O Filho do Rei

– Ei, velho! Procurando uma rameira, não é? Vai querer uma novinha ou uma “experiente” que nem o senhor?

– Se a sua mãe não for muito cara eu estou aceitando.

Foi com este amigável diálogo que o príncipe bastardo e o mago da corte começaram a conversa. Felizmente, no reino de Cahwiland, as pessoas não perdiam a cabeça facilmente. Mesmo quando lhe atiravam verdades na cara.

– Minha mãe não trabalha mais. – disse o jovem, cheio de desconforto na voz. – A doença-do-mundo já lhe deixou cheia de manchas nas mãos e no rosto. Só os que têm iguais sintomas ainda pagam barato para se deitar com ela.

– Parece que certas doenças nem mesmo a Fé da Luz pode curar. – observou o mago, cofiando a barba. – Já tentou sacerdotes de outros credos?

– Pagãos infiéis! – o rapaz fez uma careta. – Em minha mãe eles não tocam!

Mas todos os homens com cancro rançoso podem tocá-la. pensou o velho.

Os xamãs e sacerdotes da Comunhão dos Divinos e do Credo dos Antigos possuíam milagres muito mais eficientes em relação à cura de doenças. No entanto estes credos se tornaram proibidos em Cahwiland há algumas décadas, mesmo sendo comprovado que poderiam salvar muito mais vidas do que os arrogantes emplastros e palavras vazias dos clérigos da Fé da Luz. O povo ainda não tinha aderido àquela crença totalmente e relatos de infiéis eram comuns. A nobreza do país, no entanto, já tinha feito questão de demolir os antigos templos e abraçar o credo luminoso como se fosse o único. E isso só fazia a voz popular erguer-se mais contra eles.

– Bem, não estou aqui para discutir religião ou o destino de sua pobre mãe. Vim aqui buscá-lo.

– Buscar-me? – o rapaz levou a mão ao cabo do punhal. – Para quê?

– Pensei que já tinha sido avisado por um mensageiro.

– Ah. – fez o bastardo. O mago não saberia dizer se foi uma interjeição alegre ou triste. – Entendo. Deixe-me arrumar minhas coisas.

– Para onde vamos você terá tudo do que necessita.

– Preciso arrumar minhas coisas! – silvou, irritado. – Aguarde-me aqui… serviçal!

É mesmo o filho do rei.

O jovem não demorou. Em minutos já estava diante do mago com uma pequena mochila e um punhal pendendo da cintura. Usava uma armadura de couro discreta e ordinária, com um manto carmim sobre os ombros que o denunciava como um cafetão. Os cabelos e o cavanhaque loiro eram bem-cuidados. Não estava feliz. Nem um pouco. Mas também não parecia triste.

– Podemos seguir? – perguntou o velho, cruzando os braços.

– Tenho escolha?

– Claro que tem. Pode ficar aqui, se quiser, levando uma vida mansa de cafetão até o dia que ficar tão repugnante que nem as putas vão lhe querer mais, por dinheiro nenhum deste mundo. Ou pode vir comigo. – ele fez uma pausa. – E todas as putas vão lhe aceitar pelo resto de sua vida, não importa o quão encarquilhado esteja.

– Pelo menos uma coisinha boa nesta história toda! – sorriu o rapaz. – Vamos, mago! E por falar nisso, qual é o seu nome?

– Pode me chamar de Camus. – disse o idoso, fazendo uma suave reverência enquanto seu manto negro esvoaçava com a brisa.

– Prazer. – respondeu, por instinto. – Meu nome é…

– …seu nome será Albert. – cortou o mago. – Pelo menos até estarmos em segurança no castelo.

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O cavalariço olhou com desconfiança para as três enormes moedas de prata que o mago lhe apresentou. Já havia sido logrado duas vezes no último mês e fez questão de se mostrar muito loquaz em informar seus clientes dos dois infelizes ocorridos.

