Memento Mori

memento1

O fiacre estacionou desajeitadamente no meio-fio. O cavalo deu um trote involuntário e a cabine chacoalhou. Houve o som de alguma coisa metálica colidindo dentro dela.

– Cuidado! – gritou a voz do passageiro dentro do cubículo. – Meu equipamento é frágil!

O cocheiro cuspiu um pedido de desculpas. Apressadamente desceu da boleia e abriu a porta do veículo. Queria livrar-se do seu passageiro o mais depressa possível.

Phineas McCartney desceu da carruagem num pulo. Sobre sua cabeça havia uma cartola surrada. Seu terno estava levemente salpicado de manchas esbranquiçadas, efeito dos líquidos químicos que sua profissão exigia que manejasse. Seu rosto tinha feridas de pústulas, marcas de um sobrevivente da varíola. Em suas mãos carregava parte do seu maquinário, uma máquina fotográfica do tipo sanfona. Ainda dentro da cabine estavam o tripé e outros apetrechos metálicos que o cocheiro rapidamente retirou. Parecia estar mesmo ávido em se livrar do seu passageiro.

– Um florim. – pediu o homem, estendendo a mão calosa.

Com uma expressão torta, Phineas pagou o cocheiro, acreditando que o preço estava demasiadamente caro pelo serviço. O homem subiu de volta no veículo e, antes de ir embora, seu passageiro exclamou:

– Devia ter tido mais cuidado, pelo menos.

– Não cuido de corvos! – foi a resposta ríspida.

A seguir o cocheiro colocou o cavalo a galope. Suspirando, Phineas olhou em direção à modesta casa de classe-media. Era apenas a primeira parada, pois naquele dia teria dois trabalhos a fazer. Bateu palmas para chamar os residentes.

Logo, de dentro da casa, surgiu um senhor bem arrumado. Pareceu feliz ao ver o fotógrafo.

– Senhor McCartney, enfim!

– Perdoe o atraso, senhor Stanley. – o fotógrafo retirou a cartola e fez uma mesura. – É difícil encontrar cocheiros bons em Oxford. E a maioria é tão rude!

– Entendo, mas fiquei realmente preocupado com sua demora. Sabe que não temos muito tempo… antes de… – o homem parou de falar.

– Não, não diga mais nada. – Phineas ergueu a mão. – Apenas ajude-me com meus apetrechos e terminaremos o serviço bem depressa.

Stanley obedeceu prontamente. Logo os dois estavam dentro da casa com todo o maquinário. O fotógrafo foi encaminhado para a sala de visitas, onde tudo estava arrumado para fazer seu trabalho. Após deixar os instrumentos ali, o dono da casa pediu para que ele se dirigisse para o quarto.

– Minha mulher e minha filha estão lá. – disse o homem.

Com uma reverência, Phineas dirigiu-se até o aposento. Lá viu uma matrona séria sentada numa cadeira. E, sobre a cama, uma moça bem arrumada. Deitada e de olhos fechados.

Ela estava morta.

– Agradeço por ter vindo, senhor McCartney. – disse a mulher, cuja maquiagem disfarçava mal os olhos profundos de quem passou a noite toda chorando. – Aguardávamos o senhor ansiosamente para, enfim, podermos tirar uma foto de nossa filha antes de manda-la para o solo sagrado.

– O privilégio é meu em levar um pouco de alegria às casas tristes. – disse o fotógrafo, baixando a cabeça em sinal de respeito.

Ele olhou longamente para a jovem. Devia ter por volta dos vinte anos. Estava vestida toda de preto e com um colar de pérolas falsas ao redor do pescoço. Phineas foi discreto o bastante para não perguntar a causa da morte, embora tivesse quase certeza que a razão fosse um parto malsucedido.  Possivelmente uma tentativa de aborto. Ele já sabia reconhecer estas coisas devido aos dez anos em que trabalhava na área.

– Deseja que a foto seja tirada como, senhora?

– Com ela nos braços meus e do meu marido. – disse a matrona, acariciando o rosto da jovem. – De olhos abertos, se for possível.

– Claro. – o homem inclinou-se sobre a cama. – Permita-me.

Ele tomou a jovem nos braços. A pele dela já estava bem fria. O corpo estava bastante rígido, mas ainda era possível move-lo. Com cuidado, carregou o cadáver até a sala, onde um divã já tinha sido posicionado. Colocou a moça sobre o móvel e logo começou a montar sua máquina.

Levou apenas alguns minutos. Os pais estavam ansiosos, observando o homem posicionar seus apetrechos com certa apreensão. Assim que ele terminou- virou-se para os clientes para aprontá-los.

– Fiquem um do lado do outro… isso. – pediu. – Agora a moça no meio. Assim. Vou cruzar os dedos dela. Pronto. Ficou bem natural. Agora os olhos. Pronto. Segure as costas dela, senhor Stanley. Isso mesmo! Creio que ficou bom. Agora não se mexam.

Phineas dirigiu-se até a câmera, abriu a lente e fez um sinal para que seus modelos continuassem o mais rígido possível. Tarefa fácil para a moça morta.

Após alguns minutos ele fez um sinal de que o casal já podia se mexer. Aliviados, eles deixaram o corpo da filha sobre o divã e pagaram o fotógrafo.

