A Ponte sem Fim

Não havia um chão. Tão pouco uma paisagem nos flancos ou mesmo alguma construção acima ou abaixo. Nenhum ponto de referência. Nada que fosse visível além das tábuas de madeira enegrecidas, amarradas em cordas carcomidas que gemiam continuadamente. Por todos os lados havia apenas uma bruma de tom laranja-pálido, com suaves nuances esverdeadas. E apesar da estranha claridade que vinha de um ponto do céu (aquilo era o céu?), não dava para dizer que a luz vinha de um sol ou uma lua. Dia e noite não existiam.

A única coisa que era visível no horizonte – seja na ida ou na volta – era o interminável ponto de fuga que se seguia de um extremo a outro. Quatro incalculavelmente longas cordas, unidas umas às outras para formar uma ponte.

Era a Ponte sem Fim.

Domini estava andando nela havia muito tempo. Não podia dizer ao certo quanto, mas tinha quase certeza que pelo menos um dia inteiro já havia se passado. Mesmo assim não sentia cansaço, fome ou sede, e isto o preocupava. A última vez que viu alguma coisa antes da ponte foi há horas (ou dias, quem sabe). Estava num campo de batalha, lutando na legião esquerda do Imperador Aurélio, sob a regência do centurião Flavius. Lutavam contra os bárbaros da maldita Ilha de Estanho que recusavam-se a se render.

Foi ordenada a retirada, mas em meio à confusão de sangue, lama e cadáveres (e as árvores, malditas árvores!). Domini acabou se separando do grupo de viu-se perseguido por três inimigos. Cortou as tripas do primeiro, decapitou o segundo, mas o terceiro pulou sobre ele e enterrou uma adaga no seu peito. Os dois rolaram uma longa e dolorosa ladeira, agarrados um no outro, quando enfim o legionário conseguiu desvencilhar-se e matar seu oponente.

Com o sangue escorrendo livre e a cabeça rodando, o soldado ainda conseguiu se levantar e avançar mais alguns passos. A dor era tanta que ele já estava insensível a ela. Sentindo que caminhava em areia movediça, Domini percebeu que estava morrendo, mas continuou a marcha, disposto a morrer de pé. Formulou um último pensamento aos seus deuses: “Armato, grande magister militum, ao senhor lhe entrego meu espírito!” e ficou aguardando pelo desabamento do seu corpo.

Porém a queda que ele esperava não veio. Suas pernas ainda lhe obedeciam, embora a cabeça devaneasse cada vez mais. Logo ele percebeu que sua visão havia se turvado de vez. “Não importa.” ele pensou. “Que eu bata numa árvore ou tropece, mas não vou cessar de andar até minha morte. Morrerei como um homem.” E assim continuou, um passo depois do outro.

Quando a visão clareou mais uma vez ele estava caminhando na ponte.

– Estou morto? – era a sexta ou sétima vez que ele balbuciava aquelas palavras.

Aos poucos suas dores foram sumindo. Até mesmo o grave ferimento no peito, que necessitava de sutura, não ardia e nem mais vertia sangue. O corpo parecia ter recuperado todo o vigor, embora a sensação que Domini sentisse não fosse exatamente a de bem-estar. Seu corpo parecia ter o mínimo necessário para funcionar direito e a cabeça parecia ter excesso de dúvidas e pensamentos.

Onde estava? Que ponte era aquela? Como tinha ido parar ali? Porque por mais que caminhasse não conseguia enxergar o final dela, tão pouco podia ver seu início quando olhava para trás? Para onde a ponte o levava? Estaria ele indo ou voltando?

– Estou morto. – disse, pela primeira vez em tom de afirmação.

Decidiu parar. Sentou-se em meio ás vigas de madeira e percebeu que, sim, suas pernas estavam cansadas. Deus um suspiro profundo, percebendo que, a despeito do ferimento grave no peito, os pulmões funcionavam como se nada tivesse acontecido. Domini abriu os entalhes da armadura e percebeu que o buraco da adaga continuava ali, mas não doía. Deu uma risada triste, convencendo-se de uma vez por todas de que estava morto.

