Nifol

O curandeiro Fallar foi o primeiro a cair, morto pelas machadadas dos bárbaros que avançaram sobre o grupo de aventureiros feito varejeiras na carniça.

O cavaleiro Albert conseguiu matar vários, mas acabou gravemente ferido. Quando o urso negro atacou, ele não conseguiu se salvar, embora tenha levado a besta ao mundo dos mortos junto com ele.

Por fim o rastreador Rydderch, o único que era natural daquelas terras geladas, calculou mal o caminho montanha acima e só se deu conta do seu erro cedo o suficiente para gritar aos seus dois companheiros remanescentes que fugissem da avalanche.

Miro e Nazira por pouco não foram soterrados como Rydderch, que agora estava sob toneladas de neve. Durante o deslizamento, duas árvores correram para baixo feito gravetos num riacho e atingiram a mulher guerreira, quebrando-lhe as duas pernas. Miro, o ladrão, o mais fraco do grupo, teve imensa dificuldade em arrastá-la até uma caverna e fez o seu melhor para cuidar de seus ferimentos.

Era o terceiro dia em que estavam presos naquele lugar. E uma procela gelada castigava a montanha há pelo menos dois, e não parecia que ia parar tão cedo.

Miro era um elfo-das-areias, habitante do Deserto de Jhayr. Híbridos do antigo povo felinóide e dos extintos elfos. Tinha as orelhas pontudas, os olhos com pupilas verticais como as de um gato e a barba e os cabelos negros feito tinta. Não entendia nada de gelo ou frio e toda aquela brancura o assustava. Mas o que realmente o deixava preocupado era o estado de sua amiga.

Nazira era sua conterrânea, uma anã da linhagem dos thuloowzerg, ou “filhos da pedra esfarelada”. Também não entendia nada de gelo ou neve, embora agradecesse à Deus pelo frio lhe tirar boa parte da dor. Seu corpo estava completamente dormente da cintura para baixo desde o dia da avalanche. E ela não acreditava que voltaria a sentir as pernas. Sua pele morena estava branca e seus cabelos castanhos estavam cobertos por uma fina camada de gelo.

– Você precisa comer. – murmurava Miro, segurando a colher de sopa quente.

– … não tenho fome… – ela murmurou, com voz fraca. Estava deitada há três dias e suas forças não voltavam.

– Você precisa comer! – ele insistiu com mais vigor. – Para se manter aquecida, pelo menos.

A anã não tinha forças nem para erguer a cabeça, então apenas abriu a boca, deixando que o amigo despejasse o líquido devagar. A sopa não tinha sabor. Era água quente com um resto de aveia que o ladrão carregava em seu alforje preso ao cinto. Eles haviam perdido não apenas os amigos, como também toda a sua bagagem nos últimos dias.

A situação de ambos era desesperadora. Embora não estivessem muito longe da vila mais próxima, seria impossível para Miro carregar Nazira até lá sozinho. A anã tinha apenas um metro e trinta, mas era mais pesada que ele próprio. Ela era uma guerreira, do tipo que nunca precisou da ajuda de ninguém e sempre foi a primeira a carregar companheiros feridos nas missões. Vê-la naquele estado deplorável partia o coração do elfo.

A pequena fogueira lutava para sobreviver, assim como os dois aventureiros perdidos. Do lado de fora a borrasca parecia ir perdendo a força devagar. Um bom sinal, o primeiro em muito tempo.

– … logo… estará na hora… de você ir… – murmurava a guerreira, olhando para a boca da caverna. – Não gaste mais… seu tempo comigo…

– Fique quieta! – censurou o ladrão. – Não gaste suas forças falando bobagens. Deus iria me amaldiçoar se eu te deixasse aqui para morrer. Só saio daqui com você!

– … Deus ficará triste… se perder você… quando pode se salvar…  – ela fechou os olhos.

– Acorde! – exclamou Miro, em desespero. – Não durma! Ainda não! Eu vou arrumar uma forma de te tirar daqui! Eu juro!

Se tivesse forças, Nazira riria. Mas apenas sorriu.

– … você fez o que pode…

– Não! – o elfo se pôs de pé. – Ainda não!

Durante anos Nazira e Miro foram os melhores amigos, desde que eram muito jovens. Há dez anos começaram sua carreira de aventureiros e, em meio à suas andanças, conheceram o cavaleiro estrangeiro Albert, depois o curandeiro Fallar e, por último, o rastreador Rydderch. Este último havia proposto uma grande viagem até o extremo norte do Grande Continente, sua terra natal, a fim de procurarem por tesouros e glórias em meio ao gelo. O ladrão foi o primeiro a aceitar a ideia, pois dizia que estava curioso para descobrir o que era neve.

Como ele se amaldiçoava agora.

