O Artífice

Uma luz cintilante brilhava no fio da espada. Uma mão enrugada, mas firme, segurava o cabo da arma enquanto a outra acariciava o metal levemente. Das mãos do homem calvo e de barba branca, a luz tremeluzia alegre, com faíscas típicas do fogo ao ser golpeado por um martelo. Havia alguns instrumentos metálicos espalhados pelas mesas e pelo chão, se falar em algumas armas. O aspecto daquele lugar era semelhante ao de uma ferraria; e de fato era isso, e um pouco mais. Para aquele “ferreiro” sua ferramenta era a magia.

Do lado de fora de sua loja, balançava sob a brisa suave da noite uma placa onde era possível ler “Stefan Dürer – Artefatos”. O velho dono do estabelecimento era um Artífice. Um mago especialista em forjar armas mágicas (ou Artefatos, como são formalmente chamados). Era o único profissional da área na cidade de Schwarburg e por isso era um dos cidadãos mais ricos de lá – e também um dos mais atarefados.

Naquele quarto pequeno, o Artífice encontrava-se sozinho. Sobre a mesa, outras armas mágicas a espera de compradores. As vendas não eram muitas, mas bastava uma por mês para a situação financeira ficar confortável. Armas mágicas eram raras e caras.

A espada que o homem forjava naquele momento era uma encomenda de um Paladino da Cruz de Ferro, e por isso ele cuidava dela com esmero, até ser interrompido. Batidas na porta do quarto tiraram sua concentração. Uma matrona de cabelos grisalhos entrou no recinto.

_Stefan? Querido! Você viu lá fora? – disse ela, com voz doce.

_Não, meu amor. – respondeu o mago, sem tirar os olhos do seu trabalho. – Qual o problema?

_O problema é que as luas já estão no alto-céu e você ainda não veio para a cama!

_Lamento muitíssimo, querida! – o homem sorriu para a mulher, mas sem desviar-se do seu trabalho. – Mas você sabe que o refinamento final da lâmina é a parte mais importante. Se eu cometer um erro nesta etapa, todo o trabalho estará perdido.

A mulher sorriu e ficou em silêncio, à espera do marido no batente da porta. Depois de alguns minutos, a luz cintilante de suas mãos desapareceu e a lâmina da espada brilhou alegre.

_Pronto! – disse o homem, triunfante, enquanto alisava o fio reluzente com o polegar. – Está feito! Uma das melhores espadas que já forjei.

_Você está trabalhando nela há mais de um mês. – a mulher aproximou-se do marido e colocou as mãos sobre seus ombros. – Por que tanto cuidado?

_Porque esta espada foi-me encomendada pelo Paladino Johann von Hohenzollern em pessoa. Ele fez questão que fosse eu a cuidar da sua espada.

_Ah! Outro assassino. – a mulher balançou a cabeça. – Admira-me você, Stefan… sempre tão doce e gentil, tão entusiasmado em fabricar ferramentas de morte.

_Pode-se matar uma pessoa com uma pedra ou um galho de árvore pontudo. Você irá culpar a natureza por fazê-los? – o mago colocou a espada cuidadosamente sobre a mesa. – Se não houvesse espadas e outros instrumentos de morte, as pessoas simplesmente usariam suas unhas e dentes. Não sinto culpa nenhuma nisso.

_Então ao menos deveria sentir culpa de deixar sua mulher dormindo sozinha quase todos estes dias…

_Meu amor! – o homem a abraçou e beijou-lhe o rosto demoradamente. – Não creio que nos últimos anos tenha feito muita diferença. É mais fácil para mim fabricar uma arma mágica do que erguer minha velha espada.

_Não me importo. – a mulher riu. – Contanto que você durma ao meu lado.

_Já irei.

A matrona saiu do pequeno quarto fechando a porta delicadamente. O mago pegou a lâmina e olhava para ela demoradamente: belíssima! Stefan tinha muito orgulho do seu trabalho. Era reconhecido entre os guerreiros de Schwarburg como o melhor dos melhores. Todos eles trabalhavam meses, ou até anos, apenas para juntar dinheiro e ter o privilégio de comprar uma das suas obras-primas.

