Sinantrópicos

O apartamento tinha cheiro de geladeira fedorenta. Talvez porque de fato havia uma geladeira velha e enferrujada no canto da cozinha. Uma cozinha sem ladrilhos, de pia quebrada e paredes verdes de bolor.

No meio da sala havia os restos de um sofá surrado, os cantos de madeira aparecendo, a estopa saindo e com o pouco que restava do estofado todo queimado com ponta de cigarro. Uma televisão de tubo com vidro quebrado estava jogada num canto. Em um dos quartos, uma cama só com o estrado. No outro um armário velho sem portas cheio de tralhas, incluindo um cd player que devia ser o único eletrodoméstico que funcionava na casa.

O banheiro não tinha pia e o vaso estava sem tampa. Não havia chuveiro, só um cano enferrujado que gotejava água. Os vidros das janelas e do terraço estavam negros de poeira, nem dava para apreciar a bela vista da Rua Augusta que se encontrava logo em frente. Não havia um cômodo onde as paredes não estivessem descascadas ou no cimento. Por fim o carpete: todo desfiado, manchado e exalando um cheiro estranho.

– Oh… bem junk mesmo. – disse o sujeito resfriado que acabara de entrar no recinto. Ou talvez seus espirros fossem por causa do cheiro de bolor. Já tinha visto fotos de locais decadentes assim. Nas revistas de rock e nos álbuns de fotógrafos alternativos pareciam bem mais agradáveis. Talvez porque foto não pegava cheiro. – Aqui é o inferno?

– Não, é só o meu apartamento. – respondeu a moça do moicano roxo. – Parecido, principalmente nos dias de calor e quando o síndico aparece, mas não. Não é o inferno. – ela sorriu como quem espera o outro rir da piada.

– Como você consegue viver num lugar como este? – o rapaz não conseguiu rir. Olhava ao redor incrédulo. – O que houve com a televisão?

– Quebrei. Ano passado. – ela pegou um fiozinho solto do moicano e começou a enrolá-lo. – Eu tava muito puta e dei um chute nela.

– E porque você não jogou fora?

– Ah, eu sempre esqueço. Além disso ela já não funcionava mesmo, não mudou muita coisa.

O rapaz ia caminhando pela carcaça encarquilhada daquele cadáver apodrecido que a moça chamava de “apartamento”. Pisava no carpete com o mesmo nojo que teria se estivesse patinando em bosta.

– Deve ter rato aqui! – disparou.

– Não, rato não tem.

– Barata deve ter de monte!

– Ah, sim. – a moça estremeceu. – Mas eu compro umas iscas e espalho por aí de vez em quando.

– Você come aqui?! – ele foi até a cozinha.

– Não, como numa lanchonete aqui em frente. O único lugar que aceita fiado.

– E o banheiro? Como você faz?

– Bem, ele é mais limpo do que muitos banheiros público por aí, já que só eu uso. Costumo tomar banho no meu trampo ou na casa de amigos. Ou, quando está muito calor, eu tomo banho frio mesmo.

Tossindo, o rapaz esticou o pescoço para ver o estado do quarto dela. Não podia acreditar.

– Você dorme em cima do estrado?

– Claro que não. Eu mantenho uns colchonetes guardados numa sacola de plástico pendurada na parede. Só tiro para dormir. E nem sempre eu durmo aqui.

– Cara… – ele levou a mão à cabeça e aos olhos, sentindo os efeitos de uma rinite alérgica. – Eu não vou te comer neste lugar!

Era inacreditável. Aquela punk bonita e cheirosa, que ele conheceu na Frei Caneca, morava numa coisa que nem dava para chamar de muquifo. Claro, a localização era ótima: Rua Augusta. O sonho de consumo dos baladeiros da cidade. Por fora o prédio realmente parecia meio caído, antigo. Mas nada neste mundo preparou Fernando para aquilo.

– Eu disse que era melhor irmos para outro lugar. – a garota continuava a enrolar o fio caído do moicano.Tão meiguinha… – Se você… – ela fez uma pausa, olhando para o chão. – … não quiser mais…

– Bom… – ele levou a mão ao bolso. Tinha sete reais e alguns centavos. Não poderia ir num draivão nem se tivesse carro e contava com aquelas moedas para tomar o metrô e voltar para casa.

Colocou a mão no bolso da camisa e encontrou um baseado. “Tudo bem, vou fumar este!” pensou, coçando o nariz. “Se a brisa bater forte eu como ela, senão eu vou embora!”

Os dois sentaram no sofá. A punk abriu um sorriso, ofereceu o isqueiro. Os dois ficaram fumando e conversando. Pelo vitrô enegrecido podiam ver as luzes da noite e o ruído das pessoas conversando, rindo e gritando. Aquela área de São Paulo nunca se calava, o que era ótimo pois ninguém ali queria se sentir sozinho.

Fernando puxou a conversa sobre o fato da garota (que ele nem lembrava mais o nome) morar na Rua Augusta. Ela riu e começou a falar sobre todos os tipos que ela via todos os dias passando na rua. Eles riram. Ela comentou sobre como viver naquele lugar, lentamente, fazia a taxa de sobrevivência cair até zero. E riram mais um pouco. O rapaz comentou o fato de que a própria Rua Augusta já era uma balada, bastava comprar um litrão de vodca a três reais, cair na sarjeta, e a balada já estava feita. E riram mais um pouco.

