O Nome Embaixo do Sapato

sapato

                 O clima era tenso. Uma aura de irritabilidade pairava no escritório e fazia até crepitar as folhas da samambaia.

                 Ulisses havia acabado de receber uma promoção. Era o novo gerente do setor de marketing da empresa. Os ex-companheiros logo fizeram fila para cumprimentá-lo. Puxa-sacos de plantão. Mas havia alguém que não fazia a menor questão de celebrar aquele momento, nem que fosse só para disfarçar. Seu colega Tales estava morrendo de inveja.

                A raiva era tanta que ele não conseguiu ficar na presença dos outros. Tales saiu da sala de cara amarrada e foi gritar um pouco no banheiro.

                – AHHHHH! – ele berrou. – Não acredito! Trabalhei feito uma mula… uma MULA!!! Fiz todo o trabalho de revisão, arte-final e entrega… e quem ganha a gerencia é ele?!?

                Talvez ele estivesse certo. Talvez ele realmente merecesse a promoção no lugar de Ulisses. Mas como discutir? Não havia nada a ser feito agora, exceto soltar a voz e dar chutes nos azulejos.

                O homem ficou pelo menos meia hora sentado no vaso. Quando a raiva passou um pouco, ele respirou profundamente. Ficou olhando para o chão, refletindo sobre aquela injustiça. Depois para as mãos. E depois para o seu pé.

                Ficou contemplando a sola do próprio sapato por alguns minutos.

                – Tudo bem! – Tales suspirou de novo. – Você pode ter me ultrapassado hoje, Ulisses, mas o mundo dá voltas! – e tirou uma caneta do bolso da camisa. – Você ainda vai estar aos meus pés… debaixo da minha sola!

                E escreveu o nome do seu arqui-rival na sola do sapato. Claro, aquilo não ia mudar as coisas, mas fazia Tales se sentir um pouco melhor.

                Saiu do banheiro. A cada passo que dava, ele ia se sentindo mais leve. O nome de Ulisses estava lá embaixo, na sola. Era agradável pensar no que ele estava pisando. Ainda não era uma realidade, mas seria!

                Na semana seguinte, na sexta-feira, Tales estava novamente em paz, como se nada tivesse acontecido. Sorria para todos e estava muito sociável. Foi falar com seu novo gerente. Abriu a porta da saleta particular e vestiu sua melhor cara:

                – Bom dia, Ulisses!

                – Bom dia. – disse o gerente, sem desviar os olhos do computador. – O que você quer?

                – Nada! Só lhe desejar um bom dia! Que manhã agradável, não?

                Ulisses lançou para o subalterno um olhar oblíquo.

                – Já que você não está fazendo nada, tome. – jogou um envelope nas mãos de Tales. – Vá pagar estas contas para mim.

                – Claro! – respondeu, um tanto descontente.

                Saiu da sala. O elevador havia acabado de chegar. As pessoas seguraram a porta para ele.

                – Não, pode deixar. – disse Tales, sorrindo. – Eu vou pela escada!

                – Mas são quinze andares!

                – É bom! Assim faço exercício! “E piso um pouco mais naquele desgraçado!” – pensou o homem.

                E lá foi ele, descendo cada degrau com gosto. Pisando firme. Pisando pesado. Pisando, pisando, pisando…

                Caiu.

                Como quase ninguém usava a escada, Tales foi encontrado várias horas depois. Já estava morto. Caiu e bateu a cabeça na quina de um dos degraus. Quando foram recolher o corpo, perceberam que um dos sapatos não estava no seu pé. E por mais que subissem e descessem os lances de escada, não encontraram sinal do outro calçado.

                O final de semana passou, assim como a segunda-feira, que foi dia tirado pelos funcionários para o luto. Na terça todos voltaram a trabalhar. Ulisses estava particularmente incomodado, pois as últimas palavras que disse para o colega foram aquelas frias ordens para pagar as contas. “Será que o elevador estava demorando e ele foi pelas escadas para adiantar o serviço?” No fundo ele se sentia culpado.

                Sua sala particular ficava trancada e ele a abriu com pesar, pois foi alí que ele viu Tales pela última vez. E assim que foi jogar suas coisas na mesa, levou um susto enorme quando viu o que estava sobre o móvel.

                Na mesa, encontrava-se um pé de sapato ensanguentado com uma palavra escrita na sola: Ulisses.

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