Skal

Eram mais de três metros que o separavam do chão inclinado. Thygwyr nem pensou antes de castigar seus pobres calcanhares com a queda. Não fraturou os pés, mas acusou a batida; suas botas de pelo e couro mole de alce não ofereciam grande amortecimento.

Sentindo o choque do impacto até a altura dos joelhos, mas sem se deixar abater, o rapaz de longos cabelos e barbas loiras correu por entre a mata fechada, sempre descendo o morro. Escorregou duas vezes na pedra lisa, ralou as costas, deixou suas roupas repletas de pequenos rasgos e furos em sua passagem apressada pelos arbustos duros e afiados feito agulhas. Olhava sempre para baixo, nunca para trás. Seus olhos estavam vidrados. Parecia estar fugindo de um monstro furioso.

Quando enfim alcançou o chão da mata teve que se deixar parar um segundo. Dois segundos. Três. Resfolegando, com feridas no corpo e os pés doloridos, o enorme bárbaro começou a vasculhar o chão frio e escuro da floresta com o afinco de um carcaju esfomeado. Feriu também as palmas das mãos enquanto empurrava folhas e galhos pesados do caminho. Por um momento sentiu-se desesperado. Socou o chão.

Parando mais um segundo, enquanto sentia o incêndio de seus pulmões abrandar, viu manchas de sangue por perto. Ergueu-se, ainda sentindo as pernas moles pelo esforço.  Viu mais algumas gotas vermelhas espalhadas nos troncos e folhas próximas.

– Aqui! – gritou para si mesmo. – Caiu por aqui!

Teve que descer mais alguns metros até finalmente encontrar aquilo que procurava. Estava ali, um pouco mais para baixo, todo quebrado em meio às pedras. Sorriu quando o encontrou. Gargalhou quando o pegou nas mãos.

Um cadáver.

O cadáver do homem que ele havia acabado de matar.

A subida foi bem mais lenta e demorada. Quando Thygwyr surgiu por entre seus companheiros no alto do morro, exibindo um sorriso do alto dos seus um metro e oitenta, um dos bárbaros mais velhos o ralharam. Já era homem feito, com muitas mortes nas mãos, e mesmo assim foi chamado de:

– Moleque doido! – gritou um guerreiro mais velho, sacudindo as mãos. – Como você me pula este barranco gigantesco assim, do nada?! Queria perder a vida de forma desonrosa?

– Não… – o jovem bárbaro permitiu-se apoiar em um joelho para retomar o fôlego. – É que o infeliz… o infeliz… o filho de uma vaca que eu matei caiu ribanceira abaixo… tive que buscá-lo.

– Oh. – o sujeito que havia gritado com Thygwyr parecia um pouco mais compreensível. – Entendo, você queria pegar os espólios do cadáver. Mas mesmo que ele tivesse ouro e prata consigo, para quê arriscar a vida desta forma? Para que a pressa? Poderia ter resgatado o corpo depois.

– Ah! E perder a festa?! – o ânimo do guerreiro foi desperto, principalmente quando ele viu dois companheiros carregando nas costas pesados barris de cerveja e depositando-os no meio de uma pilha de cadáveres. Homens que a tribo de Thygwyr havia matado. – Esqueceu-se de nossas leis? Um guerreiro só participa do Banquete dos Corvos se trouxer a sua caneca! De preferência uma caneca que tenha “matado” e “entalhado” com suas próprias mãos!

Sorrindo mais ainda, Thygwyr ergueu a cabeça decepada do morto que trazia em meio às suas peles.

O barbaro que havia lhe dado uma bronca riu ruidosamente. Num golpe seco, o jovem guerreiro arrancou fora o maxilar da cabeça decepada e despejou os miolos no chão. Logo um de seus companheiros despejou o conteúdo do barril naquela carcaça ensanguentada: cerveja do norte da mais forte que se podia encontrar.

Aquele era o Banquete dos Corvos. A festa tradicional que os bárbaros aulgemir faziam toda a vez que encerravam uma batalha. Sempre traziam bebida, mas jamais levavam taças. Elas tinham que ser arranjadas ali, na hora. E quem não tinha matado um inimigo (e por isso não tinha descolado um “caneco”) não ganhava aguardente.

– O que essa molecada não faz por uma cervejota! – riu o chefe do bando, erguendo também a sua “taça”. – Este é o meu garoto!

E brindaram, ao som de cabeças decepadas cheias de bebida batendo uma na outra:

– SKAL!!!

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