Porém, tinha que admitir, nunca pensou que o mundo dos mortos fosse isso: uma ponte sem fim.

Ainda conjecturava as suas ideias quando começou a sentir a ponte trepidar. Alguém estava caminhando por ela e chegando perto. No horizonte era possível distinguir a figura de um homem baixo, vestido em trapos. À medida que se aproximava Domini convenceu-se de que a figura não representava perigo. Parecia mais um pedinte, de barba negra pontilhada de branco, muito magro e com os cabelos longos revoltos debaixo de um capuz imundo.

– Oh, que surpresa! – disse o estranho, sorrindo amavelmente. – É raro encontrar alguém por aqui. Está perdido, não está, rapazola?

– Quem é você? – questionou o legionário, no seu tom ríspido de soldado. – Sabe onde estamos?

– Estamos numa ponte, como você pode bem ver.

– Não estou com disposição para sarcasmo. – Domini se levantou. – Diga onde estamos. Aqui ainda é a Ilha de Estanho?

– Ilha de Estanho? Não, não. Pode-se dizer que há, sim, uma ilha em uma ponta e na outra desta ponte, mas não são feitas de estanho. Bem, pelo menos não na maioria das vezes.

– O que quer dizer com isso?! Quem é você, afinal?

– Meu nome é Dar, rapaz. Sou apenas um miserável mendigo. – o homem fez uma mesura. – E percebo que nem toda a placidez deste lugar serviu para acalmar o fogo de sua alma. Sim, posso sentir o calor daqui onde estou. Você ferve.

– Minha alma ferve. – o legionário tomou aquilo como um elogio. – Sim, imagino que uma entidade como você deva perceber isso, pois duvido que seja um homem comum, pois ninguém pareceria tão tranquilo em um lugar estranho como este. – concluiu. – É algum assecla do deus da morte?

– Decerto não! – o homem sorriu. – Acha que está morto?

– É claro que estou. Devo estar morto. Ou talvez esteja sonhando.

– E porque não as duas coisas?

– Mortos não sonham. – Domini parecia irritado em explicar o óbvio. – As províncias de Orcus e Morfina não se tocam.

– Não?! – o mendigo parecia surpreso. Sorriu suavemente. – Bem, quem sou eu para discordar? De qualquer forma, foi um encontro agradável, rapaz, mas preciso seguir meu caminho. Estou com um pouco de pressa.

– Eu lhe darei passagem se me ajudar a encontrar o meu caminho.

– Ora, o caminho não é óbvio? Vá seguindo pela ponte. Ou então volte comigo.

O legionário começou a se irritar de novo, mas percebeu que o estranho estava certo. Os dois únicos caminhos possíveis já estavam indicados, a não ser que ele preferisse pular da ponte.

– O que vou encontrar do outro lado? – questionou o rapaz, por fim.

– Provavelmente Orcus ou Morfina. – ele parecia se divertir. – Quem sabe? Isso se conseguir chegar a algum final.

A vida militar de Domini lhe ensinou que perguntas incertas ou evasivas deveriam receber uma punição física. Porém ele olhava para o pedinte vestido em trapos e concluiu que bater nele estava muito abaixo de si. Ignorou a afronta e seguiu em frente, batendo com seu ombro pesado no ombro do mendigo, que não pareceu se irritar ou sequer perder o equilíbrio. Este apenas sorriu, balançou a cabeça e foi seguindo seu caminho enquanto o legionário caminhava na direção oposta.

E quando o mendigo desapareceu de vista, tudo voltou ao que era antes. O tom alaranjado do ambiente, com suaves nuances verdes. A estranha luz que parecia coberta por uma névoa eterna e fosca. E ele caminhou. Mas teria caminhado mesmo? Tudo parecia igual ao que era antes. Domini começava a duvidar que tinha, sequer, saído do lugar, embora tivesse andado por mais algumas horas – mas teriam realmente se passado horas?

– Eu não estou morto! – exclamou, levando a mão ao peito e sentindo que o coração ainda estava lá. E batia. Mortos não possuem corações que batem tão certo quanto os mundos dos deuses Orcus e Morfina não se misturam.