– Estará pronta em alguns dias. – disse o homem, desmontando o equipamento. – Posso oferecer um desconto se o senhor tiver a bondade de me ajudar a carregar minha máquina para outra casa aqui perto. Quero evitar a má vontade dos cocheiros o máximo que eu puder.

………………………………….

A três quadras dali, outra casa de classe-média esperava a chegada do fotógrafo. Uma jovem mulher o recebeu na porta e ficou preocupada ao olhar para seu rosto marcado pela varíola.

– Não se preocupe, dama, deste mal não morrerei. – sorriu Phineas, coçando o rosto.

Era comum as pessoas se assustarem com ele, não só pela aparência. McCartney já estava ganhando grande fama como fotógrafo de mortos. Muitos o comparavam a uma ave de rapina, sempre esgueirando os moribundos a procura de trabalho. Chegavam ao cúmulo de acusa-lo de ser um assassino ou mesmo uma espécie de transmissor de varíola para que as pessoas morressem e ele pudesse tirar fotos. Falácias.

Diante do desagradável silêncio da sua cliente, o fotógrafo continuou:

– Estou aqui para tirar a foto do seu marido.

– Sim, eu sei. – a mulher baixou a cabeça. – Pode entrar, senhor McCartney.

O homem carregou seu maquinário para dentro da casa. Teve que fazer duas viagens, especialmente por causas dos apetrechos metálicos extras. Eles não foram necessários no seu primeiro trabalho do dia, mas agora seriam.

A senhora Aaron havia acabado de perder o marido, vítima de um ataque fulminante do coração. Ainda era um homem jovem e sua perda foi muito sentida pela família. Ao entrar na sala viu os pais do morto e a irmã mais velha. O senhor Aaron estava sobre o sofá, deitado com as mãos sobre o peito. Elegantemente vestido com um terno escuro que contrastava bastante com seu rosto pálido de cera.

– Boa tarde, senhores. – disse Phineas, tirando o chapéu. – Podemos começar?

A mãe do rapaz começou a chorar e o marido a confortou. A irmã do morto aproximou-se do fotógrafo com cautela.

– Não iremos posar. – disse a jovem. – Queremos apenas o meu irmão na foto.

– Certo. – o fotógrafo olhou para os lados. – Onde vamos coloca-lo?

– Quero uma foto dele sentado. – disse a esposa. – De olhos abertos, tão vívido quanto era em vida. Acha que pode fazê-lo?

– É por isto que eu trouxe meus ferros, madame!

Com a ajuda do pai do rapaz, Phineas carregou o morto até a cadeira escolhida. O corpo estava bastante rígido, mas o fotógrafo já tinha prática em lidar com isto. Massageou as juntas do cadáver e os braços e pernas afrouxaram um pouco. Colocou-o na cadeira. Enquanto o posicionava, a cabeça do senhor Aaron pendeu para o lado numa posição impossível para alguém vivo, como se fosse um boneco quebrado.

A mãe do rapaz começou a chorar de novo ao ver aquela cena que tão bem demostrava que o filho estava morto.

– Não se preocupem, não se preocupem! – pediu o fotógrafo. – A foto não vai sair assim. Vou cuidar disto.

Phineas posicionou um dos ferros atrás da cabeça do morto. Havia um apoiador de cabeça nela. Com um pouco de dificuldade, ele posicionou o crânio do cadáver de forma reta. Abriu seus olhos. Deixou os braços e pernas pendendo provisoriamente para os lados. Foi até sua câmera e a posicionou no local certo. Observou durante alguns minutos para ver se o enquadramento estava satisfatório.

– Pernas cruzadas? – perguntou.

– Pernas retas e mãos sobre os joelhos. – pediu a esposa.

O fotógrafo voltou até o morto. Ajeitou suas pernas. Tomou seus braços caídos e os colocou sobre os joelhos. Como não haveria ninguém segurando o cadáver, teve que voltar até a sua câmera mais três vezes para se certificar de que ele estava mesmo reto. Quanto tudo parecia a contento, tirou a foto.

– Agradeço, senhor McCartney. – a mulher pagou o fotógrafo. – Avise-me quando a foto estiver pronta o mais depressa possível.

– Serei célere, senhora Aaron. Meus agradecimentos e meus pêsames.

O pai do morto ainda ajudou Phineas a carregar mais uma vez o seu maquinário e a esperar por um novo fiacre. O cocheiro pareceu incomodado em realizar o serviço, mas aceitou quando o fotógrafo disse que iria lhe pagar o dobro do preço da viagem.

Dentro do cubículo, o fotógrafo segurava seu material com firmeza. Além daquelas duas fotos tiradas naquele dia ainda tinha outras mais para revelar. E teria mais serviço para semana que vem. De fato, teria serviço para a vida toda, pois as pessoas simplesmente não cessavam de morrer.

Observou o próprio rosto no metal polido da sua lente. Acariciou suas marcas de varíola. “Eles me chamam de rapineiro, é?” balançou a cabeça. “Rapineiros são aqueles que voam ao redor de seus entes queridos… querendo arrancar-lhes uma vida inexistente através das fotos”. Pensou. Recostou a cabeça no estofado da carruagem, sentindo-se redimido.

memento2
Anúncios

3 comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s