Memento Mori 2

00

PARTE 1

O líquido tinha um cheiro desagradável, mas Phineas apreciava o odor. Era o mesmo cheiro que ele próprio emanava e que as pessoas detestavam: cheiro de líquido de revelação fotográfica.

O quarto estava totalmente escuro. Nem uma única luz entrava, por menor que fosse. Mas Phineas não precisava dos olhos, pois já sabia onde se encontravam todos os móveis e equipamentos do cômodo. Suas mãos moviam-se no breu com muita perícia. O silêncio total era quebrado pelo som do gotejar das fotografias recém-reveladas. Uma a uma elas foram penduradas e, quando o processo estava concluído, o fotógrafo acendeu a luz.

No quartinho havia um espelho e foi nele que Phineas encarou o seu rosto marcado das chagas da varíola. Por algum motivo tinha esta necessidade de sempre olhar para si mesmo depois de passar quase uma hora no escuro revelando seu material. Talvez porque a sua imagem no espelho era nítida e colorida, enquanto as fotografias penduradas eram monocromáticas e não tão bem definidas devido às limitações do processo de revelação da época. Afinal ainda era o século XIX.

Fotografias tinham uma conotação quase mágica naquele período. Ainda eram um luxo de poucos, por isso mereciam respeito e cuidado. As pessoas só tiravam fotos em ocasiões muito especiais: casamentos, reuniões, retratos oficiais…

… e falecimentos.

As fotos Post Mortem eram muito procuradas e Phineas havia se especializado nelas. Sempre que podiam as pessoas pediam para que profissionais tirassem fotos dos parentes logo após a morte, muitas vezes fingindo que ainda estavam vivos. Era considerado um sinal de grande respeito. E uma forma de manter guardado ao menos uma imagem do ente querido.

No varal havia sete trabalhos recentes pelo qual ele foi muito bem pago. Sete fotos com pessoas mortas.

A primeira era de uma menina de três anos, veio a óbito devido a uma pneumonia. Era muito comum. Boa parte das fotos que Phineas tirava era de crianças. A menina em questão estava deitada, de olhos abertos, sobre uma pequena poltrona. Uma tentativa de faze-la parecer viva, apesar do seu olhar sem brilho.

01

A segunda foto era de um garoto morto de dez anos. A causa fora uma infecção de um ferimento que ganhou enquanto brincava na rua. O fotógrafo lembrava o quanto fora difícil convencer sua irmã menor a posar ao lado dele e a segurá-lo de pé para bater a foto. “Não quero ficar ao lado de um morto!” ela chorou. “Ele não é um morto!” ralhou a mãe das crianças. “Ele é o seu irmão!”.

Alguns trabalhos eram mais fácies que outros. Mais dolorosos que outros. A terceira foto lembrou Phineas da pena que ele sentiu da infeliz viúva que havia perdido o filho e o marido na mesma ocasião. Foram assaltados na noite Oxfordiana e o homem recebeu uma facada no coração, falecendo em minutos. Ele estava com o bebê nos braços e o derrubou na calçada, matando a criança. Trágico.

O fotógrafo ajeitou o corpo do homem em uma cadeira como se ele ainda estivesse vivo, segurando o filho falecido (e cuja mão volumosa escondia as escoriações do ferimento na cabeça do bebê). O Rigor Mortis começou a se alastrar e ajudou a manter o cadáver ereto e, assim, a nítida impressão que muitos tinham é de que apenas o bebê estava morto e não o homem. Trabalhos deste tipo, que ‘enganavam’ as pessoas, costumavam ser ainda mais bem pagos.

02

Geralmente Phineas não costumava demorar demais na casa dos clientes, mas nesta ocasião precisou confortar a mulher. Ela mesma não quis aparecer na foto devido às enormes olheiras de choro e da própria impossibilidade de aceitar completamente a morte do filho e do marido, ao mesmo tempo amando e odiando a foto que estava sendo tirada. Entre lenços e mais lenços, o fotógrafo passou quase duas horas conversando com ela. Ele jamais poderia se esquecer: ele sentado no sofá confortando a viúva enquanto o marido morto estava sentado na cadeira ao lado.

