Titereiros 2

Titereiros2

 

Era promissor.

Uma agência que viveria sua vida por você. Que realizaria seus objetivos por você. Que alcançaria todos os seus sonhos por você.

Muito promissor.

A carreira do doutor Roberto também havia sido promissora no passado. Formou-se numa boa faculdade de advocacia, tirou um bom lugar no exame da OAB, advogou grandes casos e os venceu. Tudo isso antes de completar vinte e quatro anos. Um prodígio em sua área com um brilhante futuro pela frente.

Um futuro destruído com a súbita morte do pai em um acidente de carro.

Sua mãe mal podia disfarçar o júbilo em finalmente se ver livre do mau marido. A primeira coisa que fez foi gentilmente “convidar” os três filhos a saírem da casa, permitindo que ela pudesse ficar sozinha para curtir a viuvez. O mais velho estava contanto com um grande empréstimo que o pai ia fazer para ajuda-lo a abrir o seu negócio, mas seu plano foi frustrado. A irmã do meio esperava conseguir também uma boa quantia para poder pagar sua festa de casamento, que teve que ser adiada. Por fim, Roberto não dependia do pai para nada, mas ficou mais furioso com a situação.

Começou a se tornar um advogado irritadiço que colecionava protestos dos juízes. Não conseguia mais pegar nenhum caso de vara de família sem ficar, automaticamente, contra a mulher – mesmo que ela fosse sua cliente. Aos poucos a frágil camada de gelo onde ele construiu sua carreira (que ele não sabia, mas havia sido toda pautada em cima do apoio paterno) foi derretendo. Hoje, com trinta e cinco anos, ele é um funcionário público. Tem um cargo razoável e dinheiro para viajar para fora do país todos os anos, embora não mais possa advogar. Apesar dos pesares, ele possui uma vida confortável. Mas ele quer mais. Muito mais.

Mas Roberto não se sente capaz de conseguir este “mais” sozinho. Precisava de ajuda.

A Titereiros oferecia duas opções: a entrevista paga e a gratuita. Optou pela paga (não foi barata) e mesmo assim demorou duas semanas. “Pelo menos há muitos interessados!” pensou Roberto, enquanto aguardava sua vez. Não era muito mais caro do que a maioria das palestras e cursos motivacionais que havia por aí. E caso prometesse realmente tudo aquilo que se propunha, seria o investimento mais bem aproveitado de sua vida.

O próprio diretor da empresa fez a entrevista.

Promissor.

Ele sorria o tempo todo. Cara de vendedor…

– O nosso método é o seguinte. – explicou, alegremente. – Nós “desligamos” a sua mente e colocamos a mente de outra pessoa no lugar. E esta pessoa fará tudo o que for necessário para que você tenha a vida que deseja.

– Desligar minha mente…? Eu vou entrar em coma?! – preocupou-se Roberto.

– Não, nada a ver com coma. Seu corpo continuará funcionando cem por cento. Apenas haverá outra consciência nele.

– Consciência?! – o advogado assustou-se mais anda. – Tipo, uma outra alma vai baixar em mim?!

– Chame de alma, se quiser. Prefiro chamar de consciência. – o diretor deu um risinho. – Um dos nossos funcionários assumirá o seu corpo, assumindo todas as suas funções, enquanto você ficará ‘adormecido’. E ele seguirá a sua vida normalmente, indo no seu trabalho, fazendo suas tarefas rotineiras e tudo o mais. Mas ao mesmo tempo fará de tudo para cumprir com todos os seus objetivos propostos. No caso o senhor deseja…?

– Eu quero ser rico!

– O quanto rico? – perguntou o homem.

– Bilionário! – disse, assertivamente. – Dinheiro suficiente para nunca mais isto ser um problema!

– Haha! Problemas são sempre relativos! E mesmo uma grande quantidade de dinheiro pode…

– Você me entendeu, homem! Não entendeu?! – Roberto destemperou-se um pouco. – Eu quero ser bilionário! E não estou falando de apenas um ou dois bilhões. Quero… vejamos… vinte bilhões! Sim! Acho que será uma quantia adequada! E, é claro, quero meios que me permitam continuar a manter esta quantia e até a aumenta-la, com o tempo.

