Não Vá Até Lá

nao vá até lá150

O cocheiro não tinha orelhas. Havia perdido ambas pelo frio intenso que fazia no norte do Grande Continente. O inverno já se avizinhava e pouca coisa se via além do branco da neve e do negro das pedras e troncos das árvores mortas. O desorelhado guiava seu veículo enquanto chicoteava dois infelizes cavalos de crinas congeladas. Dentro da carruagem a temperatura estava um pouco mais amena.

Nadja Yudin estava bem agasalhada em pele de urso negro e botas impermeáveis de couro de foca, mas um tremor lhe percorria o corpo todo. Estava sendo levada ao castelo do boiardo Otorten. A ideia de estar dentro de uma construção luxuosa, abrigada do frio e com uma lareira não lhe tirava o medo.

Muitas coisas estranhas falavam do senhor da mais norte das províncias. Para muitos ele era um boiardo generoso e gentil, para outros era um soberano arrogante e sanguinário. Muito se falava sobre sua mão forte em proteger seu povo dos selvagens Kossakos, enquanto alguns diziam que ele tratava a população com a mesma tirania. Nadja perguntou a viagem inteira ao cocheiro como era o boiardo Otorten, mas ele limitou-se a dizer que nunca o tinha visto: não era digno o suficiente para vê-lo.

Por toda a excursão pela neve a impressão que a garota tinha era a de que estavam viajando sozinhos na imensidão de gelo. Mas ela sabia que estava sendo protegida (ou melhor, vigiada) de perto pelos oprichniki, a guarda de elite do Czar de Todo o Norte. Homens poderosos e violentos que quase nunca se afastavam do seu senhor. Que importância tamanha tinha o boiardo Otorten para que os mais altos guerreiros do czar estivessem sob suas ordens?

Nadja recostou-se no macio banco da carruagem. Cobriu o rosto com os cabelos loiros. Ela estava sendo levada para se casar com Otorten. Com um homem que nunca tinha visto antes e que as histórias confusas a seu respeito eram inúteis em dar alguma pista sobre o que a esperava.

Muitas camponesas invejavam a vida das fidalgas, suas jóias, seus banquetes e sua nobreza. Pelo menos as mal-nascidas tinham mais liberdade para escolher seus homens. As filhas de boiardo não tinham escolha nenhuma. Seu pai, sobreano da Kevillachia, havia prometido sua única filha para o misterioso nobre do extremo norte. Nada a discutir.

Um soco violento foi desferido contra a janela da carruagem, assustando a garota. Um oprichnik vestido de branco passou a mão no vidro para tirar o excesso da neve e enxergar seu interior. Dentro da carruagem era tudo escuro, mas ele conseguiu ver Nadja, encolhida no banco. Anunciou:

– Chegamos, boiarda.

Chamaram-na de “boiarda”. A jovem não sabia se isso era bom ou ruim.

Uma construção imensa surgiu do meio da neve, encostado em uma grande montanha negra, salpicada de branco. Era o castelo Otorten. Suas estruturas eram um tanto disformes, tortas, com saliências diagonais estranhas que envolviam as torres como se fossem vinhas de pedra subindo numa árvore. O aspecto era desagradavelmente orgânico. A construção era negra, como se os tijolos tivessem sido feitos de ébano. Tijolos? Aproximando-se mais a impressão era de que o castelo fora esculpido na montanha e não construído sobre ela. Uma grande porta levadiça se abria para uma entrada que mais parecia uma boca de presas afiadas.

Os oprichnik a deixaram na porta e a jovem logo foi recebida por três velhas criadas. Sem dizer uma palavra ou esboçar um sorriso, as senhoras escoltaram a moça até uma grande sala iluminada por uma agradável lareira. Colocaram comida à disposição e foram embora caladas e estóicas. O ambiente interno do castelo era bem mais acolhedor, com grandes cortinas e mobília nova e bonita. Tudo limpo e com belas bandejas de prata com pão, mel, castanhas, amoras brancas selvagens e um jarro de cerveja aquecida. Por um momento, beliscando os petiscos, Nadja esqueceu-se completamente de onde estava.

Foi lembrada quando uma lufada poderosa de ar abriu uma das janelas e balançou uma pesada cortina na parede oposta que a cobria por completo. Debaixo dos panos havia um enorme quadro. Uma pintura da grande montanha que guardava as costas do castelo, mas sem a presença da construção.

– O nome Otorten vem dela.

A voz era veludo, suave e agradável; quase feminina. Por alguns instantes a garota pensou que aquilo tinha sido apenas um sussurro qualquer em sua cabeça até que olhou para trás. Lá estava, diante dela, o homem a quem chamavam de Venceslau Otorten, o vigésimo do seu nome.

De amedrontador não tinha nada. Vestia-se muito bem, como qualquer aristocrata que se prezasse. Tinha o rosto redondo e a pele branca, com quase nenhuma cor em suas bochechas, embora seu nariz arredondado fosse sensivelmente vermelho. Os cabelos tão loiros e luminosos que eram quase brancos, revoltosos como o pelo de uma ovelha selvagem. Seus olhos eram também muito claros, com as pupilas negras destacando-se desconfortavelmente. Era o único traço estranho e temível daquele lorde.