– … então eu disse que não tinha troco para o moedão de ouro e o fulano ergueu aquela porcaria e gritou: “Quem pode me trocar esta coroa por vinte escudos?” eu agarrei o braço dele e disse: “Você é louco? Isto é uma moeda de ouro! Vão lhe matar!” Mas ele só estava dando corda na interpretaçãozinha dele. Filho duma égua! A moeda era falsa e eu acreditei!

– Todo mundo se engana de vez em quando. – disse o velho.

– Menos vocês, não é?

– Nós quem?

– Vocês, os magos! Ouvi dizer que são capazes até de ler o que se passa na cabeça das pessoas! Vá lá! Tenta adivinhar o meu pensamento.

– Não sou capaz de ler mentes. – o idoso sorriu. – Mas tenho quase certeza que está pensando em maneiras criativas de nos matar caso a nossa moeda de prata seja falsa.

– Hah! Eu sabia! – o cavalariço bateu palmas como quem acabou de assistir a um espetáculo. – Vocês magos são uns safados, mas uns safados poderosos! Olha, para que perder tempo me enganando com prata falsa? Era só ameaçar me transformar num sapo ou coisa assim que eu levava vocês dois rapidinho para qualquer parte do reino.

– A moeda é verdadeira, como qualquer ferreiro natural com metais poderá lhe assegurar. Se quiser ter certeza pode tirar a prova, nós esperamos.

– Esperamos?! – bufou o bastardo.

– Não, tudo bem, chefia. Acredito na sua palavra. Subam na carroça! Eu irei guiá-los pela Estrada do Arenque até a capital em troca destes três cetros! – ele jogou uma moeda para o ar. De um lado havia o desenho estilizado de um cetro real e do outro a efígie do atual monarca de Cahwiland.

O mago estava com a bolsa cheia de cetros. Era a maior moeda do reino, embora não fosse a mais valiosa. Metade do tamanho da palma da mão, sendo possível ver com perfeição o rosto do rei: um homem de cabelos curtos e barba bem-cuidada. Naquela efígie, em particular, era representado com um cavanhaque.

– Vocês se parecem! – disse Camus, sorrindo e apontando para a moeda.

– Vai à merda, velho!

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Aquela primeira noite foi chuvosa, com direito à raios explodindo árvores à poucos metros de distância. A estrada havia se transformado numa corredeira de lama e os três viajantes foram obrigados a parar numa estalagem.

– Despesas incluídas, senhor Camus? – perguntou o cavalariço, torcendo suas roupas na porta.

– Claro. – respondeu o mago, esfregando os braços molhados e abraçando-se de frio. Rapidamente aproximou-se da grande lareira que aquecia o ambiente, secando-se ao fogo.

– Lindinha, eu vou querer um banho quente! – disse Albert, dirigindo-se para a estalajadeira mais bonita, já começando a se desnudar no meio do estabelecimento. – Pago um extra se você esfregar as minhas costas.

– Só as costas? – inquiriu a moça.

– O triplo se esfregar outras coisas!

– Não podemos esbanjar… – lembrou o mago.

– Fica frio! Quando chegarmos… – o rapaz se deteve. – Bem, quando chegarmos “naquele” lugar todo o dinheiro que você gastou provavelmente será devolvido, não é?

– Talvez. Mas Será muito ruim se não sobrar nada nem para chegarmos “naquele” lugar.

– Ei! Eu estou te dando uma ordem!

Acostumou-se rápido com a ideia de ser príncipe, heim?

– Enquanto não chegarmos “naquele” lugar… – a voz de Camus era autoritária e pesada. – … você é apenas um cafetão atrevido que deve seguir as minhas ordens, entendeu? Por isso fique quieto, não gaste muito e vá para “aquele outro” lugar antes que eu me esqueça!

– Velho viado!

– Filho duma puta!

Os dois ficaram mudos por um instante, encarando um ao outro, e depois riram ruidosamente. Ambos tinham dito verdades.