O diretor da empresa obrigou-se a fazer uma pausa. Fechou os olhos e balançou a cabeça de leve.

– Sim, entendo. O senhor quer mesmo muito dinheiro, heim? Podemos conseguir, é claro! E o senhor deseja se tornar bilionário dentro da advocacia?

– Não, pode ser qualquer área, não me importo!

– Qualquer área?

– Sim, façam o que for preciso para eu me tornar bilionário! – o advogado colocou as duas mãos na mesa, quase subindo nela. – O que for preciso!

– A Titereiros não faz nossos funcionários-clientes cometerem crimes…

– Ah, lógico! Nada criminoso para ficar rico, embora eu, como advogado, saiba muito bem o quão tênue é esta linha! – foi a vez de Roberto rir. – Mas podem fazer este funcionário seu me impelir a qualquer área lucrativa: importação e exportação, petróleo, fábrica de maquinário, lojinha de pão-de-queijo… qualquer coisa!

– Ah, mas se o senhor não nos der uma espécie de “bússola” para seguir… – o diretor fez uma pausa. Durante alguns instante o rosto dele pareceu ficar em branco. Sorriu logo depois. – Não, não… entendi! Não irei mais incomodá-lo com perguntas desnecessárias. Recapitulando: o senhor quer que façamos de tudo? Qualquer coisa? – questionou o homem, segurando o queixo. – Podemos sacrificar todo o resto para que o senhor consiga ser bilionário? Incluindo seus laços com as outras…

– Ôôôô, pode parar! – Roberto ergueu as mãos. – Acho que sei onde quer chegar. Está querendo empurrar para cima de mim coisas como “sonhos” ou “amigos verdadeiros” ou coisa assim, né? Bem, eu posso lhe confessar que não sou exatamente uma pessoa boa ou que tem qualquer outro sonho além de ganhar dinheiro… advocacia nunca foi algo que eu fiz pro total prazer, se é que me entende. Então, posso lhe garantir que eu sou isso mesmo o que deve estar pensando: um ganancioso que só pensa em dinheiro. É isso mesmo! Sou mesmo! – ele sorriu. – Mas prefiro ser um ganancioso rico do que pobre. Dane-se amizades, família, carreira dos sonhos… eu quero dinheiro! Muito dinheiro! Será que ficou bem claro?

– Sim. – o diretor sorriu tristemente. – E nós seremos capazes de fazer isto pelo senhor. Bem… quanto ao pagamento, precisaremos fazer descontos anuais, baseados no seu sucesso financeiro. O que acha de, digamos, 5% de tudo o que o senhor conseguir a mais no ano?

– Bem, se eu ganhar um milhão por ano e tiver que pagar a vocês 50 mil, por mim tudo bem!

– E deseja acordar uma vez por ano? Por semestre?

– Acordar? – Roberto ergueu uma sobrancelha.

– Sim, muitos dos nossos clientes pedem para ser “acordados” de tempos em tempos durante algumas horas para ver como o progresso está indo.

– Oh, para que ficar acordando de madrugada de hora em hora para ver se o download de seis horas do computador continua baixando? Acorde-me quando tudo estiver pronto!

– Entendo. E o “pronto” seria…?

– Quando eu tiver dez bilhões na minha conta! Ah, e é claro, quero acordar sabendo que tenho meios de continuar mantendo esta fortuna e quero estar morando numa mansão legal. Mas pode deixar para comprar esta mansão só quando faltar pouco para eu acordar, certo? Não quero que o seu “funcionário” use o meu corpo para curtir a minha mansão. Alias, quero que ele seja um completo pão-duro enquanto estiver juntando dinheiro para mim!

– Vai levar anos…

– Não me importo! Que leve vinte anos, mas quero acordar bilionário!

O diretor juntou as mãos, um tanto pensativo.

