Titereiros Inc – Vivemos sua vida por você!

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Titereiros Inc – Vivemos sua vida por você!

 

Era a grande novidade do mercado. A empresa Titereiros entrou com força num nicho pioneiro, o novo conceito de viver a vida do século XXI: “Vivemos sua vida por você!” dizia o slogam. A princípio as pessoas não entenderam e, muito menos, confiaram em tal afirmação, mas eis que começaram a chegar os testemunhos:

Felipe (nome fictício) queria uma namorada, mas não tinha coragem de chegar nas garotas. Em uma semana havia três mulheres lindíssimas disputando-o furiosamente!

Bárbara (nome fictício) não tinha coragem de pedir um aumento. Em dois meses ela era chefe do seu antigo coordenador, que sempre a destratava e fazia intrigas contra ela na empresa!

Marco (nome fictício), após a aposentadoria, havia perdido a vontade de viver. Em um ano estava trabalhando firmemente numa nova carreira: decorador de interiores, seu sonho secreto realizado!

Estas declarações atiçaram a curiosidade de Aline. “Como eles fazem isto?” ela se perguntava. “Podem mesmo mudar tanto assim a vida de uma pessoa?”

Aline era jovem, era bonita. Tinha grande talento como pintora e era uma pessoa agradável. Porém estava desempregada e sem namorado há bastante tempo, além de estar um pouco acima do peso. Faltava-lhe coragem para enfrentar os homens e garra para arrumar um trabalho na sua área. Telefonou na Titereiros e agendou uma entrevista (havia uma fila de espera de um mês). Falou com o diretor da empresa, explicou a situação, sua frustração, e este apenas sorriu e disse:

– Caso clássico! Uma jovem bonita que tem tudo e pode ter mais ainda, mas está infeliz consigo mesma e sente-se incapaz de seguir em frente.

– Eu sei disso, tá? – ela respondeu, com irritação. – E quero saber como vocês vão fazer para que a minha vida mude tanto quanto vocês dizem que ela mudará.

– É muito simples, senhorita! – sorriu o homem. – A Titereiros não tem este nome à toa. O nosso método é o seguinte. – limpou a garganta. – Nós “desligamos” a sua mente e colocamos a mente de outra pessoa no lugar. E esta pessoa fará tudo o que for necessário para que você tenha a vida que deseja.

– O quê?! – Aline franziu o cenho. – Como assim me… me desligar?! Como assim… “outra pessoa no meu lugar”?!

– Pense como se fosse uma… hmmm… troca de usuário na sua máquina. – explicou, de maneira didática. – Com nossos métodos neurodigitais avançados, deixaremos sua mente dormindo e colocaremos outra mente para controlar o seu corpo enquanto você repousa. No caso a mente de um dos nossos colaboradores. E você só será desperta quando ele atingir todos os seus objetivos por você.

– Espere! – ela mordeu o lábio. – Isso quer dizer que… eu não controlarei mais meu corpo?!

– Só por algum tempo. – o homem pegou a ficha de Aline e a releu. – Hmmm, no seu caso acho que uns sete meses serão suficientes… talvez seis. O tempo necessário para que o nosso colaborador consiga-lhe um bom partido e uma vida econômica estável.

– Mas isto é um absurdo! – a moça balançou a cabeça. – Quer dizer que… outra pessoa terá controle total do meu corpo, fazendo absolutamente tudo o que ela quiser?!

– Oh não! – o homem se adiantou. – Não absolutamente tudo. Nossos colaboradores jamais farão algo contra a lei ou algo que a prejudique ainda mais. A senhorita também pode sentir-se livre para listar algumas coisas que também deseja que nosso colaborador jamais faça quando estiver de posse do seu corpo. Mas é claro que, dependendo da extensão da lista de proibições, a realização dos seus objetivos pode ser dificultada…

– O preço… – Aline se lembrou, levando a mão à testa. – Quanto vocês cobrariam?

