As Asas de Avran – Parte 3

arqueiro

PARTE 1

PARTE 2

Ninguém gostava de Carrell.

O filho do chefe da vila de Porto Pequeno era versado em arco-e-flecha desde criança. Tinha o costume de mirar suas setas contra os passantes, acertando suas cestas, seus chapéus e quaisquer objetos que estivessem carregando. Um dia, aos treze anos, matou sem querer uma velha que carregava um balde de água na cabeça. Depois daquilo ele sossegou um pouco, mas continuou arrogante.

Fez parte do grupo de patrulheiros da vila durante um tempo, até se entediar. Caçar era o seu maior passatempo, de modo que nunca voltava da floresta sem uma presa abatida. Tornou-se muito hábil com suas flechas e era chamado pelos outros garotos de “elfo” – um apelido que também continha um tom maldoso, já que todos na vila sabiam que Carrell era afeminado.

O rapaz havia acabado de voltar de mais uma caçada quando, assim que entrou em casa, viu o pai conversando com um homem. Logo o reconheceu: era Geri, o velho chefe dos pescadores. O rapaz quase nunca se importava com os problemas da vila e as discussões do pai, e este também não fazia questão que o filho tomasse partido das coisas. Mas daquela vez era diferente.

– Carrell, meu filho! – disse o chefe da vila, abrindo os braços. – Venha aqui!

– O que foi?  – perguntou o rapaz, colocando seu arco-e-flecha de lado e olhando para o velho pescador. – Se for para carregar barris de peixe, não estou interessado.

– Não, nada disso… embora eu não recuse a oferta. – sorriu Geri. – Estou aqui para conversar com seu pai sobre um assunto muito importante.

– Oh, imagino! – disse, cheiro de despeito. – “Quantas anchovas para este mês?”

O chefe da vida deu um safanão no rosto do garoto.

– Fendrell, não precisa exagerar, o garoto está só brincado. – disse o pescador.

– Então está mais do que na hora de virar um homem de verdade! – disse, cruzando os braços. – Carrell, quero que você faça parte de um grupo que eu e Geri estamos montando.

– Grupo…? – questionou o rapaz, acariciando o rosto. – Grupo de quê?

– Um grupo de busca. – o homem se dirigiu lentamente até sua escrivaninha. – Faz dois anos que eu e Geri estamos nos preparando para isto. Uma missão que nos guiará até um grande tesouro.

– Tesouro?! – o jovem se iluminou. – Você quer dizer: joias e pedras preciosas?!

– Quase, quase! – Geri deu um tapinha no ombro do rapaz. – Uma fortuna que eu e seu pai descobrimos naquela nossa viagem…

– Que viagem?! – cortou o rapaz.

– Ora essa! Nunca contou para ele, Fendrell?

– Se eu contasse ele pegaria o primeiro bote que visse pela frente para ir atrás do ouro sozinho. – o chefe cruzou os braços. – Foi há muito tempo. Eu e Geri trabalhávamos na pesca juntos. Velejamos para longe da costa em busca de melhores e maiores peixes. Uma temeridade, pois acabamos atingidos por uma tempestade que destruiu nosso mastro principal. Ficamos sem rumo. Após dias, sem comida ou água potável, a graça dos deuses nos encaminhou para uma ilha rochosa.

– Foi a nossa salvação. – lembrou Geri. – Conseguimos velejar até uma pequena praia e, imediatamente, começamos a procurar por alguma fonte de água doce. Encontramos, felizmente. Uma pequena fonte de água doce no meio da pequena mata. Havia coqueiros e alguns pássaros. Estávamos, enfim, alimentados.

– Tá, tá… – o rapaz bufou. – E o que isto tem a ver com o tesouro?

– Mais respeito, menino! – ralhou o chefe da vila. – Depois de saciada as nossas necessidades, começamos a explorar o local. A ilha era desabitada e não tinha predadores. As árvores foram escasseando quando começamos a avançar num terreno pedregoso. Logo apenas pedras estavam no nosso caminho e, bem à nossa frente, estava um grande paredão rochoso. E, lá no alto, nós vimos… – o homem fez uma pausa.

– Viram o quê? – insistiu Carrell.

– Vimos o brilho dourado do ouro! – sorriu o pescador. – Ouro… exposto à luz do sol!

– Encontraram um veio de ouro? – questionou o rapaz.

– Não, meu filho. Não era um veio de ouro. Eram peças de ouro moldadas! – o homem descruzou os braços para fazer um movimento largo. – No paredão de rocha havia algumas saliências que, provavelmente, foram esculpidas por mãos humanas. E em cada uma delas havia uma estátua de ouro. Algumas estavam quebradas, outras meio enterradas… havia até mesmo algumas peças douradas no sopé do paredão, bem aos nossos pés. Provavelmente caíram lá do alto com o tempo.

– Pena que eram pequenas! – Geri sorriu.

– Um momento! Mas este ouro devia estar lá por algum motivo! Quem o colocou lá? E com que propósito?!

– Ao demônio com os propósitos! – exclamou Fendrell. – Claro que, depois de termos visto aquilo, eu e Geri ficamos apavorados, acreditando que havia gente na ilha. No entanto ela estava desabitada. No meio da floresta encontramos mais alguns objetos quebrados e pedras talhadas que indicava a existência de uma aldeia, abandonada há muito. O que restou do misterioso povo foram aquelas estátuas cravadas no paredão de pedra.

– E não tentaram pegá-las?!

– Ah… nosso afã para poder escalar aquilo era enorme, mas nenhum de nós sequer ousou. – o pescador deu um suspiro. – Não tínhamos equipamento e muito menos o talento para escalada. Tivemos que nos contentar com o pouco ouro que encontramos espalhado no sopé do paredão. Consertamos o navio, voltamos para casa e, como o seu pai deve ter lhe contado quando criança, ele comprou os direitos para ser o chefe da vila com a pequena fortuna que conseguimos tirar de lá.

– Mas nunca me contou da onde veio o ouro. – o rapaz sorriu. – Entendi! E agora vocês pretendem voltar lá? Esta é a razão da sua busca?

– Garoto esperto! – sorriu o homem. – Nosso grupo será pequeno. Eu, Geri, você, o garoto anão Avran e, pelo visto, o rapaz Ridor que insistiu que queria…

– Avran?! – o jovem ergueu uma sobrancelha. – Por que vão levar o anão junto?! E Ridor?! Assim teremos que dividir o ouro que encontrarmos! E quando nós voltarmos?! Aí ele vão contar para todo mundo e todo mundo vai querer o ouro!

Os dois homens olharam um para o outro por um momento e, depois, para Carrell.

– Fique tranquilo, meu filho. Já temos tudo acertado.

– Sim… – Geri pareceu ficar subitamente triste. – Tudo acertado.

O rapaz olhou para os dois velhos e deu de ombros. Pegou o seu arco e flecha que tinha encostado na parede.

– Pois bem! Vamos nesta missão! – ele sorriu. – Usarei minhas flechas para apontar nas peças de ouro e faze-las cair em minhas mãos como maçãs maduras! – “E que demônios me devorem se eu realmente intenciono dividir este tesouro com o metido do Avran e o idiota do Ridor!” pensou, sorrindo mais ainda.

CONTINUA

Anúncios

1 comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s