Titereiros 3

Titereiros3

 

PARTE 1

PARTE 2

A ideia soava tão perfeita que parecia até uma piada de mal gosto.

“Uma empresa que vai viver a minha vida por mim? E vai me fazer realizar todos os meus desejos?!” Aurélio simplesmente não conseguia acreditar, mas resolveu gastar seus últimos créditos do celular com a tentativa.

Quarenta e nove dias o separavam do dia da entrevista gratuita (se tivesse dinheiro à mão poderia conseguir agendar um encontro pago na semana que vem). “Bem, pelo menos eles dão essa oportunidade para quem não tem nada!” pensou. “Afinal as pessoas que mais precisam deste tipo de serviço são as pessoas sem grana!”

Aurélio sempre se revoltou com esse pessoal que se dizia ‘ajudar os outros’, mas cobrava por isto. Terapeutas que exigiam uma nota por consulta, livros de autoajuda que custavam caros, coachs que só atendiam empresários que já eram suficientemente bem-sucedidos para arcar com as despesas de suas consultorias.

“Se eu posso gastar 300 contos semanais, conversando com um cara que vai me dar dicas de como conseguir mais dinheiro, eu já sou rico, pô!”. Até o dia da entrevista ele ainda tinha que cuidar da sua vida ordinária. Vestiu seu tênis surrado, sua camisa puída e foi pegar o metrô para o trabalho no Call Center.

A vida dura fez dele um cínico. Qualquer chance de melhora era sempre desacreditada. Ele já havia tentado muitas vezes e falhado. Estava cansado de continuar a alimentar sonhos e depois vê-los morrer de inanição. Não conseguia acreditar cem por cento na veracidade da Titereiros, mas mesmo assim permitiu-se sentir uma luz estranha de esperança. Algo raro no caso dele.

“Talvez dê certo… e se não der… bem, a entrevista terá sido de graça mesmo!”

…………………………………………..

Trinta e oito dias o separavam da entrevista gratuita e o rapaz estava meio desanimado quando pensou nela, principalmente quando sentou na mesa de bar com os colegas de trabalho. O tópico da conversa girava justamente em torno de sonhos e conquistas.

– Eu li aquela porcaria de O Segredo. – disse um deles. – Minha vontade seria pegar a autora, jogar de uma janela e dizer: ‘Vai, desgraçada! Pensa positivo que você se safa!’.

Risadas na mesa.

– Pois é, não tá fácil para ninguém. – disse outro. – E olha que eu sou formado, porra! Sou jornalista e mesmo assim tô aqui, trampando em telemarketing seis dias por semana, inclusive feriados! Olha lá na parede o meu diploma de fudido!

Mais risadas na mesa.

– Antigamente que era bom! – disse a única mulher na roda. – Quando o marido é que sustentava a esposa e não havia problema nenhum nisso. Vou te dizer: eu não me incomodaria de ser dona de casa ganhando mesada, contanto que fosse uma boa mesada. De bouas! Eu fico em casa, cuido dos filhos… o cara pode até dar seus pulos por aí que eu nem ligo! É só eu não ficar sabendo… senão peço o divórcio e aí minha mesada aumenta mais ainda!

Novas risadas na mesa.

– Às vezes eu acho… – como era a vez de Aurélio falar, ele rapidamente começou a pensar em algo, meio forçado. – Às vezes eu acho que dinheiro não é problema…

Seus três amigos olharam estranho para ele.

– … dinheiro é solução. – concluiu.

– Ah, haha! Lógico, lógico! – disse um deles. – Grana é solução, não é problema! Quem tem grana não tem problema nenhum, nem problema de corno! É só gastar uns mil reais numa casa de massagem e pronto! Eu mesmo, de vez em quando, passo um cheque no supermercado, compro um vinhosão e vou me embebedar na Rua Augusta!

– Quando eu estou deprimida eu vou no shopping. – disse a mulher. – Faço trinta prestações, mas compro uma roupa para mim. Foda-se! Eu trabalho e eu mereço!

– Eu também compro livro direto! – disse o jornalista frustrado. – Tudo no cartão. Prestações até umas horas, mas pelo menos eu gasto em cultura!

– Peraí, se é assim vocês têm dinheiro, no fundo… – analisou Aurélio, distraído. – Vocês têm grana para gastar com suas porcarias. Tão reclamando do quê?

Escapou.

Aurélio nem sabe porque disse aquilo.

Caiu um silêncio sobre a mesa que perdurou até o momento que alguém pediu uma nova cerveja (e perguntou se aceitavam cartão de crédito).

……………………………………………..

Trinta e quatro dias separava Aurélio da entrevista na Titereiros. Ele não estava feliz.

Pegou uma cliente especialmente chata e acabou se destemperando na linha. O supervisor chamou-o para a sala de reuniões.