– A cobrança será feita ao final do processo, em suaves prestações. Mas como a maioria dos clientes pede justamente uma melhora na parte financeira, geralmente eles estão suficientemente bem de vida para pagar à vista. E não cobramos barato! – riu o homem, entregando para a moça o contrato. – E então? Deseja mesmo fazer todo o possível para atingir seus objetivos? Ou melhor… deseja permitir que NÓS façamos de tudo para que VOCÊ atinja os seus objetivos?

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O contrato foi assinado e apenas uma exigência foi feita: que Aline pudesse despertar ao final de todo o mês por seis horas para conferir os progressos.

Ela estava deitada na maca da empresa quando os eletrodos foram colocados na sua cabeça. Tudo o que ela lembrava era do doutor dizendo “relaxe” no dia 6 de fevereiro, e no instante seguinte ela se via na cama do seu apartamento, no dia 9 de março. Parecia que ela jamais tinha sequer fechado os olhos.

Ela se levantou num sobressalto, sentindo apenas as costas meio duras. “Ficavam assim quando eu passava muito tempo pintando” ela se lembrou. Desde que ficou depressiva, há um ano, não tinha coragem de pintar mais nada. Qual não foi sua surpresa ao encontrar, na sua pequena salinha de ateliê, meia dúzia de belas telas.

Aline reconhecia as pinceladas como sendo suas, mas estavam muito mais bem acabadas do que o normal. Enquanto examinava os trabalhos, seu celular vibrou com uma mensagem de texto: “Oi, amor! Vou te pegar hoje, às oito. Beijos! Rubão.” Ela tentou puxar pela memória e tinha uma vaga lembrança de ter conhecido um tal de Rubão há duas semanas atrás… e antes disso um tal de Jeferson. E antes um tal de Mateus… mas era estranho. Embora a lembrança estivesse lá, parecia mais a cena de um filme ou coisa parecida. Mas saber que agora tinha um namorado (“estamos só ficando!” sua memória a lembrou) a deixou feliz.

Foi até a cozinha e ficou surpresa ao descobrir, dentro da geladeira, frutas, gelatinas, iogurte e outros alimentos saudáveis e pouco calóricos. Aqueles mesmos que ela sempre se prometia comprar para começar uma dieta há anos. Também notou, pregados na geladeira, alguns cartões de negócio.  Mais uma vez a memória respondeu que eram pessoas com quem ela estava fazendo contato, embora a lembrança parecesse tão vaga quanto uma história que alguém contou meses atrás. Não importava: ela sabia que era ELA quem tinha feito aquilo – ou melhor, o funcionário da Titereiros que estava usando o seu corpo naquele período.

Foi até o computador e começou a verificar seu perfil nas redes sociais. O número de fotos postadas tinha aumentado bastante. Aline mal podia acreditar no que via: era ela! Feliz! Sorrindo na balada e com novos amigos que tinha feito naquelas últimas semanas. Ela havia deixado de sair para festas desde que havia ficado depressiva e, mesmo quando suas colegas a arrastavam, ela não consegui se divertir. Agora olhava sua própria expressão de felicidade e mal se reconhecia: “Sou outra pessoa!” ela exclamou.

O celular tocou de novo. Era o diretor da Titereiros:

– E então? – a voz dele no telefone era animada. – Tudo certo?

– Hã… sim, creio que sim. – disse a moça. – Parece que vocês… digo, eu… fiz progressos neste mês.

– Ótimo! Agora aconselho a senhora a se deitar, para que nosso colaborador volte ao trabalho. Até abril!

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No dia 8 de abril Aline acordou para mais uma averiguação dos serviços que tinha contratado.

A primeira coisa que notou foram os restos de tinta nas unhas, indicando trabalho pesado nas últimas semanas. Virou a cabeça e deu de cara com uma tela inacabada. Estava ficando linda. Levantou da cama e percebeu que seu pijama estava largo, pois perdeu alguns quilos naquele mês. Estava, inclusive, sentindo-se muito mais disposta.

