As Asas de Avran – Parte 2

Ridor

PARTE 1

Os garotos tinham inveja de Avran. Eram todos mais ou menos da mesma idade, dezesseis, dezessete e quinze anos, mas o anão era o único que já se parecia com um adulto. Tinha a barba crescida e espessa (de fato, ela começou a crescer quando ele tinha apenas doze), voz grave e músculos talhados. Sempre foi a criança mais forte da vila e agora conseguia bater até mesmo nos experientes vigilantes de Porto Pequeno.

Ridor, o mais velho daquela geração, era um dos mais ínvidos. O rapaz humano tinha dezoito anos e um metro e oitenta e dois de altura (e provavelmente ainda cresceria mais). Sempre mandou nas outras crianças por ser o mais velho, porém bastou Avran completar oito anos para já se equiparar em força com ele. Dois anos depois o anão já começava a sobrepuja-lo fisicamente. E hoje Avran era o homem mais forte da vila.

Os patrulheiros de Porto Pequeno tinham selecionado os dois jovens para fazer parte das suas fileiras. Eram ótimos guerreiros e sempre foram rivais de treino. Ridor acreditava que, a medida que fosse crescendo, ele ficaria mais forte que o anão. Decepcionou-se. Não adiantava nada ser alto quando você tenta se bater contra uma rocha. Por mais que treinasse, ele não podia mudar o fato de que tinha nascido humano. Sua carne seria sempre mais fraca do que a de um anão, sobretudo de um anão que se dedicava ao ofício guerreiro com grande afinco.

Foi logo depois de perder mais uma luta com espadas de madeira com Avran que Ridor exclamou:

– Merda! – jogou a espada no chão, apalpando uma contusão que recebeu na altura das costelas, decretando a sua derrota. – Por que você sempre ganha?!

Avran já estava tão acostumado com aqueles lampejos de raiva que nem os considerava mais lisonjeiros, como no começo.

– Porque sou mais rápido e forte que você. – disse, de forma dura e realista. – E porque você prefere lutar com esta espada enorme, que é mais lenta que o meu par de espadas curtas. – analisou, girando as duas réplicas de madeiras nas mãos. – Você poderia se dar melhor com uma espada bastarda e um escudo, ou talvez com uma…

– Não venha me dar conselhos! – gritou Ridor, fazendo uma carranca que era um misto de dor e irritação. – Sou mais velho que você, esqueceu?!

– Claro que não. – Avran sorriu de soslaio. Na vila o costume era sempre respeitar os mais velhos, mesmo que fossem mais fracos que você. – Queria apenas ajudar.

– Você vai me ajudar o dia em que cair de um barranco e morrer, anão! – e lhe deu as costas. Se havia uma grande virtude no jovem humano era sua sinceridade. O rapaz jamais conseguiu disfarçar seus sentimentos para ninguém.

A única coisa boa de sempre apanhar do seu companheiro era que Ridor se arrastava para a tenda de Alinna, montada num canto do pátio de treinos. Ela sempre vinha com aquele jeito excessivamente maternal: “Machucou-se de novo?” perguntava e sorria. Dificilmente a frase mudava, mas desta vez…

– Avran te derrotou de novo? – ela perguntou, assim que o viu entrar. A mudança no sujeito da ação da frase o pegou desprevenido.

– Ah… aquele anão…! – ele até se perdeu nas palavras. Geralmente o roteiro estava pronto, ele sempre respondia um “E espero que você possa cuidar de mim!” para a frase pronta dela, mas agora não sabia bem o que dizer. – Ele… uh… ele sempre joga sujo! A altura dele… é ótima para aplicar golpes baixos!

Alinna nem prestou atenção. Foi instintivamente até o baú de unguentos e bálsamos. Colocou um vidrinho numa tábua e pegou um pano. Fez sinal para Ridor tirar a armadura e mostrar onde estava ferido.

O corpo do jovem humano estava mapeado de hematomas roxos, verdes e amarelos. Todos feitos por Avran, já que nunca nada acontecia naquela vila e o anão era o único que ainda conseguia lhe bater. A garota começou a passar a solução refrescante no corpo do rapaz e este sentiu seu descontentamento ir embora. Porém ela estava muito quieta, o que não era normal.

– Está… huh… – ele fez um esforço tremendo para quebrar o silêncio. – Está tudo bem? Você… não está falando muito.

– Hã?! – a garota foi pega de surpresa e fez pressão excessiva sem querer no hematoma ainda dolorido de Ridor. – Oh, desculpe! É que eu estou… preocupada!

– Preocupada com o quê?

– Oh… não é nada. Não se incomode com isso.

– Vamos, pode falar. – ele encorajou, sorrindo. – Está preocupada com o quê?

– Com Avran.

O rapaz fez uma careta.

– Ouvi dizer que ele vai para uma espécie de… aventura. – ela continuou. – Não sei direito, mas ele vai ter que se ausentar da vila por vários dias! – a moça esboçou uma expressão triste. – Eu fico com tanto medo! Ele adora lutar e escalar coisas desnecessariamente. E se ele se machucar enquanto estiver longe daqui?

– POR QUE está preocupada com ele?!

Ridor ergueu a voz sem querer e assustou a moça. Quando viu a expressão de espanto dela, desmanchou-se em desculpas. Alinna sorriu e baixou a cabeça.

– Bem, ele é meu amigo… todos vocês são. Você também, Ridor. – ela deu um suspiro triste. – Fico preocupada ao saber que ele vai sair em aventuras. Você sabe das histórias horríveis que falam de mercenários e caçadores de tesouros que nunca mais retornam para casa…

– Hah, só os fracos não retornam! – o rapaz estufou o peito e desandou a falar. – Vejo bem porque está preocupada! Avran não é exatamente muito bom… quer dizer, ele é forte e tudo o mais, mas não forte o suficiente para ser um aventureiro. No fundo ele não é tão bom guerreiro assim! Fica se utilizando eternamente desta força extra que anões têm, mas isto só dura um tempo, sabe? Humanos, com o tempo, os sobrepujam. Sabia que eu ainda estou crescendo? Vou ficar tão alto que nem ele vai me derrotar mais! Aí serei o mais forte da vila.

– Sim, você já é o segundo mais forte. – ponderou a moça. Ela sorriu e colocou as mãos no ombro do rapaz, fazendo-o corar.

O rapaz jamais conseguiu disfarçar seus sentimentos para ninguém. E, às vezes, as pessoas se aproveitavam disto.

– Neste caso, Ridor, por favor… vá com ele! Vá com este nesta aventura e faça-o voltar são e salvo. Faça isto… por mim!

CONTINUA

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