– Bem, as pessoas que desejam dinheiro não o desejam só pelo dinheiro em si. Elas o desejam pelas coisas bacanas que podem comprar com ele. Dez bilhões… é mesmo muita coisa! O senhor já tem… planos pessoais sobre o que vai fazer com sua fortuna? Ou pretende se tornar bilionário só pelo prazer de sê-lo?

– Hã? – a pergunta pareceu incomodar o advogado. – Por que quer saber…?

– Por nada, por nada, haha! Era só uma curiosidade desnecessária minha. – o homem se levantou e cumprimentou o cliente. – Muito bem, a entrevista está encerrada! Aceitamos o serviço. O senhor será um bilionário!

…………………………………………………………….

Ele acordou sentindo uma imensa dor nas costas.

Na verdade esta foi a única coisa que o atentou para o fato de que ele tinha dormido. Roberto vagamente se lembrava do momento em eletrodos foram colocados na sua cabeça e a enfermeira pediu para que relaxasse. Ele se deitou e fechou os olhos. Agora estava acordando novamente e olhava para o teto.

O teto do seu quarto.

Do seu riquíssimo e bem mobilhado quarto.

“Eu mandei comprar um lustre de 50 mil dólares semana passada” foi a primeira informação que a memória lhe passou quando ele viu o belo iluminador decorativo de mogno negro e detalhes folhados a ouro que pendia do teto.

Sua cama era gigantesca. Dava para caber umas cinco pessoas ali fácil, fácil. “E foi o que aconteceu algumas vezes. Mulheres gostam MESMO de dinheiro.” A memória disse. Era estranho, uma sensação muito estranha… ele começou a se lembrar de vários eventos do passado… mas que não eram o seu passado. Ele nunca estivera ali, embora tivesse presenciado. Tudo veio numa velocidade imensa que o atordoou após tanto tempo com a consciência ‘desligada’.

Lembrava-se de ter juntado um bom dinheiro para abrir uma franquia. Lembrava-se de discussões com funcionários relapsos e parentes da família. Lembrava-se de abrir outra franquia. E depois outra. E depois pedir exoneração do seu cargo público. Lembrava-se de uma discussão particularmente violenta com uma prima (”que não vejo a mais de 15 anos” a memória anotou) e de como ele mesmo abriu a sua própria rede de Fast Food.

Teve que interromper seu fluxo de lembranças quando o celular tocou. Celular? Seu novo telefone era uma espécie de contradição em forma física: um objeto absurdamente simples, mas quando o tocava ele revelava uma série de dispositivos complicados.

“Este é o novo Torus II Cosmos” sua memória o avisou. E, subitamente, ele sabia exatamente como manipular aquele objeto estranho. “Afinal eu o utilizo há meses!”.

– Quem fala? – pela primeira vez Roberto escutou sua própria voz. Pesada e opaca. – Senhor Werteimer?

– Como vai, doutor? – disse a voz do outro lado da linha, muito forte e distinta. O Torus II Cosmo também oferecia um sistema de imagem 3D. E foi o rosto de um distinto cavalheiro loiro e com cara de alemão que surgiu no ar, em forma de holograma. – Primeiro peço desculpas pelo atraso do contrato, mas ele vai chegar até hoje em no máximo quinze minutos, prometo-lhe!

“O contrato que era para ter sido enviado hoje de manhã, há uma hora atrás… os planos da minha nova cadeia de lojas.”

– Sim, sim… claro. – respondeu Roberto. – Estarei aguardando.

– Oh, vejo que acordou de bom humor! – o alemão riu. – Da última vez que atrasei meia hora os contratos o senhor acabou comigo!

– Ah… claro! – a memória revelou sua nova face: um homem extremamente linha-dura. De fato ele geralmente teria acabado com o seu secretário por um atraso ‘absurdo’ daqueles. – Estou mesmo de bom humor. Até logo!

Após desligar seu celular, pensou em ligar para alguns de seus amigos para…

Não, ele não tinha mais amigos. Apenas funcionários.

Pensou em ligar para alguns parentes, mas a memória o lembrou de uma briga que teve com os dois irmãos e que disse a eles: “Não vou emprestar dinheiro para vagabundos incompetentes!” era o tipo de coisa que ele poderia dizer até na época em que ainda era ‘pobre’. Mas daquela vez foi sério, muito sério.