No seu celular, doze novos contatos: quatro amorosos, três de amizades e cinco profissionais. A memória identificou todos eles, embora a lembrança fosse enevoada, como passagens de um filme que Aline não assistia há muito tempo. Foi nesta hora que a campainha tocou. A garota se apressou em abrir.

– Aline, malucona! – exclamou uma mulher de cabelos curtos e roupas da moda que a abraçou fervorosamente. – Como você está, ô dona artista?!

– Ah, estou bem… Gisele. (foi este o nome que a memória lhe deu) Como andam os preparativos para a sua peça? (“ela é diretora de teatro e adorou meus trabalhos com os cenários” pensou Aline, de forma automática).

– Tudo às mil maravilhas! – a mulher entrou no apartamento sem cerimônia, como se já fosse íntima. – E você? Está mandando brasa nas telas?

– Claro! – Aline respondeu, com uma autoconfiança que surpreendeu até a si mesma. – Vou mostra-las daqui a pouco. Aceita um suco de amoras? (“Eu NUNCA tomei suco de amora na minha vida…!” ela pensou. “Pelo menos não até ter conhecido o bonitão do Junior, quinze dias atrás.”).

– Quero não, ô dona saúde! Até porque estou num rabo de foguete! Vim aqui só para te dar um beijo e, claro… – a mulher tirou um talão de cheques da bolsa. – … pagar a primeira parcela das suas telas.

– Oh, isto é MUITO bom! – sorriu Aline, animada.

………………………………………..

10 de maio. Aline acordou sentindo pequenas câimbras e vendo marcas de mordidas pelo corpo. A memória logo delatou o responsável: “Foi o Luis”.

O Luiz, no caso, era o belo deus nórdico nu que estava deitado na cama, ao lado dela. Lembranças da noite passada vieram até sua mente. Eles fizeram muitas coisas… muitas! Pequenas perversões que Aline já se imaginou executando, mas jamais teria coragem de fazer na vida real. Sempre fora um pouco reprimida sexualmente… pelo menos até algumas semanas atrás. Ela se lembrava de cada detalhe… “EU fiz isso?!” ela sentia um misto de vergonha e alegria.

Aline saiu da cama devagar para não acordar o rapaz. Precisava fazer as averiguações rotineiras.

Entrou no seu ateliê e ficou embasbacada com uma nova e enorme tela que estava pintando. Era bela demais, nem acreditou que tinha sido capaz de concebê-la!  “EU fiz isto?!”. Reparou que a técnica que tinha usado era aquarela – algo que ela sempre quis se dedicar, mas que sempre sentia preguiça.

Para ter certeza que foi mesmo sua mão que estava trabalhando naquela obra de arte, ela pegou seus pincéis e decidiu pintar uma tela nova. Qual não foi sua surpresa quando, instintivamente, sua mão traçou as pinceladas com muito mais leveza e perfeição do que antes. Ela havia evoluído muito naqueles três meses, como os calos recém-adquiridos de sua mão direita testemunharam.

Logo depois entrou no seu perfil da rede social. O número de mensagens de trabalho e postagens de amigos novos havia aumentado muito. O número de convites para festas estava saindo pelo ladrão e ela, inclusive, encontrou alguns e-mails seus onde foi obrigada a recusar alguns trampos por falta de tempo. Trampos bons! Mas isso não a preocupava, porque a memória dizia que ela tinha nas mãos trabalhos bem melhores.

Enquanto verificava as coisas no computador, sentiu dois braços fortes e tenros a abraçarem.

– Você é linda! – disse Luis, sorrindo e beijando sua orelha. – Você é uma princesa… uma princesa selvagem, linda e gostosa!

Aline sorriu, enquanto sentia que, pouco a pouco, o funcionário da Titereiros novamente tomava o seu lugar.

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9 de Junho. Quando acordou, o sol batia forte no seu rosto. Aline se viu num lugar estranho.