– Otorten é o nome da montanha. – disse o fidalgo, aproximando-se cauteloso como se ele fosse a virgem a ser entregue ao consorte. – Tribos selvagens já viviam aqui antes dos kossakos e do povo do czar. Foram exterminados, mas alguns de seus nomes permaneceram. Eles costumavam chamar esta montanha de Otorten, que no idioma antigo significa “não vá até lá”.

Nadja ficou calada por alguns segundos, até perceber que estava sendo mal-educada.

– Boiardo… – murmurou a garota, curvando-se numa mesura. – Meu pai, o boiardo da Kevillachia, deseja-lhe saúde, paz e riquezas… e sua filha.

– Que é você, naturalmente.

– Sim… – Nadja murmurou aquilo com a dor de quem confessa um pecado terrível.

Quando ergueu o rosto, a moça sentiu a mão enluvada do lorde segurar suas bochechas com delicadeza. Ela ergueu o olhar para encarar o dele. Ficou surpresa ao ver a expressão triste que Venceslau carregava, como se estivesse com pena dela. Após alguns segundos ele a soltou e virou-se na direção do jarro de cerveja, enchendo dois canecos de cristal.

– Ah, o velho Yudin! Enfim vai conseguir o que queria. – ele estendeu um caneco à moça. – Seu pai vem me fazendo propostas há anos. Não creio que você tivesse completado nove quando ele me prometeu você pela primeira vez.

– É mesmo? – ela parecia surpresa.

– Sim, uma vez que estive em seu castelo e a vi brincar com seus irmãos mais novos no pátio interno.

– Oh. – a surpresa foi maior ainda. – Eu… perdoe-me, mas eu não…

– …não se lembra? Não há o que perdoar, porque na ocasião não fomos apresentados. – ele tomou um gole da cerveja. – Fui fazer uma visita rápida e discreta à Yudin e ele casualmente mostrou-me você da sacada do quarto. Exibiu-a como um presente. Queria que eu me casasse com você, mas eu recusei.

– O senhor… recusou-me? – Nadja parecia confusa e apertou o caneco

– Claro que recusei. Você era uma criança. Ainda é, suponho.

– Sou uma mulher. – a garota ergueu o queixo. – Já tive minha primeira floração ano passado.

– Isso não faz de você uma mulher.

Nadja pareceu contrariada por um instante.

– Por que me contou isto? – questionou, desconfiada. – O senhor não me quer? Vai me recusar outra vez?

– Você está aqui, não está? – Venceslau parecia triste de novo. Virou o que restava do caneco numa golada. – Yudin ganhou. Embora eu confesse que preferiria me manter na viuvez por mais algum tempo.

– Oh! O senhor é viúvo? – seu pai não havia lhe dito isso. De fato não havia passado a ela informação nenhuma sobre seu futuro marido. Apenas enfiou-a na carruagem e mandou que se casasse. – Meus… sinceros pêsames. – foi a coisa mais educada que ela pensou em dizer.

– Foi bem treinada na arte da etiqueta vazia. – a expressão do homem mudou para resoluta. – Bem, não percamos mais tempo. Ordenarei às aias para que lhe banhem e lhe ofereçam um bom jantar. Elas irão preparar nosso quarto e então consumaremos logo nosso casamento. Esta noite.

– Consumar…? – o medo dançou nos olhos da jovem. “Acabei de chegar. Acabei de vê-lo pela primeira vez. Mal trocamos palavras… Vai ser assim, tão depressa?” ela pensou em dizer, mas não disse. Tudo que conseguiu balbuciar foi:  – Mas… e a cerimônia…?

– Cerimônia? Você quer dizer a sacramentação da nossa união diante dos deuses? – Otorten exibiu um sorriso torto e virou-se na direção do quadro da montanha que lhe dava o sobrenome. – Lembra-se o que eu falei sobre os selvagens? Eles evitavam este lugar porque diziam que dois demônios viviam aqui.

– Demônios…?

– Demônios. Seus nomes eram Knolat e Syakhyl. Invocados pela feitiçaria ruim de um xamã expulso da tribo há muito tempo. Dizem que as duas criaturas foram destruídas, ou talvez simplesmente mandadas de volta para o inferno. Mas sua mácula demoníaca permaneceu aqui. E onde existe a mácula, os deuses não são capazes de ver ou ouvir nada. Uma cerimônia neste lugar seria inútil, já que os divinos não poderiam presenciá-la.

Nadja arregalou os olhos e deixou o caneco pender da sua mão, segurando-o antes de cair, mas derramando um pouco de cerveja.

– Os deuses… não podem vir até aqui? – o temor estava instaurado em sua voz. – Eles não podem… nos ouvir?

– Nem nos ver. Não há nenhum lugar no mundo onde preces sejam mais inúteis. Lembra-se do nome da montanha? “Não vá até lá”.

………………………………………………………………………….

Georgy Yudin estava irritado. Discutiu com o pai três vezes quando a carta chegou informando que Nadja e Venceslau estavam casados. Sem cerimônia. Sem sacramentação.