A anã não tinha mais forças para ficar consciente e, apesar dos apelos de Miro, acabou dormindo. Aflito, o elfo constantemente checava se a guerreira ainda respirava. Ele sabia que ela não ia resistir nem mais um dia sem cuidados. A pequena fogueira que mantinha parte do frio longe da caverna já estava esmorecendo e não havia mais gravetos para fazê-la queimar. Se não morresse pelas feridas, Nazira morreria de frio.

Miro saiu em meio à neve, aproveitando que o vento agora era menos intenso e a visibilidade estava melhor. Estava decidido a procurar ajuda.

Mas era inútil. Embora a vila não estivesse longe, até que chegasse nela Nazira já estaria morta. O pensamento o enchia de pesar. Ele não suportaria ver sua última companheira, e sua amiga de tantos anos, perecer num lugar como aquele.

Não suportaria ver a eleita de seu coração partir.

Tudo era branco. Como no deserto, só que gelado ao invés de quente. O elfo caminhava alguns metros e depois se continha. Tinha medo de se perder ou mesmo de perder a entrada da caverna.  O vento começava a ganhar mais força, indicando que logo a procela voltaria com tudo e ficaria impossível, mesmo para ele, caminhar em segurança. Não havia sinal de uma alma viva por perto. Estavam sozinhos.

Ele não queria abandonar Nazira. Não podia fazer isto. Ele se amaldiçoaria pela eternidade se o fizesse.

Caiu de joelhos na imensidão branca.

– Deus, senhor supremo! Divindade única! – começou a clamar. – Sei que não tens muita força neste país estrangeiro fechado pela neve, mas tu és o grande e sua luz alcança todo o mundo! Por favor! Prove-me que és soberano e ajude minha amiga! Faça um milagre!

O elfo-das-areias recebeu apenas vento gelado em resposta.

– Deus! Sei que não sou digno de dirigir-me a ti! – continuou a gritar aos céus. – Mas se puderes me ceder um dos teus profetas, faz isto! Pede para Ahura interceder por mim e dar forças aos meus braços para carregar minha companheira! Ou à Gaokerena para curá-la! Por favor! Mande-me qualquer um dos seus! Juro pagar qualquer promessa que me pedir! Faz o milagre acontecer!

O vento soprava forte e ululante.

– Por favor! Deus! Alguém! – as lágrimas saiam quentes de seus olhos e caiam sobre a barba negra, congeladas. – Deus ou qualquer divindade deste país estrangeiro! Ajude-me! Qualquer profeta estranho deste mundo de gelo! Interceda por mim e pela minha amiga, por favor! Por favor! – ele socava a neve. – Eu faço qualquer coisa! Qualquer coisa! Por favor!

O ambiente era insensível aos seus clamores. Ninguém parecia capaz de ouvi-lo, fosse divindade ou profeta.

Inconsolável com tal destino, ele se levantou do meio da neve e virou-se para voltar à caverna. Então tomou um susto. Alguém havia ouvido suas preces.

E não era nem divindade nem profeta.

Um gato negro encontrava-se sentado placidamente no meio da brancura do gelo, com os pelos salpicado pelos flocos. Uma pequena mancha negra na neve.

A criatura encarava Miro com placidez. Suas pupilas mal conseguiam ser vistas na vastidão branca de seus olhos. Estava imóvel, sereno, parado. E irradiava uma aura de autoridade estranha.

– Quem é você?! – seus instintos indicavam que aquele não era um animal qualquer. Nenhum felino pequeno e sozinho como aquele sobreviveria naquelas montanhas. – Um deus? Um demônio? Um… – ele se deteve e sacudiu a cabeça. – Não! Não me importa quem você é! Vai me ajudar, não é? Vai salvar a minha amiga, não vai?

O rabo negro e felpudo do gato bateu no meio da neve, espalhando os flocos. Parecia estar dizendo “sim”.

………………………………………………………………………

Nazira acordou sentindo-se quente. Uma sensação que ela achou que jamais voltaria a sentir na vida.

De fato ela nem esperava que sua vida fosse continuar.

– Onde…?! – ela levou um susto quando abriu os olhos e percebeu que não estava mais na caverna. Agora estava numa casa de pedra, em uma cama quente, nua e coberta por cobertores de pele de animal.

Ela olhou para os lados, sorrindo ao ver a chama da lareira e ao sentir o cheiro da comida. Sentou-se na cama com cuidado. Mas quando seus pés tocaram o chão ela se lembrou: tinha fraturado as duas pernas na avalanche. No entanto, agora ambas pareciam novas em folhas.

– Miro?! – ela exclamou. – Miro! Onde está você?

A porta da casa de cômodo único se abriu. Quem apareceu foi um anão. Maior do que ela, de cabelos loiros e olhos muito claros. Nazira se lembrava dele. Foi o último anfitrião do grupo antes de subirem montanha acima.

– Senhor Klust! – ela parecia surpresa.