Não, não tão estranho assim. Era a casa de praia de sua sócia, uma adida cultural que se interessou pelas suas telas e agora a recebia em sua morada de veraneio. “Mas estamos no inverno…” ela começou a pensar, então se lembrou: não estava mais no Brasil, estava na Espanha.

A memória dela entrando no avião lhe deu calafrios. Ela sempre teve medo de viajar de avião e não podia acreditar quando lembrava de si mesma, tão tranquila, sentando numa poltrona da primeira classe e tomando vinho. Sua anfitriã foi muito gentil e Aline se lembrava de falar em espanhol com ela de forma fluente. “Nunca falei espanhol!” ela pensou. “Mas comecei um curso rápido de conversação em abril, quando eu e a adida estávamos fechando negócio. Nunca me dediquei tanto a aprender outro idioma na vida do que nestes últimos dois meses.”

Aline nunca teve coragem de gastar dinheiro com curso de idiomas. Sempre achou que seria uma perda de tempo, já que não ambicionava nunca sair do Brasil. Justamente pelo seu medo de avião e de suas baixas expectativas.

Instintivamente ela já conhecia todos os caminhos daquela mansão à beira-mar. Parou na sala e viu um enorme quadro. A tela era sua, ela podia ver a assinatura. Olhar aquela obra a encheu de orgulho. Mas este esmoreceu no mesmo instante quando ela se lembrou de um detalhe importante:

“Na verdade não fui eu quem pintou… foi o funcionário da Titereiros…”

– Aí está você, querida! – disse uma voz feminina em espanhol. Curiosamente o idioma soava tão natural aos ouvidos de Aline que ela mal percebeu a diferença. – Já acordou do seu soninho na varanda?

– Claro, senhora Dolores, claro! – ela sorriu e respondeu, automaticamente, em espanhol.

– Que maravilha! E aposto como acordou com fome!

– Não… não estou com fome, senhora Dolores…

– O que é isto, menina? É a segunda vez que você me chama de “senhora”, achei que já tínhamos pulado esta parte! – a mulher sorriu. – Já que não está com fome, me daria a honra de vê-la pintando de novo? Quero ver estas mãos mágicas trabalhando diante de mim mais uma vez.

– Cla… claro… claro! Sim… – pela primeira vez o idioma lhe escapou.

Aline foi, nervosamente, até o seu quarto pegar na sua mala e os apetrechos de pintura. Aquarelas da melhor qualidade, tão caras que ela jamais sonharia em compra-las na vida. Posicionou uma tela num cavalete. As tintas na paleta e se preparou para iniciar a pintura.

Sentiu um calafrio imenso.

Ficou parada olhando para aquela tela em branco. “Eu sei pintar com aquarela!” ela pensou. “Sei fazer isto muito bem! Estou investindo nesta técnica desde fevereiro com enormes progressos! Eu… eu posso fazer isso…!”

– Qual o problema, menina? – perguntou Dolores. – Você geralmente já começa atacando a tela sem piedade. Por que está hesitando?

– Eu… – ela sentiu a boca seca. Por pouco não disse “Não sou eu que sempre começo atacando a tela… é… o funcionário da Titereiros!” – Eu não sei…!

– Ora, vamos! É só dar uma pincelada e pronto! Geralmente você nem pensa antes de começar a pintar.

“É isto, estou pensando demais!” concluiu. “É a minha mente que está atrapalhando tudo!” E fez uma mancha enorme na tela por impulso. Automaticamente, seus olhos já definiram uma composição e uma figura a ser representada. Suas mãos começaram a se mover quase como se não fossem suas. Lá estava ela: pintando mais uma obra espetacular.

– Não disse? – sorriu Dolores. – Você tem mesmo um dom!

Não, não era dom. Era fruto do trabalho do funcionário da Titereiros. Do esforço que ele fez no lugar dela.

“Volte logo!” ela pensou, enquanto mais uma vez ficava parada diante da tela, racionalizando demais a situação e deixando a magia da pintura parar, sob os protestos de Dolores. “Volte logo, moço que controla o meu corpo! Me tire daqui, depressa!”

