A Maldição do Barão

O nome da cidade era “Forte do Barão” e não tinha este nome à toa. Há muitos anos aquela região foi o quintal de um nobre influente, além de um dos mais cruéis. O Barão Grivar Carras ficou conhecido como um dos mais aviltantes líderes que aquela região já teve.

Era dito que seu esporte favorito era caçar pessoas com seu arco e flecha e depois afirmar que o tiro havia sido acidental. Era sádico com todos, inclusive com sua família. Foi viúvo cinco vezes e a morte das esposas nunca foi bem esclarecida. Era um homem vil até a alma e, diziam, só ficava de bom humor quando tinha sangue de algum inocente nas mãos.

Felizmente o destino fez o barão cair vítima de sua própria violência quando alguns dos seus guardas pessoais, revoltados com tanta maldade, o mataram. Seu pequeno forte foi demolido e seu corpo foi enterrado na clareira.

O lugar tornou-se amaldiçoado. Muitas eram as histórias sobre o fantasma do barão, que saia do seu túmulo todas as noites para matar qualquer tolo que tentasse se aproximar dali; a sádica diversão que ele continuava a executar mesmo depois de morto. Ninguém tinha coragem de sequer chegar perto das ruínas quando a noite caia.

– Eu não tenho medo! – gabou-se Honoré. Era o final da tarde e ele gabava-se para os amigos na taverna. – Eu não tenho medo do fantasma!

– Então é só você. – grunhiu Johan. – Não sei se acredito na história, mas eu é que não me arrisco a ir naquele lugar para provar.

– Pois eu sim! – disse Honoré, virando sua caneca de cerveja. – Eu vou naquele lugar hoje mesmo, à meia noite! E para provar que estive lá ainda cravo uma estaca no túmulo.

– Quanta coragem! – suspirou Helia, a garota da taverna. – Você é mesmo capaz de fazer isto?

– Claro! Claro! – o rapaz sorriu, pois era justamente para chamar a atenção da moça que ele estava contando vantagem. – Faço mesmo! Deixa eu só… huh… deixa eu só tomar mais uma cerveja!

“Vai beber para criar coragem!” pensou Johan, balançando a cabeça.

Foi preciso mais uma jarra cheia para que Honoré, enfim, resolvesse realizar sua perigosa missão. Dando um beijo no rosto de Helia e foi cambaleante até sua casa, dizendo que iria pegar um martelo e uma estaca para cravar no túmulo como prova do seu feito.

– Aposto que vai chegar em casa e vai dormir bêbado! – disse Johan, vendo o amigo ir embora.

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Na manhã seguinte não havia outro assunto na cidade. Um velho que costumava ir todas as manhãs na região do forte para procurar turfa deu a notícia: viu o jovem Honoré morto sobre o túmulo maldito. Imediatamente os boatos da lenda do fantasma de Grivar Carras foram atiçados.

– É real! A maldição é real! – diziam todos. – O jovem tolo foi desafiar o fantasma e morreu! Jamais cheguem perto daquele lugar novamente!

Um conselho que foi obedecido com vigor: ninguém tinha coragem ir até o local para remover o corpo de Honoré e lhe dar um enterro decente. Dois dias já haviam se passado e o cadáver continuava no mesmo lugar, sem que nem mesmo a família do rapaz ousasse buscá-lo.

Johan, amigo de Honoré sentia-se culpado. “Eu devia tê-lo impedido!” ele pensava, remoendo-se. “Vou recuperar seu corpo, é o mínimo que posso fazer!”

O mancebo reuniu toda a coragem do mundo para resgatar os restos do seu amigo. Chegando perto do forte viu abutres que começavam a disputar a carcaça. Ele os espantou e chegou perto do cadáver, que estava deitado de costas sobre o túmulo. Com tristeza, começou a mover o corpo. Foi então que percebeu algo inusitado: Honoré estava vestindo uma longa capa com capuz, provavelmente para se proteger do frio da noite. E a ponta da capa estava pregada no túmulo pela estaca que ele disse que iria cravar ali como prova.

Num instante Johan percebeu tudo o que havia acontecido:

“Honoré… seu tolo! No meio da noite não devia estar enxergando muito bem, ainda mais bêbado. Você cravou a estaca no túmulo e, sem querer, prendeu sua capa. Quando se levantou deve ter sentido a capa sendo puxada e… talvez pensando que fosse o fantasma do barão lhe atacando… morreu de susto!”

Johan voltou para casa trazendo o corpo do amigo, e explicou a sua teoria. Mas ninguém em Forte do Barão acreditou em sua versão. E ainda o nomearam “Johan, o Corajoso”, um título que ele carregou com desgosto até o fim da vida.

 

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