– O próprio, e a seu dispor, como sempre – disse o anão, que tinha quase um metro e sessenta de altura. No seu ombro havia um filhote de cervo recém-abatido e em seu rosto, emoldurado pela espessa barba dourada, havia um traço de melancolia. – Eu disse que era perigoso, não disse? Eu avisei que deviam esperar o tempo melhorar. Sinto muito pelos seus amigos.

– Eu… eu também sinto. – disse Nazira, pesarosa. – Como cheguei aqui?

– O seu amigo elfo a trouxe. – o homem colocou a caça no chão. – Disse que estava ferida, mas não encontrei nenhum ferimento em você.

– Mas eu estava ferida. – ela se lembrou. – E Miro? Onde está?

– Não sei. Sujeito estranho. Foi embora logo depois que a trouxe aqui.

– Foi embora?! – a anã saltou da cama, deixando a manta que cobria sua nudez cair. – Foi embora para onde?!

– Não faço ideia. – Klust foi polido o suficiente para pegar a manta do chão e entregar de volta à Nazira. – Também não entendi como aquele magrinho conseguiu carregá-la todo o caminho de volta. Disse para cuidar de você, disse que você deveria voltar para casa sozinha e disse também… – o anão fez uma pausa. – Disse que te amava muito.

– O quê…?

A guerreira fez mais perguntas, mas o anão não pôde responder nenhuma. Ainda não podia acreditar que Miro simplesmente a havia salvado e depois a deixado sozinha. E como explicar as pernas curadas de forma tão milagrosa? Nem mesmo os mais altos sacerdotes do Deus-Único podiam interceder por milagres tão poderosos como aquele.

– Ele vai voltar, não vai? – ela dizia a si mesma e ao seu anfitrião. – Ele tem que voltar! Não faz sentido! Ele precisa voltar.

– Coisas estranhas acontecem por aqui, mulher. – confidenciou Klust. – Se o que disse é verdade, que suas pernas estavam quebradas e agora estão curadas, só posso acreditar que seu amigo apelou ajuda a alguma entidade.

– Que entidade?

– Fadas são as mais comuns, embora nem um pouco confiáveis. Há os gnomos, que são mais perigosos ainda. – ele cofiou a longa barba dourada. – Em último caso, se tiver sorte, contatar um demônio…

– Não! – exclamou Nazira. – Miro é um crente de Deus! Jamais faria uma coisa destas!

– Nem para salvar o amor de sua vida?

– Nem…! – ela hesitou. – Ele não faria isso! Ele sabe que nada de bom pode vir de uma barganha com demônios.

– Concordo. – o anão assentiu com a cabeça. – De qualquer forma, encontrar um demônio não é tão fácil assim. Às vezes nem aqueles que os invocam de livre vontade conseguem. O elfo deve ter apelado para algum espírito da montanha gelada.

– Talvez… – aquela conversa deixava a guerreira cada vez mais triste. – É… talvez!

Nazira desfrutou a hospitalidade de Klust por mais quatro dias, até se convencer de que Miro não voltaria. Ela estava triste, mas sabia que precisava seguir em frente. Seus amigos estavam mortos e ela nem teria como reclamar os corpos.

Seu coração era uma bola de ferro de dor, mas ela não parecia ver nenhuma outra saída a não ser ir embora sem seu amigo. Pelo menos por enquanto.

– Eu vou voltar. – disse a guerreira, cheia de convicção. – Talvez eu demore um ano ou dois, mas eu voltarei para esta terra com um grupo de aventureiros muito melhor e descobrirei o que aconteceu com Miro.

– Não é melhor esquecer? – sugeriu o anão. – Imagino como deve estar se sentindo, mas seu amigo fez uma escolha consciente. Se ele a salvou, teve que dar algo em troca. E duvido que ele gostaria de vê-la se arriscando de novo…

– Quem decide isto sou EU, irmão de gelo! – a expressão dela era séria. – Agradeço mais uma vez a hospitalidade. Até breve.

O dia estava frio como sempre, mas ensolarado. Um sol fraco e opaco, muito diferente do gigante furioso do Deserto de Jhayr. Nazira teria que voltar para casa, mas tinha certeza de que voltaria. E descobriria o que aconteceu com seu amigo.

Vendo a mulher ir embora, Klust apenas balançou a cabeça e voltou para dentro de casa.

Em frente ao fogo havia um gato negro que, minutos atrás, não estava ali. Repousava preguiçosamente, esticando seu corpo para receber mais calor.

– Até que enfim você voltou, Nifol! – sorriu o anão, acariciando o animal. – Eu estava preocupado! Sumiu desde o dia em que aquele elfo trouxe a irmã de areia até aqui. Por onde andou? Está com fome?

O gato ronronou ao ser afagado e abriu seus olhos da cor da neve. Bocejou. Não, ele não estava com fome.

Nunca ficava com fome depois de uma caçada bem-sucedida.

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