Então outra silhueta se mostrou no horizonte. O soldado quase sorriu, pois qualquer novidade naquela paisagem imutável era agradável. Porém o que ele viu foi a mais estranha das figuras.

Um homem de cabelos de duas cores, preto e branco, mas não como no cabelo dos idosos; o preto e o branco assumiam formas como na pelagem de um animal bicolor. O modo como os cabelos estavam penteados também era estranho: eriçados, raspados do lado e o restante erguido numa longa fileira, semelhante à crista do capacete que os próprios legionários usavam. As orelhas eram muito grandes e longas, semelhante às dos sátiros das florestas do Império de Mármore. Suas roupas também eram estranhas e rasgadas, com inscrições estranhas que pareciam letras na estampa e pequenos objetos de metal redondos pendurados à esmo num colete de couro negro. Desordem para os olhos.

– Eita, porra! – exclamou o estranho. – Achei que não ia ver mais ninguém por aqui! Alias achei que não ia ver mais ninguém o resto da minha vida. E aí, malandro? Perdido que nem eu, né?

– O quê?! – aquele modo de falar era estranho. – O que está dizendo? Quem é você?

– Engraçado, ia te perguntar esta mesma parada! E aproveitar para perguntar onde você está indo.

– Não sei onde estou nem para onde vou. Eu…

– Ah, merda! – o sujeito cortou a frase e bufou. – Pelo visto é pedir demais por um guia nesta joça, né? O jeito é continuar andando, então. Sai da frente, maluco. Tenho que passar.

– Por que eu deveria lhe dar passagem, aberração? – o legionário cerrou os punhos. – Saia da frente você.

– Ah, era o que me faltava! – o estranho ergueu as mãos e olhou fundo nos olhos de Domini, que só nesta hora percebeu que as pupilas do homem eram finas como as de um gato. – Um meia bosta pagando de corajoso! Te juro, em outra situação eu pegava um guarda-chuva, enfiava no seu rabo e abria! Mas como eu não tenho guarda-chuvas vou só te jogar lá embaixo.

– Tente, monstro! – exclamou. – Eu vou matá-lo antes disso!

– Ah, virou macho, é? Cai dentro!

A ponte balançava cada vez mais com a agitação dos dois, impossível firmar os pés. A parte de baixo era igual à parte de cima: infinita. Névoa laranja e verde e mais nada. Domini avançou…

– Para! Para! Eu tava zoando! – o sujeito estranho ergueu as mãos e cobriu a cabeça. – Tá doido que eu vou tretar com você no meio desta ponte, né? Embora eu creio que ela não vá quebrar, nem nada, nós dois vamos acabar indo pro saco!

– Então suma da minha frente!

– Ohhhh! Você quer que eu suma? Então tá bom… PUFF! – exclamou, fazendo um gesto largo com as aos. – Sumi! Agora sai da frente do desintegrado aqui e me deixa passar.

– Que tipo de criatura é você?! – o legionário balançou a cabeça.

– Taí outra pergunta que eu queria te fazer, mas aposto como não sabe a resposta também, não é? Licencinha… licencinha…

No fim quem acabou cedendo passagem realmente foi o soldado, mas o estranho tinha razão. Não havia espaço para orgulho num lugar como aquele. Uma briga no meio daquela ponte acabaria levando os dois para baixo.

E talvez não fosse melhor assim?

Há quanto tempo ele estava andando naquela ponte? Teria ela realmente um fim? E o que ele encontraria no final dela? Encontraria no meio do caminho mais figuras esquisitas como aquele mendigo e aquela criatura de roupas rasgadas e cabelos espetados?

Domini olhou para baixo e sentiu-se tentado. Mas desistiu. Prosseguiu, apenas com a bruma verde-alaranjada como testemunha e a ausência de vento, de calor, de frio e talvez até do próprio tempo.

E a ponte que nunca terminava. Era única coisa que existia. A única coisa que realmente parecia sólida, mais do que as lembranças da guerra da Ilha do Estanho ou de uma vida longínquoa no Império de Mármore.

– Estou sonhando. – concluiu Domini, pela última vez. – Agora só me resta saber quando acordarei.

E seguiu seu caminho.

Seu único caminho.

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