……………………………………….

11 de Julho. Aline tomou um susto quando acordou com uma aliança na mão direita.

Luis a havia pedido em casamento.

A lembrança a encheu de alegria. Nunca mais ela teria que ver o olhar torto das amigas, pensando que ela não passava de uma encalhada. Nunca mais ouviria as queixas da mãe de que ela precisava arranjar um marido. Enfim poderia mudar o seu status na rede social de “solteira” para “noiva” e depois “casada”.

Ficou pulando pela casa (havia acabado de passar por uma bela reforma) feliz e satisfeita. Foi até a geladeira e, instintivamente, pegou uma gelatina para comer. Foi até o banheiro e se pesou. E mesmo com o peso do potinho de gelatina, chegou à feliz conclusão que havia emagrecido 12 quilos desde fevereiro. Olhou-se no espelho e se achou linda, sensual, poderosa.

Aline estava muito, muito feliz.

– Não acredito! Enfim, está tudo no eixo que eu queria! – ela comemorou. – E ainda falta mais um mês para os últimos retoques na minha vida.

Sua memória começou a avisá-la de que ainda teria muito trabalho nestes últimos dias. Muitas telas para pintar, muitos lugares para ir, muito social para fazer e, acima de tudo, muito sexo antes do casamento.

Foi até o seu pequeno ateliê e resolveu pintar. Ao contrário daquela vez, na Espanha, conseguiu pintar uma nova tela sem problemas porque simplesmente não pensou em nada naquela hora.

“Como é maravilhoso não pensar!” refletiu, e voltou para sua aquarela, aguardando o momento da volta do funcionário e do seu próximo despertar.

……………………………………

7 de Agosto. O trabalho da Titereiros estava encerrado.

Aline tremeu na base quando soube o custo de toda a operação, mas qual não foi sua surpresa quando o seu cartão de débito quitou, de uma vez só, a dívida.

– Agradecemos a preferência! – sorriu o diretor.

– Obrigada por tudo! – sorriu Aline, vestindo roupas muito mais caras do que da primeira vez que se encontraram.

– Se precisar de nós novamente, basta nos contatar! Damos descontos para clientes que já usaram nossos serviços antes.

– Oh, não creio que precisarei mais! – ela disse, feliz. – Tenho tudo o que sempre quis! O que mais eu poderia querer?

– Não sei… – sorriu o homem, dando-lhe as costas de maneira educada. – Mas não é incomum nossos clientes retornarem para ajeitar mais algumas coisinhas que ficaram pendentes. Boa sorte, senhorita!

………………………………………………

20 de novembro. Bahamas.

– Você não era assim! – protestou Luis.

O rapaz tinha nas mãos um lubrificante importado. Quando ele sugeriu o que queria fazer com ele, Aline estremeceu e se recusou.

– Qual o problema?! – insistiu o rapaz, sem compreender. – Já fizemos isto antes!

– Fi… fizemos…?! – e veio à mente a lembrança. A moça levou a mão ao rosto. – Oh… sim… fizemos!

– E não foi bom?

– Fo… foi! – gaguejou, sentindo vergonha por ter achado aquilo bom. – Mas… mas é que… agora… é diferente!

– Diferente como? Você era tão ardente! Tão… criativa! – o rapaz lhe acariciou o rosto. – O que aconteceu com a minha gata selvagem que conseguiu até mesmo me convencer a largar vários preconceitos?

– É que eu estou um… pouquinho nervosa… porque é nossa lua-de-mel e tudo! – justificou. – Podemos só ficar no básico hoje?

– Hmmm, tudo bem. – Luis a abraçou. – Quando a gente voltar para o Brasil a gente bota pra quebrar!

…………………………………………

2 de dezembro.

Eram as piores telas que ela já havia feito naquele ano. E para agravar, estavam atrasadas.