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Em minutos três quartos foram disponibilizados para os viajantes. O cavalariço comeu o seu jantar e foi dormir. Albert ficou no quarto com a estalajadeira bonita. Camus sentou em frente ao fogo e acendeu seu cachimbo. Cofiava a barba, olhando para as chamas como se estivesse lendo algo nelas. Servia-se de um caneco de leite quente misturado com licor, mel e especiarias. Sentia o cheiro forte e doce da bebida com prazer. Por um momento livrou-se do peso de sua missão.

Porém foi logo lembrado quando começou a escutar passos apressados vindos da escada. A estalajadeira bonita estava com os seios de fora, o rosto vermelho e gritando.

– Tire as mãos de mim!

Logo em seguida veio o príncipe, cambaleando degraus abaixo.

– Volte para o meu quarto! Eu paguei para ter você!

– Pagou apenas para eu lhe dar banho! Eu não sou uma prostituta!

– Você é sim…!

A mulher lhe deu um tapa ardido e sonoro. Até Camus piscou e fez uma careta.

– Não chegue mais perto de mim! – ela berrou.

Albert acariciou o rosto e deu uma risada. Foi para cima dela. A garota tentou lhe dar outro tapa, mas desta vez tinha os dois pulsos firmemente presos pelas mãos calosas do rapaz.

– Deixei você me dar um tapa, mas um segundo não vou permitir…!

A garota lhe deu uma joelhada no meio das pernas e, na sequência, deitou-lhe a mão no outro lado do rosto, deixando ambos vermelhos.

– Quem estava pedindo sua permissão?! – a mulher cobriu os seios e saiu correndo até os fundos da estalagem. Entrou em um dos quartos e trancou a porta.

Irritado, o príncipe bastardo ralhou com o mago.

– Por que não me ajudou, porra?! Ela me bateu!

– Três vezes. Eu contei. – o velho soltou uma baforada do cachimbo.

– Você não devia estar me protegendo ou qualquer merda do tipo?!

– Oh, eu estou. Se ela pegasse uma faca aí sim eu entraria em ação.

– Não acredito que você não vai fazer nada para punir aquela vaca! – o rapaz acariciava ambos os lados do rosto. – Vai mesmo me deixar na mão?

– Quem lhe “deixou na mão” foi a garota. Agora vá dormir, teremos um dia longo amanhã.

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 A chuva deu trégua e a viagem transcorreu por mais quatro dias sem incidentes. Até que, contrariando um dos planos de viajar incógnito, o príncipe exigiu ser levado até uma taverna. O caminho todo estavam se hospedando nas estalagens menores e mais discretas, mas o rapaz estava ávido por ouvir música. Por ver gente. E pegar mulheres.

– Já disse que precisamos de parcimônia!

– Enfia a parcimônia no rabo, se ela lhe agrada tanto assim! – exclamou Albert, embriagado. A carroça estava sempre abastecida com cerveja por insistência dele. – Eu quero pegar umas putas! E quero pegar agora!

– Você já deve ter pego prostitutas o suficiente para a sua vida inteira.

– Não, não, não! Eu quero agora uma mulher! Se você não me levar até uma taverna eu vou sozinho.

– Pelos deuses… – o mago hesitou. – Pelo deus-sol! Pare com isto! Vai chamar demais a atenção!

E foi exatamente isto que aconteceu.

A Estrada do Arenque era uma das mais movimentadas. Nada melhor para esconder um livro do que numa biblioteca. Apesar do segredo da missão, não tinham a necessidade de viajar pelas estradas mais incógnitas, mas também não precisavam carregar no pescoço uma placa: “Eu quero confusão.” E foi isto que um grupo de bandoleiros interpretou quando viu o rapaz bêbado gritar.

– A grana! – um deles gritou, enquanto seus outros três companheiros rodeavam a carroça. – A grana e todos ficam vivos!

– Piedade! – o cavalariço ergueu os braços. – Não nos machuque!

– Cale a boca, verme! Estamos falando com o cafetão bêbado e o seu avozinho!

– Cuzão! – o príncipe sacou seu punhal. – Sabe com quem está falando?!

Antes que qualquer um dos presentes dissesse mais alguma coisa, Camus ergueu as mãos e conjurou uma magia:

O Reino do Medo de Thompson!

