O Cavaleiro Corvo

– Este trabalho de vigia é mesmo perigoso, não é? – comentou Klaus, observando o negrume da noite.

– Se não fosse, não teriam contratado tanta gente. – comentou Karl. – Tem fogo?

– Tenho, eu acho. – o rapaz vasculhou a algibeira imunda em busca de duas pedras-de-fogo. – Aqui.

– Obrigado. – agradeceu o vigia, riscando os pequenos seixos em busca de faíscas. Quando acendeu seu cachimbo as devolveu ao amigo. – Acha que teremos uma invasão? Alguém vai tentar entrar aqui e roubar algo?

– Ninguém guarda torres que não possuam algo a ser roubado. O que acha que é?

– Pelo ordenado que nos dão, deve ser alguma coisa barata.

Karl e Klaus eram apenas dois dos muitos guardas que guardavam a Torre de Areia, nome da única estrutura do antigo castelo de Caddeburg que ainda se encontrava de pé. O antigo burgo fora um dos mais movimentados portos do reino de Kernutsh, mas depois da Grande Guerra tornou-se uma região arruinada. O mar já havia reclamado boa parte da sua estrutura desmoronada e a praia invadia o que restava.

– O mar é lindo daqui de cima, não é? – suspirou Klaus.

Ele e o amigo estavam encostados no para-peito do antepenúltimo andar da torre. O que significava que estavam mais perto do perigo. A sala do tesouro era no penúltimo nível, guardada pelos mais fortes e bem-preparados mercenários. A dupla, obviamente, não estava entre eles. Não que se importassem.

– Não fique muito extasiado com a paisagem. – lembrou Karl. – Estamos de serviço.

– Estamos de serviço há mais de duas semanas e nada aconteceu ainda.

– Você queria que acontecesse?

– Sim, mas não comigo aqui.

– Somos pagos para isso. – o homem apagou seu cachimbo e o deixou em cima de uma mesa próxima.

– Talvez. – Klaus saiu do para-peito abanou os braços. Percebeu, irritado, que suas mangas estavam sujas de excrementos de corvos que estavam grudados na amurada e ele não enxergou. – Mas eu não gostaria de trocar a minha vida por ouro.

– Heh! Somos mercenários! Nosso trabalho é trocar nossa vida por ouro.

– Por tão pouco?

Os dois remexeram em suas algibeiras ao mesmo tempo. Cada um deles recebia duas moedas de prata por dia. Não era um pagamento ruim, mas não parecia suficiente para alguém que poderia morrer por ele.

– Estou com fome. – reclamou Klaus. – Acho que vou até a cozinha.

– O combinado é que cada janela tenha pelo menos dois vigias.

– E você acha que alguém que tente invadir este lugar, sabendo que somos quase uma centena, não está preparado para dar cabo de dois de nós?

– Que jeito de falar!

– Somos mercenários, lembra? – riu o sujeito. – Trocamos nossas vidas por ouro.

– Humpf! Então eu vou com você! Detestaria morrer sozinho.

Karl e Klaus se deram muito bem desde que se conheceram. Começou com uma simples aproximação depois de uma piada que fizeram sobre eles terem os nomes tão parecidos. Nomes comuns, para dois sujeitos comuns que tinham empregos comuns e que morreriam de forma comum. Nem todos podem ser nobres, santos ou heróis.

O refeitório do antepenúltimo andar da torre estava vazio. Pratos de comida amontoavam-se sobre a mesa. No dia seguinte as faxineiras teriam muito trabalho. Os dois guardas negligentes abriram as despensas em busca de alguma sobra.

– Pão… queijo… sobrou alguma cerveja no barril?

– Nenhuma. – lamentou Klaus. – Vamos ter que comer à seco. Onde estão as facas?

– Não sei. Melhor usarmos nossas espadas.

Karl havia acabado de terminar a frase quando escutaram um barulho. Alguma coisa pesada e metálica havia caído perto da porta da cozinha. Sobressaltados, os dois foram até o local e viram uma pessoa caída.

Morto.

Uma faca negra estava cravada em suas costas, onde havia atravessado com facilidade a proteção da armadura.

– …achei uma faca… – murmurou Klaus.

– Droga, um dos nossos foi abatido! – exclamou seu amigo, desembainhando a lâmina. – Às armas! Às armas…!

– Espere! – ele segurou o companheiro pelo ombro.

– Esperar o quê?! – gritou Karl. – Venha comigo! Temos que avisar os outros!

– ESPERE!!!

O grito de Klaus o fez parar, aturdido.

– Olhe! – continuou. – Não é um dos nossos!

Naquela claridade ruim, Karl enfim percebeu que o homem caído não era um dos vigias. Vestia uma armadura parecida, só que mais leve e maleável, típica de ladrões furtivos.

– Mas então… este era um ladrão? – ele não conseguia entender. – Quem foi que….?

Ele parou a frase quando escutou um grasnado alto de um corvo.

A ave surgiu do meio da escuridão da sala, voando até o cadáver do ladrão morto. Com seu bico afiado começou a cutucar o ferimento, comendo a carne fresca e ainda quente.

A penumbra pareceu ficar ainda maior quando veio caminhando placidamente, do mesmo local que havia saído a ave, um homem vestindo armadura negra e capuz. Sua espada não tinha brilho algum e o aço era da cor da noite sem luas. Os dois guardas sentiram o corpo tremer violentamente quando este começou a se aproximar dele.

O rosto estava coberto, mas mesmo assim era possível perceber que o guerreiro vestido de negro não estava feliz.

– O ladrão escalou a janela desguarnecida. – disse, numa voz firme e fria feito um iceberg. – Voltem ao seu posto.

– Pe… perdão, herr Raben! – desculpou-se Klaus, agarrando Karl pelo braço e caminhando depressa até sua marca.

Quando chegaram até a janela ficaram ambos mudos por quase vinte minutos, até que começaram a falar ao mesmo tempo:

– Que puta susto…!

– Que cagada…!

Os dois pararam. Karl foi quem continuou:

– Deuses! Pensei que herr Raben fosse nos matar! – ele limpou um suor gelado da testa. – Pois é para isto que a gente serve, não é? Vamos todos morrer, não é? Todos! E ninguém vai dar a mínima! Quer dizer… tudo bem, podem nos matar! Depois o cavaleiro corvo dá um jeito de matar os inimigos sozinho! Somos apenas peões a serem sacrificados para defender esta maldita torre…!

– Chega! Já está falando demais! – ele baixou a voz. – Ele pode nos ouvir.

– Claro que pode! Ele já nos ouviu! – o homem cruzou os braços, emburrado. – Ele sabe tudo! Ele vê tudo! – e acrescentou, com um sarcasmo amargo. – Aposto que ganha muito mais do que a gente!

– Com certeza. – Klaus suspirou e, irritado, tirou os braços do para-peito e começou a limpar as mangas de novo. – Humpf! Um cavaleiro de tão alta patente poderia, pelo menos, ter dado mais educação aos corvos de estimação!

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