– Sabe por que eu te chamei aqui? – perguntou o homem.

– Certamente para me dar uma trolha! – resmungou o rapaz. – Para me foder, certo?

– Todos nós somos humanos e cometemos erros, sobretudo em momentos de estresse, mas você… – o homem ligou seu notebook e a gravação da ligação veio. Durou oito minutos. – Ouviu isto? Você mandou a cliente tomar naquele lugar!

– Devia ter mandado tomar em outro?

– Aurélio… – o homem fez uma pausa lacônica. – Passe no RH.

………………………………………..

Vinte e dois dias separavam Aurélio da entrevista na Titereiros. Estava andando pela cidade, distribuindo currículos, quando encontrou uma amiga.

– Parece que você foi atacado por um bando de funkeiros sem fone de ouvido e não sobreviveu às agressões. – disse a menina, sorrindo.

– Bela definição! – Aurélio bufou. – Tá sabendo de alguma vaga aberta de qualquer coisa por aí?

– Depende. O que você quer fazer?

– Ah, qualquer coisa!

– Qualquer coisa? – a garota segurou a risada. – Tem um colega da faculdade que tá abrindo uma boate gay. Serve?

– Sai fora! Você entendeu o que eu perguntei!

– Na verdade não. O que você quer fazer?

A resposta parecia óbvia e na ponta da língua, mas não era. Aurélio ficou surpreso com isso.

– Eu… sei lá. – ele baixou a cabeça. – Qualquer coisa que dê dinheiro.

– Ah, ai fica difícil, né? Quer assaltar banco? Ganhar na mega-sena…?

– Porra! Você tá me zoando?!

– Não. – a moça estava séria agora. – Acho que antes de você ficar jogando currículo para tudo que é lado, você podia pelo menos definir algumas coisinhas na sua vida.

– Ihhh, parece psicóloga!

– Estou estudando para isto, lembra? – ela sorriu e se virou para seguir seu caminho. – Tchau! E se ainda estiver interessado no esquema da boate gay, me dá um toque!

…………………………

Quatorze dias separavam Aurélio da sua entrevista na Titereiros.

O rapaz contou o dinheiro que tinha na carteira: doze reais e umas moedas. Tudo que sua mãe podia emprestar-lhe naquela semana. Ele detestava ter que pedir dinheiro a ela, mas não tinha jeito. Ele precisava ir até o outro lado da cidade para participar de um processo seletivo.

– Vou apresentar para vocês cinco animais, a vaca, o macaco, a ovelha, o tigre e o cavalo. – disse o supervisor. – Enumerem estes animais de um a cinco.

Aurélio bufou e fez a tarefa. Entregou o papel.

– Você numerou o tigre como o número um, heim?

– Sim, eu gosto de tigres. – explicou o rapaz.

– Numerou o macaco como dois, o cavalo como três, a ovelha como quatro e a vaca como cinco.

– Não gosto de vacas. – explicou novamente.

– Mal sinal. – o supervisor fez um muxoxo. – A vaca é o animal mais importante e deveria ter sido colocado como um, pois simboliza a carreira profissional. O cavalo, que é a família, também deveria estar numa posição alta, pois somos uma empresa muito familiar. A ovelha simboliza o amor, o macaco o dinheiro e ganância, e finalmente o tigre representa o orgulho, a marca das pessoas intransigentes. Lamento, mas receio que o seu perfil não bata com o da empresa…

……………………………..

Uma semana exata separava Aurélio da sua entrevista na Titereiros. Tinha praticamente parado de fumar por falta de dinheiro, mas encontrou um cigarro solto numa gaveta. Fumava-o e lembrava-se um comentário desagradável que uma anti-fumante havia dito para ele: ‘Sabia que a nicotina que existe em um só cigarro pode matar duas rãs?’. ‘É? Então que pena que eu não sou uma rã.’ foi a resposta sincera.

Ele estava em casa, pensando em todas as possibilidades ruins possíveis que o aguardavam nesta entrevista que ele iria fazer dentro de sete dias.

“Vai dar merda… a entrevista é de graça, mas vou chegar lá e vão me cobrar uma fortuna para começar o tratamento!” e também: “Deve ser uma grande enrolação! Vou chegar lá, vão me falar um papinho besta de Lei da Atração e vou sair de lá tão fudido quanto entrei!” e ainda: “Que merda, afinal, eles fazem?!”

Aproveitando que a internet ainda não havia sido cortada, resolveu averiguar melhor os serviços da Titereiros na web.

Primeiro procurou por preços, e ficou animado ao ver que em muitos casos a empresa só cobrava após o serviço feito. Logo depois procurou por opiniões.

