As Asas de Avran – Parte 1

anão

Avran era bom em escaladas, apesar de ser um anão.

As pessoas da vila de Porto Pequeno sempre questionavam como um rapaz de um metro e quarenta, pesando oitenta quilos e com braços e pernas ligeiramente curtos podia subir e descer uma encosta íngreme tão depressa.

– Nós, anões, somos filhos da Pedra! – ele dizia, sempre orgulhoso. – As encostas, barrancos e montanhas são como nossas próprias mães. Escalamos com facilidade porque a terra está nos protegendo e nos amparando na subida e na descida!

– Mas e se um dia você cair? – perguntou, cheia de preocupação, Alinna, uma das moças da vila e aprendiz de curandeira. – Consertar ossos quebrados é muito difícil…

– Eu nunca caio. A Pedra jamais nos solta, porque somos seus filhos.

Todos acreditavam, porque todos em Porto Pequeno eram humanos. Estavam acostumados a ouvir lendas sobre o pequeno povo que, outrora, viveu nas entranhas da Cordilheira Ruby. Os anões, até hoje, eram visto quase como criaturas fantásticas: fortes, resistentes (isso eles eram mesmos), nascidos dentro de cristais, comandavam as forças da terra com a voz e viviam até os trezentos anos (esta era a parte do embuste, e havia muito mais). E nenhum deles se empenhava muito em desmentir estes fatos.

– Quando você vai parar de falar estas bobagens? – sorriu-lhe o velho chefe dos pescadores, Geri, assim que Alinna se afastou. – Você sobe bem paredes e aclives porque você faz disso desde que era um pequerrucho! Eu me lembro da sua mãe desesperada, correndo atrás de você assim que o via pendurado num galho de árvore quando você ainda usava fraudas.

– Shhhhh! Pare! – reclamou o jovem anão. – Ninguém precisa ficar sabendo! Não destrua as fantasias do povo…

– Hah! Estas serão difíceis de destruir! – o homem cruzou os braços. – Eles não acreditariam que você é um bom escalador mais por mérito próprio do que pela sua condição racial mesmo se você insistisse nisso. As pessoas ainda preferem pensar que anões são diferentes.

E era verdade. Fazia pouco tempo que os anões se viram obrigados a se dispersar pelas terras superficiais. Eles haviam perdido sua morada, seu império. A Cordilheira Ruby rachou ao meio. Milhares de anões foram mortos e os que sobreviveram tiveram que começar nova vida acima da terra. Os humanos estavam ainda pouco acostumados à presença dos anões e, por isso, ainda os via com reserva e desconfiança, sobretudo nas comunidades pequenas.

Quando os pais de Avran chegaram a Porto Pequeno, as pessoas ficaram assustadas. O casal pediu permissão ao chefe da vila para se estabelecer na comunidade, mas o homem queria cobrar deles uma grande quantidade de ouro; guiado pela crendice de que todos os anões fabricavam minério apenas tocando em pedras comuns. Foi Geri quem os acolheu, ajudando-os a construir suas vidas naquele lugar aos poucos e a superar os preconceitos. Claro que não foi de graça. O pescador tinha cinco filhos, entre eles uma menina. Avran, que tinha acabado de nascer, iria se casar com ela no futuro. Bem ou mal, Geri também acreditava um pouco nas lendas. “Anões podem não transformar ferro em ouro, mas têm facilidade para juntar riquezas.” Era o que ele pensava. Porém, a menina morreu ainda muito jovem e a família dos anões se viu livre do compromisso.

Ou assim eles acreditavam.

– Você já é praticamente um homem, Avran. – disse Geri, um tanto desanimado. – Já está com dezesseis. Se ainda estivesse viva, minha menina iria se casar com você.

– É… – concordou o rapaz, distraidamente. – Eu sei…

Quando cresceu e ouviu a história do casamento arranjado, o jovem anão deu graças aos deuses. Pois desde muito menino já era apaixonado por Alinna. Era por ela que ele se exibia tanto. Mas, no fundo, o rapaz também temia que o fato de anões serem “diferentes” poderia por em risco este amor ainda não-declarado. Pensar nisso sempre o deixava desanimado.

O velho pescador percebeu que aquela era uma boa hora para jogar o anzol.

– Como vai o treino com as lâminas? Os patrulheiros da vila têm lhe ensinado muita coisa?

– Sim, claro! – animou-se de novo. – Eles disseram que eu sou um grande guerreiro para a minha idade. Disseram ainda que, em termos de força, nenhum deles pode me vencer!

– Ah, assim não vale! – sorriu o pescador. – Vocês, anões, têm um corpo já moldado para serem fortes. É até injusto você querer se comparar com aqueles velhos raquíticos! Alias… como andam as patrulhas?

– Tediosas. – o rapaz bufou.

Geri sorriu.

– Então está com sorte, rapaz! Tenho um trabalho para você que não será, de forma alguma, enfadonho. E a melhor parte: você vai ter de escalar bastante!

PARTE 2

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