O Mestre das Sombras

O grupo de aventureiros já estava caminhando há horas.

A floresta fechada dificultava o movimento e tornava a viagem mais cansativa. Os quatro integrantes já estavam tão exaustos que a única coisa que os empurrava para frente era o peso do corpo na descida do barranco.

_Vamos parar! – implorou um deles.

O aventureiro tinha estatura média, vestes longas que dificultavam a caminhada, cabelos negros começando a ficar grisalhos e uma expressão cansada no rosto. Era um mago. E no momento mal tinha fôlego para murmurar qualquer magia.

_Estou exausta também. – reclamou uma moça, segurando no braço do homem. – Vamos fazer uma pausa!

Era a mais jovem do grupo. Uma menina, apesar dos cabelos brancos, não muito diferente da maioria das moças que se vê nas vilas e aldeias humildes do reino de Erion. A única diferença crucial é que ela carregava no pescoço um pingente em forma de duas mãos em concha, o símbolo sagrado de Landda, a deusa da cura. Era a sacerdotisa do grupo.

_Concordo! – disse a terceira aventureira. – Estamos andando sem parar faz horas!

Era uma jovem de cabelos ruivos, carregando na cintura duas espadas curtas e nas costas um alaúde que estava cobrando dela um pesado preço no movimento. Era uma barda e estava infeliz.

_Está bem! Está bem! Vamos parar! – concordou, por fim, o último integrante do grupo. Mais por irritação em ouvir tantas reclamações do que por cansaço. Afinal o medo não lhe permitia sentir fadiga.

Era um homem muito alto, vestindo uma armadura incompleta cheia de ranhuras e amassados. Carregava uma grande espada nas costas e parecia ser o líder do grupo. Era um cavaleiro. E o fato de não ter um cavalo entre as pernas o irritava bastante.

_Descansem! – prosseguiu o homem. – Mas não muito! Depois vamos prosseguir em passo acelerado. Temos que cruzar a fronteira de Erion antes que a noite caia.

E o grupo parou. Tensos, mas pararam. O cavaleiro estava certo:

Precisavam sair logo de Erion.

Os aventureiros eram acusados de um crime que não cometeram: a morte do alcaide de uma das cidades do reino. Uma arapuca arranjada por seus inimigos para impedir que eles ajudassem as pessoas da cidade. Ainda voltariam para limpar o seu nome, mas antes precisavam cuidar de suas vidas no presente. Precisavam fugir.

_Onde está aquele sujeito? – perguntou a barda.

_Heim? – questionou o mago, esticando as pernas. – Que sujeito?

_Está se referindo àquele homem calado vestido num manto negro que salvou nossas vidas? – lembrou a garota sacerdotiza, referindo-se ao triste episódio em que o grupo escapou por pouco de ser massacrado pelos guardas da fortaleza. – Ele ficou na cidade, não ficou?

_Não… – disse o cavaleiro, pegando um galho do chão e cortando-o com a faca para passar o tempo. – Ele veio conosco.

Um silêncio desagradável se formou.

_Como assim?! – a barda exclamou, retesando-se da onde estava. Levou a mão às espadas. – Onde ele está?!

_Ei, ei, calma, menina! Ele deve estar próximo. – disse o líder do grupo. – Muito bem escondido nas sombras das árvores.

_Por que ele não mostra a cara? – irritou-se ela. – Qual o problema? Ah, e falando nisso nós mal conseguimos por os olhos nele por mais de alguns segundos quando estávamos na cidade. Pelas maneiras dele e o modo como se veste, está na cara que o sujeito é um ladrão! Mas… por que se esconder até de nós? Não somos todos companheiros?

_Ladrões não têm companheiros, têm aliados. – disse o mago. – E aliados vem e vão…

_Ele está do nosso lado sim. – disse o homem, jogando o galho cortado fora. – Mas não é um ladrão… não um simples ladrão.

_Ele é sinistro… – murmurou a sacerdotisa. – Não gosto muito dele. E acho que ele também deve saber um pouco de magia para conseguir se esconder daquela maneira… nunca vi ninguém tão elusivo!

_Ah… mais um lançador de feitiços? – desdenhou a barda. – Se tivéssemos mais uma espada forte conosco poderíamos ter dado cabo de toda a guarda lá mesmo!

_…e depois seríamos todos mortos pelos paladinos reais. Não seja tola! – reclamou o cavaleiro. – E como eu estava dizendo, aquele que nos segue não é um simples ladrão, mas um Mestre das Sombras.

_Mestre das Sombras? – nenhum dos três pareceu gostar daquela alcunha.

_Já ouvi falar. – murmurava a barda, agora sua expressão de irritação havia mudado repentinamente para medo. – Trata-se de uma sombra viva. Um ladrão de altíssima classe que se esconde e ataca de surpresa…

_Qualquer ladrão faz isso. – concluiu o mago.

_ Não é tão simples! Os Mestres da Sombra são muito mais furtivos que um ladrão comum, e infinitamente mais perigosos. Deuses… ele realmente não pretende nos atacar?

_Ele está do nosso lado. – concluiu o cavaleiro. – Precisa estar.

Foram mais alguns instantes de silêncio, até que o mago se levantou num sobressalto.

_Estão vindo! – disse ele, pondo-se de pé. – Um grupo de caça vindo da cidade… atrás de nós! Preparem-se!

Logo todos se colocaram de pé. A barda sacou suas espadas, o mago começou a preparar encantos, a sacerdotisa começou a murmurar preces para sua deusa e o cavaleiro empunhou sua enorme espada com firmeza. Logos os ruídos dos homens da lei já podiam ser ouvidos por todos, embora baixinhos. Eles estavam no rastro deles, e o grupo não teria outra opção a não ser lutar.

Vusssh… vusssh… vussshhhhh… era o ruído do mato sendo pisado e empurrado. Os caçadores estavam bem perto agora, sendo que até mesmo suas silhuetas já podiam ser definidas no horizonte infinito de árvores.

_Fiquem atentos… – sussurrou o líder. – A qualquer momento eles vão…

_ARRRGH!!!

Houve um grito.

Mas não era de nenhum dos quatro aventureiros.

_URRRCHHH!!! – foi o segundo grito.

_O que foi isso?! – exclamou a barda. – Quem morreu?!

O quarteto estava tenso. Estavam ouvindo os berros dos guardas ecoando na floresta densa. E nenhum deles ainda sequer tinha movido um dedo para atacar.

Alguém estava matando os guardas.

_ARRRHHHHH!!!

_MALDI….ARRRRGHHH!!!

_NÃO! NÃO!!! ONDE ESTÁ?! ONDE…. UUUURRRRGHHH!!!

_CUIDADO!!! HÁ UM LADRÃ… AAAAAAGHHH!!!

E então houve o silêncio.

O grupo se manteve na posição por mais alguns minutos, mas nenhum ruído foi ouvido. O cavaleiro caminhou na direção da onde vieram os alaridos e não demorou muito para pisar nos cadáveres.

Seis homens vestidos de fardas estavam caídos no meio da floresta. A julgar pelos ferimentos, todos foram mortos instantaneamente com um único golpe. Os cortes não eram muito grandes, mas muito precisos, e pareciam ter sido feitos com um objeto pequeno, como um punhal ou uma adaga.

_É… – o cavaleiro olhou para cima, focando-se em nenhum ponto especial. – Ele realmente está do nosso lado.

E o grupo logo se aprontou para prosseguir sua caminhada, desta vez mais tranquilos. Sabiam agora que tinham um protetor.

Por enquanto.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s