A memória prosseguiu, mostrando todas as desavenças com todos os parentes e o quanto foi se desligando de cada um deles um por um. Lembrou-se, em choque, de ter inclusive presenciado o suicídio do irmão mais velho. O que mais o chocou foi ele se lembrar da sensação que teve ao ver a cena: não sentiu nada. Viu seu irmão se matar na sua frente e não sentiu nada.

Começou a caminhar para seu riquíssimo banheiro. Queria ver o próprio rosto, ao mesmo tempo que tentava se lembrar de quanto tempo havia passado. “Vinte e seis anos…” ele pensou. Então deveria estar com cinquenta e seis.

Roberto olhou-se no espelho.

Estava velho. Muito velho. Aparentava ter quase setenta anos. Sua memória o lembrou que ele mesmo nunca quis gastar dinheiro com plástica justamente para juntar a quantia atual que tinha:

Dez Bilhões de Reais.

Ele era um bilionário.

A única grande gastança que ele fez foi neste último ano, mobiliando a casa. E lembrava-se de que isto foi um “mimo” que a agencia Titereiros preparou: após duas décadas de economia, resolveu presentear o cliente com uma casa digna de um ricaço – que foi uma das sua exigências: acordar em uma mansão. Foi o único gasto supérfluo que o Grande Pão-Duro fez em sua vida.

“Grande Pão-Duro… esta é minha alcunha na mídia.” a memória lhe disse.

Mas o que importava?

Ele era Bilionário!

Roberto havia construído (ou melhor, os funcionários da Titereiros haviam construído para ele) uma ampla cadeia de lojas, fábricas e prestadoras de serviços. Um império autossuficiente que lhe proveria conforto para o resto da vida. Ele nunca mais teria que se preocupar com dinheiro. Exatamente como ele queria.

– Ah… enfim… enfim! – o homem sorriu para o espelho, apesar da aparência aterradora que exibia. – Enfim eu sou rico! Enfim eu sou bilionário! Eu sou…!

Uma enorme sensação de culpa começou a se alastrar na sua mente e ele bateu na testa.

– Ah, dane-se! Dane-se meus arrependimentos… dane-se a droga da minha família e dos meus amigos inúteis! Eu sou rico… enfim! Enfim atingi o meu grande objetivo! Agora eu posso viver do jeito que eu quiser! Minha vida começa agora! Uma vida que vale a pena ser vivida!

………………………………………………………..

Foi com grande comoção (e até com um pouco de ironia) que os meios de comunicação noticiaram a morte do bilionário conhecido como Doutor Roberto, o Grande Pão-Duro:

O quão danoso pode ser para o fígado de um cinquentão (mas com carinha se septuagenário) tomar Absinto importado e misturar com Foe Gras? Sobretudo quando ele não está acostumado a estas estranhas regalias?

Pela primeira vez na vida o Grande Pão-Duro resolveu aproveitar o seu dinheiro ao invés de apenas juntá-lo! Infelizmente, foi justamente fazendo isso que sua vida se encerrou. Seus assessores informaram que ele estava agindo de forma estranha e perdulária nos últimos tempos, sem absolutamente nenhum limite. Entrecortando momentos de euforia e depressão (sobretudo quando se olhava no espelho), o bilionário passou mal na última noite. Teria ido até a borda do seu iate e caído nas águas geladas do Mar do Norte, onde estava de férias. Ainda será apurado se foi apenas um acidente ou um crime premeditado, mas a primeira opção é a mais provável. Também não está descartada a hipótese de suicídio.

Conhecido pelo seu modo de vida espartano, que o fez ir da Classe Média ao hall dos bilionários em meros vinte anos, o Doutor Roberto nunca foi sociável ou dado a regalias. Porém, antes de ter começado esta nova fase de gastança, ele mesmo teria declarado que “Sua vida começava agora!” De fato, a vida costuma ser muito sarcástica…

Mais informações à cerca do ocorrido, incluindo a grande novela que se iniciará agora com a partilha da sua herança, nos próximos links.

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