– Como ele ousou tomar uma donzela sem antes pedir permissão aos deuses?!

De todos os irmãos de Nadja ele era o único que parecia realmente preocupado com a felicidade da garota. Tentou convencer o velho Yudin que ela merecia ter pelo menos o direito de dizer sim ou não aos pretendentes que lhe fossem ofertados, e não se casar com o primeiro que aparecesse. Não houve conversa. Aquele casamento era importante demais em termos políticos e econômicos.

Kevillachia e Otorten eram as duas maiores províncias em largura territorial do czarado, mas eram também as mais frias e desabitadas. Os rendimentos dos tesouros combinados era o desejo do boiardo Yudin há muitos anos. A notícia da consumação do matrimônio sem o matrimônio em si foi vista como um ‘está feito’ pelo pai pouco zeloso, uma garantia de que o acordo estava assinado. Mas Georgy ficou possesso.

– Vou ver minha irmã! Exijo vê-la! Quero saber como ela está sendo tratada por este Venceslau-cabelo-de-ovelha!

Quando o rapaz o viu pela primeira vez, há quatro anos, julgou-o apático e efeminado. O pai o repreendera, dizendo que o homem estava assim devido ao recente falecimento da esposa. Não gostou de ouvir sobre o plano de casar Nadja, a irmãzinha de apenas nove anos, àquele viúvo esquisito. E mesmo agora, que ela tinha treze, a proposta ainda lhe era indigesta. Mas não havia mais muito que fazer.

Diante dos portões levadiços que pareciam uma boca arreganhada, Georgy foi recebido por um criado e escoltado para dentro do castelo Otorten. Exigiu ver a irmã, algo que ele não precisou falar duas vezes.

– Irmão!

Nadja apareceu diante dele. Estava bela, adornada com um vestido escuro, com os cabelos loiros presos numa tiara finíssima e um sorriso enorme no rosto.

– Irmãzinha! – o rapaz a abraçou. – Pelos deuses, você está bem?

– Se estou bem?! – a garota ergueu a voz, triunfante. – Georgy, estou ótima!

– Ótima? – o rapaz pareceu confuso. – Está mesmo…?

Ele a afastou com docilidade, olhando para sua barriga. Estava volumosa.

– O que significa isto?! – exclamou.

– Como assim o que significa? Estou grávida, irmão!

A declaração chocou-o.

– Grávida?! – ele olhava para o rosto da moça. – Mas… grávida? Como assim?

– Ora, não é isso que acontece na noite de núpcias de um homem e uma mulher?

“Um homem e uma mulher?! Nadja… minha irmã… quando você amadureceu tanto?!”

– Eu… – as palavras falharam. – Sim, é isso que acontece. Mas foi tudo tão rápido. Quero dizer… nem houve casamento. Recebemos a carta dizendo que você e Otorten já haviam consumado a união, mas nem fomos chamados para nenhuma festa ou banquete…

– Ora, para quê perder tempo com isso? Meu Venceslau foi muito sábio em apressar as coisas.

“MEU Venceslau?!” pensou o rapaz.

– Então… gostou dele? Gostou dele realmente, Nadja?

– Se gostei? Meu querido Venceslau foi a melhor coisa que me aconteceu. Depois de você, é claro, Georgy!

O jovem se lembrava da expressão de medo e descontentamento no rosto da irmã, da pobre irmãzinha, quando seu pai lhe ordenou que se casasse com o estranho boiardo. Lembrava-se das dúvidas e da noite em que ela chorou e ele a confortou. Da apreensão que ela sentia diante daquele casamento tão repentino. O irmão mais velho tentou tranquiliza-la: “Esse tal Otorten será bom para você. Por que se não for eu o mato!”

Aparentemente Georgy não precisaria matar ninguém.

– Venha, querido! – ela o puxou pela mão. – Quero lhe mostrar o meu quarto. E também minhas jóias e vestidos. E também o pátio e o pequeno jardim que temos dentro do castelo. Oh, é tudo tão lindo aqui!

– Lindo… – o rapaz jamais usaria este advérbio para classificar o castelo negro encravado na montanha quando o viu pela primeira vez. – Nadja… você está realmente bem aqui?

– Ora, mas é claro! Por que está duvidando?

– Não sei… – “tudo tão rápido…” – Bem, mas se você está feliz, se você me garante que realmente está feliz…

– Estou! E estarei mais ainda quando meus filhos nascerem.

– Filhos?

– Sim! Serão gêmeos!

Georgy balançou a cabeça.

– Como pode ter certeza?

– Oh, a aia que está cuidando de mim é uma parteira muito experiente. E uma xamã. Ela sabe destas coisas. Garantiu-me que meus filhos serão gêmeos. Um menino e uma menina, não é maravilhoso?

– Sim, suponho que sim. – o rapaz olhava para a barriga da irmã, ainda incrédulo. “Pelos deuses, meses atrás ela era só uma garotinha…” – E já escolheu os nomes das crianças?

– Sim! – o sorriso de Nadja era o mais luminoso e tenro que Georgy já tinha visto na vida. – Serão Knolat e Syakhyl!

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