Stefan acariciou a cabeça, pegou um pano de linho e embrulhou a lâmina mágica. Apesar do seu sorriso ele estava um pouco inquieto. O seu cliente chegaria dentro de três dias e ele nem tinha começado a preparar a bainha. E devia ser uma bainha especial, feita de couro curtido da melhor qualidade e preparada com uma solução feita de Penas de Harpia; uma besta horrenda, com um corpo que era uma mistura grotesca de águia com morcego e feições perturbadoramente humanas e femininas. Forte e violenta. Mas era mágica, e por isso havia poder em suas penas.

O problema era que o Artífice não tinha nem uma ampola deste produto no momento. Tão pouco poderia comprá-lo, pois ele não é facilmente comercializado. A única forma de obter suas penas é indo até seus ninhos. Pode-se tentar colher as penas que caem ou então pegá-las a força de uma delas. Quanto mais frescas melhores, embora a tarefa seja extremamente perigosa.

Há cinco dias Stefan contratou um pequeno grupo de jovens aventureiros para conseguirem este último ingrediente para a fabricação da bainha. Após quatro noites sem nenhuma resposta, o mago imaginava que o grupo talvez tenha sido morto durante a missão. “Triste!” pensou. “E o problema é que estou sem as penas de harpia!”. Ele tamborilou os dedos no cenho e esfregou os olhos. “Preciso delas bem rápido! Acho que não terei escolha a não ser comprá-las superfaturadas na Capital.”

Depois de guardar a arma num baú protegido, o mago saiu do pequeno quarto e atravessou uma porta que dava para a cozinha. Sua mulher havia deixado chá quente sobre o fogão a lenha, o qual ele tomou em grandes goles. Foi para o quarto, trocou de roupa e deitou na cama. Sussurrou “Boa Noite” no ouvido da mulher e se aconchegou ao lado dela.

Mas assim que o mago começou a fechar os olhos, teve um sobressalto ao ouvir ruidosas batidas na porta.

_Abra! Mestre Stefan Dürer, abra!

Assustado, o artífice foi abrir a porta celeremente. “Deuses, o que é isto?!” ele pensava. “Que tipo de emergência é esta?!” E assim que abriu a porta tomou o seu segundo susto. Diante dele estavam quatro homens altos e fortes. Estavam vestindo armaduras brancas, com uma cruz negra no peitoral, entrecortada por detalhes amarelos. Eram Paladinos da Cruz de Ferro, os mais poderosos guerreiros do reino.

Um deles vestia a indumentária mais pomposa das quatro, enquanto carregava o elmo pesado nas mãos. Seus cabelos e sua barba eram negros em contraste como a armadura, embora alguns fios brancos pudessem ser vistos no queixo e atrás das orelhas. O homem trazia um olhar de fúria, mas esta não era direcionada ao dono da casa.

_Perdoe-me por acordá-lo tão tarde da noite, mestre Dürer, mas a urgência se fez maior. – o homem deu um passo ameaçador para frente. – Creio que se lembre de mim.

_ Herr Johann! – o mago prendeu a respiração por um instante. – Claro, meu senhor. Mas o que deseja neste…?

Antes que Stefan pudesse terminar a frase, o homem avançou para entrar. O mago não teve outra saída a não ser se afastar e dar espaço. Dos homens que o acompanhavam dois ficaram do lado de fora e um adentrou grosseiramente atrás do seu líder.

_Preciso de minha espada. Agora. – disse o paladino, sem cerimônia.

_Agora? – o artífice parecia confuso. – Mas ainda não está pronta… quer dizer, está! Mas ainda falta…

_Não importa! Sei que estou pedindo a arma antes da data combinada e assumo a responsabilidade por isso. Mas preciso dela agora.

_Hã… pois não.