A quarta foto apresentava uma situação semelhante: uma mulher que também não aceitava a perda do ente querido. No caso da filha de cinco anos, morta pela diarreia. Phineas tentou de todos os modos fotografar a menina numa posição como se estivesse viva, mas o corpo frio da criança não ajudava. Por fim a mãe decidiu que ela mesmo seguraria a filha, mas para dar a impressão de que ela estava viva (mais precisamente de pé) a mulher cobriu-se com um pano negro para não aparecer na foto. Um trabalho que não ficou convincente, mas alegrou a pobre mãe.

03

O fotógrafo sacudiu a cabeça diante das três últimas fotos, todas também exibindo crianças mortas. A quinta mostrava uma mocinha de doze anos em meio à suas bonecas favoritas. Na sexta uma menina segurava na mão da irmã morta, apreensiva. A sétima e última, revelada naquele dia. exibia a mãe e três crianças, uma delas morta e com a cabeça encostada em seus joelhos.

Esta última foto perturbou Phineas, embora ele próprio já estivesse acostumado com o estranho comportamento que as pessoas tinham diante do seu trabalho. Foi uma das poucas casas onde ele foi recebido de forma festiva. A mãe da criança morta estava muitíssimo bem arrumada e feliz. Suas duas outras crianças vivas também. “O fotógrafo, crianças! Venham! Vamos ser imortalizadas com esta bela imagem!” Irônico: Phineas imortalizava pessoas mortas…

– … senhor McCartney?

04

O fotógrafo tomou um susto quando a porta do seu pequeno laboratório foi aberta. O invasor era Stuart, o jovem que o auxiliava em alguns trabalhos de vez em quando.

– Deus me cegue, rapaz! – gritou o fotógrafo. – Como ousa abrir esta porta sem a minha prévia permissão?! Se eu estivesse no meio de um trabalho a luz o teria arruinado!

– Desculpe, desculpe! – o rapaz desmanchou-se em escusas. – É que é um pouco urgente! Uma senhora nos pediu para fotografar seu bebê falecido…

– E daí? Qual a urgência? Os mortos podem esperar…

– Não se eles já estão mortos há mais de um dia, senhor.

05

Phineas bufou. Olhou em direção à uma pequena maleta que tinha sobre uma cadeira dentro do laboratório onde havia um pouco de maquiagem, muitas vezes necessária para disfarçar o livor mortis de alguns clientes, cujos familiares demoravam demais para se decidir pela foto. O jovem Stuart nem precisou ouvir a ordem, já se aprontou para pegar a maleta, mas antes deu uma olhada nas fotos penduradas no varal.

– Ficaram ótimas, senhor McCartney! Especialmente a do homem morto com o bebê no colo. Lembra-se do estado que estava sua face? O pó-de-arroz realmente disfarçou as marcas vermelhas e deu a ele uma nova vida! A da menina com as bonecas também. O pescoço dela já estava com uma coloração estranha que…

– Mancebo. – começou o fotógrafo. – Apenas prepare meus instrumentos e vá chamar o fiacre.

– Claro, senhor!

Phineas observou as fotos elogiadas mais uma vez. Realmente o efeito havia ficado muito bom. A ideia da maquiagem veio logo depois da época em que ele se recuperou da varíola. Sua mãe insistia para que ele maquiasse o rosto a fim de que as horríveis marcas das chagas não aparecessem. Entretanto, não havia pó-de-arroz suficientemente grosso para dar à sua face uma aparência mais saudável. No entanto não era tão difícil maquiar a pele arroxeada de um cadáver.

– Estes pobres diabos parecem mais vivos do que eu… – murmurou o fotógrafo, balançando a cabeça e preparando-se para seu novo trabalho.

06

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s