Aline justificou para Dolores que foi por causa da briga que teve com o marido na volta para casa, mas não era só isso. Antes, a desculpa eram os preparativos para o casamento, no começo de novembro. Esta ainda era um desculpa aceitável embora não fosse verdadeira. Ele simplesmente não pintou mais nada porque seu ritmo voltou ao normal desde que ela reassumiu a posse do seu corpo.

Nos meses de Maio e Junho ela chegou a pintar três telas no mesmo dia. Uma marca impressionante, mas que Aline mesmo não estava conseguindo sustentar. O funcionário da Titereiros tinha realmente apertado o ritmo e fez da garota uma máquina de gerar telas perfeitas. Isso até a dona do corpo voltar a usufruir dele tempo integral.

A adida ligou três dias antes, irritada:

– Não foi isso que tínhamos combinado! – exclamou, seu espanhol à beira do inteligível para a pintora. – Quero estas telas prontas até dia três!

A cabeça de Aline estava cheia de medo quando ela começou a finalizar as telas atrasadas. Ficaram horríveis. Era como se ela tivesse desaprendido a pintar.

– Pare de pensar, sua idiota! – ela disse para si mesma. – A habilidade de pintar que você ganhou no começo do ano ainda está em você! Mas quando você pensa… estraga tudo!

E estava mesmo. Ela se lembrava claramente de todos os passos que tinha que executar quando começava a pintar com aquarela. Primeiro: molhar a tela apropriadamente. O primeiro e mais simples passo que ela sempre se esquecia porque estava com pressa demais. Depois, dosar de maneira equilibrada a água, mas sempre acabava usando menos que o pretendido e mais do que o necessário.

Mesmo assim ela ainda sabia todos os passos. Sabia cada detalhe, cada macete. Quando largava uma tela e ia tentar relaxar, rabiscando distraidamente numa folha de papel, lá estava: um desenho perfeito. Uma ilustração lindíssima.

– É isto… ISTO que eu preciso fazer na tela! Por que não consigo?! – ela se perguntava, frustrada. – Estou pensando demais. É isto! Não posso pensar… tenho que desenhar usando meu instinto!

E então ela voltava para a tela. Fechava os olhos e fazia um rabisco aleatório, tentando não se importar com o resultado. Fazia qualquer coisa e percebia que era este o caminho. Estava conseguindo! Estava começando a reaprender suas habilidades dos meses anteriores, quando o celular tocou:

– Meia-noite, mocinha! – era a voz de Dolores. – Onde estão minhas telas?

Não foi capaz de pintar mais nada.

……………………………………………..

22 de dezembro

– Foi por pouco, nós já estávamos entrando no recesso de final de ano. – disse o diretor da Titereiros, sorrindo e cruzando os dedos das mãos. – E então, senhorita Aline? Como andam as coisas?

– Péssimas. – foi a resposta seca.

– Péssimas?! – o homem arregalou os olhos. – Mas pensei que havíamos deixando tudo acertado para a senhora…

– Sim, deixaram! – ela o cortou. – De fato, vocês fizeram a minha vida ficar boa. Muito boa… mais do que boa!

– Oh, ficamos felizes em ouvir isso… e tristes em saber que as coisas se deterioraram tanto nestes últimos meses. Mas não se preocupe! – ele abriu os braços. – Nossa empresa pode recolocar tudo nos eixos! Apenas diga-nos quais são suas novas metas!

– Eu quero… – ela fez uma pausa. – Quero que eu volte a ser uma pessoa trabalhadora, sociável e sexualmente liberada. Quero…! – ela deu um suspiro profundo. – Quero voltar a ser a pessoa extraordinária que eu fui neste primeiro semestre, quando não estava abarrotada de todos os meus medos, dúvidas e preguiça.

– Hmmm. – o homem coçou o queixo. – Quer que um de nossos funcionários volte a tomar conta do seu corpo e faça tudo voltar a ser o que era antes? Claro que pode ser feito! Mas, por quanto tempo deseja que façamos isto?

– Para sempre! – disse Aline, resoluta e fechando os olhos.

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