O baseado terminou.

O sofá rangia de sofrimento com o peso dos dois. Os lábios da garota tinham o gosto de cerveja e maconha. As mãos delas entendiam muito bem do riscado. Ela era linda e pelo visto sabia muito bem como fazer. “Oh, foda-se Vai aqui mesmo.” Ele pensou, enquanto tirava a blusa dela.

As línguas de ambos entrelaçavam-se com furor. Ele agarrou os seios da menina com força, recebendo um pequeno gemido de reprimenda. Não tinha reparado nos piercings nos mamilos. Para se desculpar, começou a suga-los delicadamente. Ela levou as mãos até sua calça e começou a removê-la, ao mesmo tempo que Fernando também começava a puxar a saia dela.

Quando ergueu a cabeça para respirar e admirá-la, não pode deixar de sentir: cheiro de barata. Aquele cheiro que não dá para descrever, mas que parece plástico ou algo parecido. Claro, havia baratas no apartamento, mas o rapaz tentava não ligar. Estava num tesão tão grande que até doía.

Os dois caíram no carpete. Ela tirou a calcinha fazendo um lindo movimento com os quadris. Fernando a agarrou por um dos tornozelos, levou os dedos até a boca, molhando-os com sua saliva, e começou a acaricia-la. Ela jogou a cabeça para trás, desmanchando o moicano no chão e gemendo. Ele não podia esperar mais e a penetrou. Foi preciso algumas estocadas até que o corpo dela se ajustasse ao dele e, então, ele pudesse ir mais fundo. Os sons do lado de fora davam um ótimo som ambiente para a melodia erótica que saía do casal. Ele a agarrou pelos ombros e começou a mordê-la devagar no pescoço.

Cheiro de barata.

“Merda… foda-se! Eu não ligo!” ele pensou.

As mãos delas arranhavam suas costas enquanto ele movia seus quadris com cada vez mais velocidade. Os braços dele estavam apoiados no chão e, em sua pele, ele tinha a desagradável sensação de que o carpete parecia viscoso. Abrindo os olhos ele podia ver os seios da garota balançando a cada solavanco e o cabelo roxo dela desparzindo-se aos pés do sofá apodrecido.

“Não ligo! Não ligo!”

– AH!

E realmente não ligou. Nem na primeira vez. Nem na segunda.

E nem na terceira, quando finalmente caiu no sono.

O dia amanheceu.

A luz do sol forçava-se a entrar pelo vidro escurecido quando Fernando abriu os olhos. A primeira coisa que viu foi a televisão quebrada e a parede oposta cheia de bolor. Ele sentia o seu corpo maravilhosamente relaxado, apesar de ter dormido nu naquele carpete imundo.

“Que história de trepada louca terei para contar!” ele pensou, enquanto se espreguiçava. Ele podia sentir as mãos da garota percorrendo suas costas e fazendo cosquinhas. Fernando esticou o braço para alcança-la.

Quando agarrou os dedos dela, teve a desagradável sensação de que os esmagou, como se eles tivessem ficado frágeis como uma casca de ovo. Ouviu até o barulhinho e sentiu algo molhado escorrer em suas unhas. Assustado, ele olhou para a própria mão.

Uma barata esmigalhada.

Ele se levantou num sobressalto, sacudindo os dedos. Quando olhou para suas pernas, onde ele julgava também estar recebendo carinho da garota, pode ver:

Baratas.

Baratas percorrendo seu corpo inteiro.

– POOOORRRRAAAAAAAAA!!! – berrou, enquanto começava a pular pelo carpete feito louco, sacudindo o corpo e tentando se livrar dos malditos insetos. Agarrou as suas calças, que ainda estavam jogadas no sofá, e começou a se bater com ela.

Correu até o banheiro e, com uma certa dificuldade, girou o registro enferrujado. A água caiu fria feito gelo (e meio escura pelo tempo que ficou empoçada no cano). Os poucos animais que ainda estavam na sua pele caíram e ele, desgraçadamente, pisou neles com os pés sem querer. Algumas das baratas já haviam erguido voo e começavam a ataca-lo o banheiro.

– Caralho! Não, não, não… MERDAAAAA!!!!

Ele saiu correndo do apartamento com as roupas nas mãos. Esqueceu até de pegar o tênis. Saiu para as ruas, onde ainda havia movimento, molhado e praticamente nu. Olhou para trás, tentando ver se nenhuma barata estava lhe seguindo. Depois olhou para o próprio corpo, verificando se estava livre dos insetos.

– Puta… que… PARIU…! – gemeu, enquanto começava a vestir suas roupas no meio da rua, sob o olhar desacreditado dos boêmios que amanheceram na rua. “Esse aí tá muito louco!” comentavam alguns.

Fernando foi recobrando a calma aos poucos. Levou a mão ao bolso e percebeu que seu dinheiro devia ter caído lá dentro do apartamento. Mas de forma alguma ele tinha coragem de voltar. Preferia seguir a pé até a zona sul do que entrar novamente naquele templo de baratas.

– …e a mina sumiu e me deixou sozinho com as baratas! Puta!

Resmungando, ele começou a voltar para casa, pensando onde a punk deveria ter se enfiado. Mas enquanto caminhava de volta ele não pode deixar de lembrar que havia reparado em uma coisa estranha naquelas baratas.

Todas elas tinham uma mancha roxa na cabecinha asquerosa.

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