O mago abriu seu baú e entregou a lâmina embrulhada no linho. O Paladino da Cruz de Ferro a pegou nas mãos e arregalou os olhos ao ver a qualidade da espada.

_Parece esplêndida. – elogiou.

_Ainda falta fazer a bainha, Herr Johann. – explicou o mago, timidamente.

_Não se incomode. Fico feliz que ela já esteja pronta. A bainha é só um detalhe.

Não, não era. Uma espada mágica precisa ser conservada dentro de uma bainha apropriada, do contrário sua capacidade mágica vai se perdendo.

_Herr, a espada ainda precisa de…

_Preciso usá-la agora. – cortou o homem. – É urgente. Acabou de voltar de viagem e descobri que meu filho desapareceu.

_Seu filho? – o mago parecia chocado.

_Sim. Meu filho Hermman! Ele é um escudeiro e iria se formar cavaleiro no ano que vem. No entanto se juntou a um grupo de aventureiros e saiu para uma missão sem nem ao menos me avisar! Ah… maldito seja aquele moleque amigo dele! – e o paladino golpeou a mesa de trabalho do mago com a espada. Nem fez muito esforço e a madeira foi cortada que nem manteiga. – Perdoe-me, mestre Dürer, mas a raiva me consome!

O mago nada disse e apenas se afastou. O Paladino olhava para a lâmina da sua nova espada enquanto falava.

_Meu filho há muito nutria o desejo de se tornar um aventureiro. Falava sempre disso, mas eu o advertia que a vida de aventureiro é perigosa e aconselhava a ele ao menos se formar como cavaleiro antes de tentar. Mas há cinco dias o vermezinho do Karl, escudeiro amigo dele, chamou-o para uma missão que envolvia matar algumas harpias. Criaturas extremamente perigosas para o nível de meu filho. Ah! Maldito Karl! – o paladino fechou o punho.

_Ah… – Stefan nada disse. Apenas observou o homem esmurrar a mesa.

_Caçar harpias… para quê? Karl, se ainda estiver vivo, juro que vou fazê-lo implorar pela morte! Ele e os outros aventureiros descabeçados que arrastaram o meu menino para uma aventura tão desproposita! E também vou enterrar esta espada na barriga do maldito contratador deles! – o homem bateu no peito da armadura. – Como ele ousou delegar uma tarefa tão perigosa vendo que no grupo de aventureiros havia um menino inexperiente?

O mago continuou calado, enquanto um suor frio escorria pelo seu pescoço.

_Ah, perdoe-me mais uma vez, mestre Dürer. Creio que isso não lhe diz respeito. Bem… – o paladino tirou uma gorda e pesada algibeira do cinto e a jogou sobre a mesa partida. – Aqui está o pagamento.

_Hã… espere… Herr Johann… como o senhor não vai esperar pela bainha, o preço da espada será menor…

_Não se incomode. As moedas extras ficam pelo incômodo de tê-lo acordado à esta hora e pelos danos que causei à mesa. Creio que eu devo me retirar agora, já estou sendo por demais inconveniente. – e o paladino se dirigiu para a saída, mas antes voltou-se rapidamente. – Se souber de alguma notícia do meu filho, ou souber que foi que o contratou, por favor, não deixe de me avisar, mestre Dürer. Estou realmente ansioso para usar esta espada nos responsáveis pelo sumiço de Hermman. E, que os deuses me poupem, responsáveis por sua morte!

Mais uma vez o mago não respondeu, e apenas viu aqueles homens indo embora tão abruptamente quanto chegaram. Devagar, ele fechou a porta e guardou a algibeira de moedas.

Logo voltou para o quarto com a esposa.

_O que foi isso? – reclamou a matrona. – Que homens desagradáveis e barulhentos! Meu coração está aos pulos com o susto.  Juro, Stefan! Estes seus clientes vão acabar nos matando!

_Meu amor… – o Artífice balbuciou algo incompreensível e depois balançou a cabeça. – Apenas me abrace…

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