A quantidade de revisões positivas deste serviço eram imensas. Procurou o máximo que pôde, mas não conseguiu encontrar nenhuma informação ruim. No máximo um monte de descrenças de pessoas que nunca tinham utilizados os serviços da empresa. Depois de quase trinta minutos, enfim encontrou um depoimento que era razoavelmente negativo, vindo de uma mulher que usou o serviço por dois meses e o largou. Dizia:

Adquiri um pacote onde eu era ‘acordada’ a cada quinze dias. Tudo estava dando certo, tudo estava perfeito, mas eu larguei o serviço às portas de realizar o meu sonho porque achei que não era certo outra pessoa o fazer por mim. Afinal, qual o mérito nisso?

Abaixo veio algumas reações que concordavam coma  mulher, e outras de pessoas que discordavam, inclusive de um homem que afirmava ter usado o trabalho da Titereiros e adorado:

Está brincando? Por que achar que ‘não é certo’ contratar alguém para lustrar seu cavalo para depois você montar nele e vencer a corrida? Eu agradeço a Titereiros pelo serviço prestado ano passado. Eu consegui a promoção que eu queria! Eu tenho o salário que eu quero! E todas as coisas que o funcionário dela aprendeu enquanto assumia o controle continuam comigo sem problemas. Estou conseguindo me manter muito bem até agora.

Era essa a essência da Titereiros: colocar alguém para manipular seu corpo e fazê-lo vencer na vida, eliminando logo de cara o maior obstáculo para o progresso: a própria pessoa.

– Que… da hora! – Aurélio murmurou, boquiaberto. Fazia tempo que ele não sorria tanto. –Isso vai dar certo! Enfim, minha vida vai dar certo!

………………………

Quatro horas separavam Aurélio da sua entrevista na Titereiros. Ele não tinha um puto no bolso, por isso já estava saindo de casa para ir a pé até o local.

“Minha vida vai dar certo! Enfim alguém vai dar jeito na minha vida!” ele pensava, animado. Nunca estivera tão animado em todos os seus quase trinta anos de existência. Aquilo era esperança em sua forma mais pura e forte: a certeza que sua vida já estava arrumada.

Ele andava pelas ruas de cabeça erguida e exibindo um sorriso. Há quanto tempo ele não se sentia tão bem? O tempo estava garoando, sua camiseta era fina, seu tênis tinha furos, mas nada disso o abalava. Ele estava feliz. Estava indo rumo à solução da sua vida.

“Chega de ser um fudido, chega!” ele pensava, sorria e dava uma risadinha. “Vou ser um cara de respeito agora! Um cara de grana! Vou ter dinheiro a dar com pau! Vou fazer tudo o que eu não seria capaz de fazer sozinho. Enfim vão dar jeito na minha vida!”

Atravessou uma esquina.

“… vão dar jeito na minha vida!”

Pisou na faixa de pedestres.

“… dar um jeito na minha vida!”

Um carro atravessou o sinal vermelho.

“… na minha vida!”

O chevete estava puído, mas ainda era potente. Aurélio foi atingido meio de raspão e rolou pela rua. Seu tênis saiu do pé, seus cotovelos riscaram o asfalto, sua cabeça encontrou a guia da rua.

Ele acordou dez minutos depois, deitado na calçada e com uma senhorinha pressionando um pano na testa aberta dele.

Alguém gritava ‘Chama o Samu! Chama o Samu!’. Várias pessoas o rodeavam. Alguns estavam aflitos, outros estavam até dando risada. Um homem apresentou-se como enfermeiro e queria tratar dele ali mesmo. Um outro ofereceu uma garrafa de água, que Aurélio, após relembrar como é que se mexia o corpo, tomou um gole.

Tudo doía. Seu corpo inteiro era uma massa de dor.

“Meu corpo…” ele pensava, ainda um pouco abalado. “… minha vida! Por pouco tudo não acabou…!”

– Calma, rapaz, já chamaram uma ambolância! – a senhora com o pano estava visivelmente preocupada. – Está sentindo dor?

– D…dor? – Aurélio começou a se levantar devagar. Sorriu. Sorriu muito. – Dor?! DOR?!

Começou a gargalhar. As pessoas ficaram assustadas. Sobretudo quando ele tateou o bolso e encontrou o cartão da Titereiros. O papel estava manchado de sangue de um lado e com o dia e da hora da entrevista anotado do outro.

O rapaz o rasgou em mil pedaços.

– Este sangue é meu! – exclamou. – Esta dor é minha! Dor significa que estou VIVO! – ele gargalhou mais. – Todas as mancadas que dei… todas as burradas que eu fiz… fui EU quem fez! Estas cicatrizes são MINHAS!!! E ninguém… NINGUÉM vai tirar isto de mim!!!

Ainda gargalhando, ele começou a fazer o caminho de volta para casa, mancando e sorrindo a cada espetada de dor que sentia em suas costas.

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