! E se a gente convencesse ele a fazer uma faculdade de medicina e depois de neurologia artificial…

– Gabriel. – o patrão assumiu uma postura séria. – Você está aqui para realizar os sonhos dos clientes, não o seu.

– Mas é um talento desperdiçado!

– Não somos nós que decidimos. Agora vá para o laboratório, vamos ‘desligar’ você.

…………………………………………………………..

Um ano e três meses haviam se passado. Gabriel havia assinado um cheque pagando, adiantado, seis meses do aluguel do novo espaço da loja. Muito maior, melhor e bem localizado. A clientela já era fiel, o nome era conhecido, os fornecedores o respeitavam.

O sonho tinha se concluído antes do tempo.

– Agora mantenha-o até o cliente voltar. – disse o dono da Titereiros. – Crie insumos que mantenham o negócio o mais firme possível. Até porque não é incomum alguns clientes perderem os resultados de seus sonhos assim que os assumem.

– Imagino que não. – Gabriel cruzou os braços. – Então, devo continuar a cuidar do negócio?

– Sim.

– Sem bebida? Sem sexo? Sem fazer motocross?

– Exato. – o homem deu uma risadinha e também cruzou os braços. – Para alguém que há um ano atrás era tetraplégico você está reclamando demais.

– Não quero parecer ingrato. Estou muito contente em poder andar de novo, mesmo que seja no corpo de outra pessoa. De sair, ver gente, fazer coisas. Mas… é que me irrita um pouco ter estas limitações! Eu poderia fazer este rapaz se tornar um grande doutor em tecnologia se me dessem mais tempo! Tanto potencial… se eu realmente pudesse ficar no corpo dele para sempre, eu poderia…!

– Infelizmente não, fazemos tudo estritamente o que está no contrato. – sorrindo, deu-lhe um tapinha nas costas. – De qualquer modo, as notícias que tenho para lhe dar são boas! Nossos cientistas estão avançando bastante na área de reconstrução nervosa. Talvez em três ou quatro anos você volte a andar… no seu próprio corpo!

– Sei… – murmurou Gabriel, balançando a cabeça. – Sei.

……………………………

O prazo havia se acabado. A loja de informática de Miguel era a mais visitada da cidade. Uma pena que Gabriel foi impedido de fechar negócio com outras lojas e fazer uma amálgama de comércios, pois o contrato não permitia fazer nada que não fosse estritamente ligado à computação. Também não pode contratar mais do que três funcionários, porque Miguel disse que não gostava de trabalhar com muita gente. A loja era grande, mas estacionária. Já tinha crescido tudo o que podia dentro das fronteiras estipuladas pelo cliente.

Faltavam poucas horas para o dono assumir seu corpo de volta de forma vitalícia. O tempo de serviço de Gabriel havia terminado.

– Faltam duas horas para fazer a transferência. – explicou o chefe da Titereiros. – E desta vez não podemos mais deixa-lo em ‘suspensão’.

– Vou voltar para o meu corpo original?

– Bem, se você quiser, sim. Mas já temos um novo trabalho para você. Um rapaz que também está tendo dificuldades financeiras. Você vai usar o seu conhecimento para ajuda-lo da mesma forma que fez com Miguel.

– Realizar os sonhos de outros… os pequenos sonhos dos outros.

– Exato! – o homem riu.

– Tudo bem. – apesar da perspectiva não lhe agradar, Gabriel sorriu. – Vamos lá. Hora de ir para uma nova prisão!

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