Naquele instante os bandidos arregalaram os olhos e soltaram as armas. Tomados por um súbito frenesi de pavor, saíram correndo gritando pela estrada.

– É isto mesmo! – bradava o bastardo, sacudindo sua arma. – Fujam! Tem que fugir mesmo! Pois eu sou foda! Eu sou perigoso! Eu sou o…!

Ele se calou quando recebeu uma garrafa de cerveja na cabeça. O líquido espalhou-se pela sua cabeleira, assim como o sangue. Albert desmaiou na carroça.

– Não acredito… – murmurou o cavalariço.

– Que eu ataquei o meu “neto”?

– Não! Eu não acredito que você desperdiçou uma cerveja cheia só para nocautear este desgraçado!

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A capital do reino era bela. Por toda a parte era possível ver pequenas abadias recém-construídas com o símbolo do deus-sol.

Camus exibiu ao primeiro porteiro do castelo o passe real. Este modo ele e Albert puderam atravessar a ponte de pedra sem problemas. Olhares desconfiados dos guardas eram lançados para os dois visitantes andrajosos. O segundo porteiro foi mais duro; fez mais perguntas e demorou para ordenar que baixassem a ponte levadiça. Por fim chegaram no terceiro e último porteiro, que simplesmente os deixou passar. Ele conhecia o mago de longe e o cumprimentou cordialmente.

– Como vai, velho safado? – sorriu o homem. – Você demorou! Não imagina como o rei está apreensivo. – lançou um olhar para o bastardo. – Este aqui é…?

– Sim. – Camus anuiu com a cabeça e seguiu seu caminho sem dizer mais nada, empurrando o príncipe gentilmente.

– Onde está o tapete vermelho!? – resmungou Albert. – Eu não sou um príncipe, porra?! Isto é maneira de me receber?

– Bastardos não são príncipes até que o rei proclame isto. Tenha paciência, rapaz.

– Viajar com você foi uma merda! E não pense que eu me esqueci da cervejada na cabeça! Quando eu for rei, se você ainda estiver vivo, só espere de mim a máxima misericórdia de lhe destituir do cargo! Porque o que você merecia era a morte por ferir uma futura cabeça coroada!

É mesmo filho do rei.

Chegaram até o grande salão de recepção. Uma mulher alta e muito bela aproximou-se. Ela tinha os cabelos loiros escuros, como caramelo. Os olhos brilhavam como ouro derretido. Vestia roupas finas, indicando que devia fazer parte da alta cúpula da realeza.

– Senhor Camus! Que alegria vê-lo bem! – ela fez uma mesura. – Também estou feliz em vê-lo em bom estado, meu príncipe.

– Vou ficar melhor depois que você me der uma cavalgada, linda! – sorriu o homem, exibindo seu sorriso emoldurado pelo cavanhaque.

– Meu nome é Moldred. – a moça desconversou. – Fui uma das conselheiras da rainha. Com o passamento desta o senhor, meu rei, ordenou que seu bastardo fosse trazido até a corte, algo que seria impossível se a senhora sua esposa ainda estivesse viva. Ela certamente lhe desejaria mal.

– A puta gorda pagã morreu e eu sou o legítimo herdeiro, hah! – o rapaz ergueu as mãos. – A vida não poderia estar melhor! Quando recebo minha coroa?

– A sua nomeação como príncipe virá logo. Por enquanto, por favor, siga-me. Irei lhe indicar seus aposentos.

O rapaz envolveu um dos braços na cintura da garota que, um pouco consternada, decidiu não contrariá-lo. Camus apenas fez uma reverência e saiu do salão em silêncio.

Dirigiu-se até os jardins do castelo, o lugar que ele mais gostava de ficar quando estava na corte. Acendeu seu cachimbo e cofiou a barba, pensativo.

E assim termina a história do bastardo que queria ser rei. ele pensou, sorrindo. Porque confiou rápido demais num velho pagão e deitou-se com uma assassina de falsa donzelia. E deu uma risada no final, espalhando a fumaça da sua boca. É mesmo o filho do rei!

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